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Wellington Freire

Do operador de elite ao fuzileiro naval: a nova face da guerra americana

22 de Maio de 2026 | 12h 10
Do operador de elite ao fuzileiro naval: a nova face da guerra americana
Credito: On Rocks

Em algum momento, entre as ruínas de Mossul e as águas tensas do estreito de Taiwan, a América mudou de guerra  e, talvez mais importante, mudou de guerreiro.

Durante mais de vinte anos, a figura simbólica do poder militar americano foi o operador de elite. O homem das forças especiais. O combatente invisível. O Navy SEAL que atravessava fronteiras durante a madrugada; o operador da Delta Force conduzindo missões cirúrgicas; o especialista em contraterrorismo auxiliado por satélites, drones e inteligência algorítmica. A Guerra ao Terror construiu uma mitologia militar baseada na precisão, na clandestinidade e na hiperprofissionalização. Era uma guerra de especialistas.

Os conflitos do Afeganistão, do Iraque e da Síria favoreceram pequenas unidades móveis, operações urbanas, assassinatos seletivos e ações de contraterrorismo. O inimigo não possuía marinha, aviação estratégica ou capacidade industrial relevante. Combatia-se uma insurgência difusa, descentralizada e assimétrica. A guerra americana deixou de ser oceânica para tornar-se subterrânea: túneis, vielas, montanhas, esconderijos.

O herói militar daquela era não era o soldado de desembarque, mas o caçador. Agora, contudo, o horizonte estratégico mudou radicalmente. A ascensão chinesa obrigou Washington a abandonar gradualmente a lógica da Guerra ao Terror para retornar à velha gramática da competição entre grandes potências. O centro da estratégia americana desloca-se do Oriente Médio para o Indo-Pacífico. E quando a guerra volta ao oceano, outro tipo de combatente retorna ao centro da imaginação militar: o fuzileiro naval.

O retorno do US Marine Corps possui algo de profundamente simbólico. Ele revela uma transformação geopolítica, mas também antropológica. Cada época produz seu guerreiro ideal. O início do século XXI glorificou o operador invisível, treinado para eliminar insurgentes em guerras fragmentadas. A nova era estratégica exige novamente o combatente anfíbio: homens preparados para ocupar ilhas, proteger corredores marítimos, repelir desembarques e sustentar posições em ambientes oceânicos.

A própria linguagem militar mudou. Durante os anos 2000, o vocabulário dominante incluía contraterrorismo, insurgência, células extremistas e operações especiais. Agora os termos centrais são outros: A2/AD, contenção naval, mísseis hipersônicos, cadeias logísticas, domínio marítimo, guerra eletrônica. O Pentágono já não pensa prioritariamente em Fallujah ou Kandahar, mas em Taiwan, no Mar do Sul da China e nas rotas do Pacífico.

Há aqui uma ironia histórica impressionante. Na Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e China encontravam-se do mesmo lado contra o expansionismo japonês. O Pacífico foi o grande teatro marítimo daquela geração: Iwo Jima, Okinawa, Guadalcanal. O Marine tornou-se então uma figura quase mítica da cultura militar americana, o soldado anfíbio que avançava sobre praias fortificadas sob fogo inimigo.

O século XXI parece reeditar parcialmente aquele cenário, mas invertendo seus alinhamentos. Hoje, Washington fortalece sua aliança estratégica com o Japão precisamente para conter a ascensão chinesa. A geografia permaneceu; os adversários mudaram.

Isso talvez explique por que a doutrina militar americana começou a redescobrir conceitos que pareciam pertencentes ao passado: dispersão insular, guerra naval de alta intensidade, defesa de arquipélagos, logística oceânica. O mundo pós-11 de Setembro acreditou, por algum tempo, que guerras convencionais entre grandes potências haviam se tornado improváveis. Imaginou-se que drones, forças especiais e inteligência digital substituiriam definitivamente as campanhas industriais do século XX.

A China destruiu essa ilusão. Pequim obrigou os Estados Unidos a reaprenderem a linguagem clássica do poder marítimo. Porta-aviões voltaram ao centro da estratégia. O controle de estreitos oceânicos tornou-se vital. A disputa por ilhas e corredores marítimos reapareceu como questão central da ordem internacional. O mar voltou a ser decisivo.

E com ele voltou também o velho guerreiro anfíbio.Existe algo quase cíclico nisso tudo. Durante vinte anos, Washington perseguiu guerrilhas no deserto acreditando combater a principal ameaça do século. Mas, enquanto drones sobrevoavam Mossul e Kandahar, a China construía estaleiros, modernizava sua marinha, expandia sua indústria tecnológica e preparava silenciosamente o retorno da grande disputa oceânica.

O operador especial, o soldado de tropas de elite,  foi o herói da Guerra ao Terror. O Marine talvez seja o guerreiro da nova Guerra Fria.




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