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Wellington Freire

Maio: o mês em que a Europa caiu - e renasceu

Wellington Freire - 25 de Maio de 2026 | 06h 39
Maio: o mês em que a Europa caiu - e renasceu

Há meses que parecem carregar uma densidade histórica incomum. Maio é um deles. Na cronologia da Segunda Guerra Mundial, o mês concentra dois movimentos simétricos e quase trágicos da história europeia moderna: em maio de 1940 iniciou-se o colapso da França diante da ofensiva alemã; em maio de 1945 consumou-se a destruição do Terceiro Reich e a capitulação da Alemanha nazista. Entre essas duas datas estende-se um intervalo de apenas cinco anos, tempo ínfimo para os padrões da história, mas suficiente para destruir uma ordem civilizacional inteira.

A Europa que entrou em maio de 1940 ainda carregava os vestígios psicológicos do século XIX. Apesar da brutalidade da Primeira Guerra Mundial, persistia entre as elites europeias a crença profunda de que a civilização continental possuía certa estabilidade histórica. Paris permanecia sendo o centro simbólico do Ocidente; Londres ainda governava oceanos; os impérios coloniais pareciam estruturas permanentes. Mesmo os generais franceses preparavam-se para uma guerra lenta, racional, quase geométrica, moldada pelas memórias das trincheiras de 1914.

Então veio a velocidade. A ofensiva alemã de maio de 1940 não destruiu apenas exércitos: destruiu o próprio ritmo histórico ao qual a Europa estava habituada. A Blitzkrieg introduziu uma nova experiência do tempo militar. Divisões blindadas atravessavam fronteiras em dias; governos evaporavam em semanas; sistemas políticos desmoronavam antes mesmo de compreender a natureza da ameaça que enfrentavam. A modernidade industrial havia finalmente penetrado o coração da guerra.

Em menos de dois meses, a França - herdeira de Napoleão, potência vencedora da Primeira Guerra, centro intelectual da Europa - encontrava-se derrotada. O impacto psicológico foi devastador. Não caiu apenas um Estado; caiu a própria ideia de permanência da civilização europeia liberal. A imagem de soldados alemães marchando sob o Arco do Triunfo possuía algo de irreal, quase mitológico: como se a própria história houvesse subitamente mudado de eixo.

Os antigos impérios frequentemente morriam lentamente. Roma levou séculos para se dissolver; Bizâncio agonizou durante gerações; mesmo os grandes reinos medievais declinavam em ritmos orgânicos, permitindo às sociedades assimilar gradualmente a decadência. Os Estados modernos, porém, revelaram uma fragilidade inédita. Sua força tecnológica trazia consigo uma vulnerabilidade proporcional. Quanto mais complexa a engrenagem, mais abrupto o colapso.

A Europa descobria, horrorizada, que a modernidade também acelerava a ruína.Cinco anos depois, em maio de 1945, o continente contemplava outro espetáculo histórico de dimensões quase apocalípticas. Agora era Berlim que ardia. O Reich que prometera durar mil anos sobrevivera apenas doze. A Alemanha que parecera invencível em 1940 transformara-se num campo de escombros fumegantes. As avenidas monumentais concebidas para simbolizar eternidade terminavam cercadas de cadáveres, blindados destruídos e edifícios carbonizados.

Entre maio de 1940 e maio de 1945, ocorreu não apenas uma guerra, mas a autodestruição da velha centralidade europeia. Quando os combates cessaram, França, Alemanha e Reino Unido permaneciam no mapa, porém já não comandavam o destino do mundo. O centro gravitacional da história deslocara-se para Washington e Moscou. Pela primeira vez em séculos, a Europa deixava de ser sujeito absoluto da política internacional para tornar-se palco da disputa entre superpotências externas.

Há nisso uma ironia histórica profunda. A guerra iniciada como tentativa alemã de estabelecer a hegemonia continental terminou acelerando precisamente o fim da supremacia europeia global. O continente que dominara oceanos, impérios e rotas comerciais desde o século XVI emergia de 1945 física, moral e demograficamente exausto.

Mas maio de 1945 não representou apenas ruína. Representou também um renascimento parcial. Das cinzas da guerra surgiriam as sementes da reconstrução europeia do pós-guerra: integração econômica, alianças atlânticas, democratização da Alemanha Ocidental e, décadas depois, o projeto da União Europeia. O continente renasceria, embora sob outra forma — menos imperial, menos confiante, menos central.

Talvez por isso maio permaneça como um mês simbólico da história europeia moderna. Em 1940, a Europa descobriu a velocidade da queda. Em 1945, descobriu a profundidade do abismo. E foi precisamente dessa experiência extrema de destruição que nasceu a difícil reconstrução do continente contemporâneo.



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