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Wellington Freire

Pequim tornou-se a nova capital do mundo?

Wellington Freire - 23 de Maio de 2026 | 09h 56
Pequim tornou-se a nova capital do mundo?
Foto: Folha de S.Paulo

Durante a Guerra Fria, a geometria do poder mundial possuía um vértice claramente identificado: Washington. Era ali que convergiam as grandes decisões estratégicas do planeta. Moscou podia rivalizar militarmente; Pequim podia representar uma incógnita revolucionária; mas o centro gravitacional da ordem internacional permanecia americano. Henry Kissinger compreendeu isso com precisão quase matemática ao arquitetar, nos anos 1970, a célebre diplomacia triangular que aproximou Estados Unidos e China para isolar a União Soviética. A genialidade daquela manobra residia justamente no fato de que Washington ocupava o vértice superior do triângulo, manipulando a distância entre Moscou e Pequim conforme seus interesses.

Meio século depois, a fotografia histórica parece invertida. Donald Trump e Vladimir Putin desembarcaram em Pequim na mesma semana. Ambos foram recebidos por Xi Jinping no mesmo salão, sob a mesma coreografia cuidadosamente calculada do poder chinês: guardas cerimoniais, bandeiras agitadas por crianças, tapetes vermelhos impecavelmente alinhados. À primeira vista, tratava-se apenas de protocolo. Mas os impérios sempre souberam que cerimônias são formas silenciosas de hierarquia.

O que realmente importa não é o teatro diplomático em si, mas aquilo que ele revela sobre a redistribuição global de poder. Trump chegou acompanhado por executivos da Apple, Tesla e Boeing, buscando estabilizar relações comerciais e recuperar espaço econômico. Putin veio cercado de ministros de energia, banqueiros e negociadores de infraestrutura, tentando converter sua dependência estratégica em contratos duradouros com a China. Um buscava mercados; o outro, sobrevivência geopolítica.

Ambos, porém, tinham algo em comum: precisavam de Pequim. A diferença é monumental. Durante décadas, líderes estrangeiros viajavam a Washington para obter garantias militares, respaldo financeiro ou legitimação diplomática. Hoje, até adversários entre si precisam atravessar Pequim antes de mover peças decisivas no tabuleiro internacional. A China deixou de ser apenas uma potência regional asiática para tornar-se uma espécie de eixo gravitacional do sistema global.

Isso não significa que Pequim tenha substituído integralmente os Estados Unidos como hegemonia mundial. A supremacia militar americana permanece colossal, sobretudo no domínio naval, tecnológico e financeiro. O que mudou foi algo mais sutil  e talvez mais profundo. Mudou o lugar da China dentro da lógica psicológica do poder internacional.

Nenhuma grande questão estratégica contemporânea pode mais ser pensada sem Pequim. A guerra na Ucrânia depende da posição chinesa sobre Moscou. A estabilidade energética mundial passa pelos cálculos industriais chineses. O futuro de Taiwan tornou-se a principal variável militar do Pacífico. Até mesmo Washington, que durante décadas definiu unilateralmente os ritmos da ordem global, agora mede cuidadosamente seus movimentos diante da reação chinesa.

A presença quase simultânea de Trump e Putin em Pequim possui, portanto, um valor simbólico imenso. Não foi apenas uma sequência de visitas diplomáticas. Foi uma demonstração visual do novo desenho do sistema internacional. Xi Jinping apareceu como algo mais do que líder nacional: surgiu como o anfitrião inevitável das grandes tensões globais.

Há um detalhe particularmente revelador nisso tudo. A China não exerce essa centralidade reproduzindo exatamente o modelo americano do pós-Guerra Fria. Pequim evita alianças militares rígidas, não exporta messianismo ideológico em escala planetária e raramente assume compromissos definitivos. Sua força está precisamente na ambiguidade calculada. Aproxima-se da Rússia sem tornar-se refém dela. Negocia com os Estados Unidos sem aceitar subordinação. Mantém pressão militar sobre Taiwan enquanto preserva o discurso de estabilidade regional.

Xi parece compreender algo que os antigos estrategistas imperiais conheciam bem: o centro do poder não é necessariamente o lugar que domina todos os outros, mas aquele sem o qual nenhum outro consegue agir plenamente. Na Guerra Fria, Washington jogava China e União Soviética uma contra a outra. Hoje, ironicamente, é a China que observa americanos e russos orbitarem sua própria centralidade estratégica.

Talvez essa seja a transformação mais importante do século XXI. Não apenas a ascensão econômica chinesa, mas a lenta mudança da geografia mental do poder mundial. Na segunda metade do século XX, o caminho para o mundo passava por Washington. No início do século XXI, cada vez mais rotas parecem conduzir inevitavelmente a Pequim.



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