Durante a Guerra Fria, a geometria do poder mundial possuía
um vértice claramente identificado: Washington. Era ali que convergiam as
grandes decisões estratégicas do planeta. Moscou podia rivalizar militarmente;
Pequim podia representar uma incógnita revolucionária; mas o centro
gravitacional da ordem internacional permanecia americano. Henry Kissinger
compreendeu isso com precisão quase matemática ao arquitetar, nos anos 1970, a
célebre diplomacia triangular que aproximou Estados Unidos e China para isolar
a União Soviética. A genialidade daquela manobra residia justamente no fato de
que Washington ocupava o vértice superior do triângulo, manipulando a distância
entre Moscou e Pequim conforme seus interesses.
Meio século depois, a fotografia histórica parece invertida.
Donald Trump e Vladimir Putin desembarcaram em Pequim na mesma semana. Ambos
foram recebidos por Xi Jinping no mesmo salão, sob a mesma coreografia
cuidadosamente calculada do poder chinês: guardas cerimoniais, bandeiras
agitadas por crianças, tapetes vermelhos impecavelmente alinhados. À primeira
vista, tratava-se apenas de protocolo. Mas os impérios sempre souberam que
cerimônias são formas silenciosas de hierarquia.
O que realmente importa não é o teatro diplomático em si, mas
aquilo que ele revela sobre a redistribuição global de poder. Trump chegou
acompanhado por executivos da Apple, Tesla e Boeing, buscando estabilizar
relações comerciais e recuperar espaço econômico. Putin veio cercado de
ministros de energia, banqueiros e negociadores de infraestrutura, tentando
converter sua dependência estratégica em contratos duradouros com a China. Um
buscava mercados; o outro, sobrevivência geopolítica.
Ambos, porém, tinham algo em comum: precisavam de Pequim. A
diferença é monumental. Durante décadas, líderes estrangeiros viajavam a
Washington para obter garantias militares, respaldo financeiro ou legitimação
diplomática. Hoje, até adversários entre si precisam atravessar Pequim antes de
mover peças decisivas no tabuleiro internacional. A China deixou de ser apenas
uma potência regional asiática para tornar-se uma espécie de eixo gravitacional
do sistema global.
Isso não significa que Pequim tenha substituído integralmente
os Estados Unidos como hegemonia mundial. A supremacia militar americana
permanece colossal, sobretudo no domínio naval, tecnológico e financeiro. O que
mudou foi algo mais sutil e talvez mais profundo. Mudou o lugar da China
dentro da lógica psicológica do poder internacional.
Nenhuma grande questão estratégica contemporânea pode mais
ser pensada sem Pequim. A guerra na Ucrânia depende da posição chinesa sobre
Moscou. A estabilidade energética mundial passa pelos cálculos industriais
chineses. O futuro de Taiwan tornou-se a principal variável militar do Pacífico.
Até mesmo Washington, que durante décadas definiu unilateralmente os ritmos da
ordem global, agora mede cuidadosamente seus movimentos diante da reação
chinesa.
A presença quase simultânea de Trump e Putin em Pequim
possui, portanto, um valor simbólico imenso. Não foi apenas uma sequência de
visitas diplomáticas. Foi uma demonstração visual do novo desenho do sistema
internacional. Xi Jinping apareceu como algo mais do que líder nacional: surgiu
como o anfitrião inevitável das grandes tensões globais.
Há um detalhe particularmente revelador nisso tudo. A China
não exerce essa centralidade reproduzindo exatamente o modelo americano do
pós-Guerra Fria. Pequim evita alianças militares rígidas, não exporta
messianismo ideológico em escala planetária e raramente assume compromissos
definitivos. Sua força está precisamente na ambiguidade calculada. Aproxima-se
da Rússia sem tornar-se refém dela. Negocia com os Estados Unidos sem aceitar
subordinação. Mantém pressão militar sobre Taiwan enquanto preserva o discurso
de estabilidade regional.
Xi parece compreender algo que os antigos estrategistas
imperiais conheciam bem: o centro do poder não é necessariamente o lugar que
domina todos os outros, mas aquele sem o qual nenhum outro consegue agir
plenamente. Na Guerra Fria, Washington jogava China e União Soviética uma
contra a outra. Hoje, ironicamente, é a China que observa americanos e russos
orbitarem sua própria centralidade estratégica.
Talvez essa seja a transformação mais importante do século
XXI. Não apenas a ascensão econômica chinesa, mas a lenta mudança da geografia
mental do poder mundial. Na segunda metade do século XX, o caminho para o mundo
passava por Washington. No início do século XXI, cada vez mais rotas parecem
conduzir inevitavelmente a Pequim.