No outono de 2016, soldados americanos atravessavam as ruínas de Mossul ao lado de tropas iraquianas enquanto drones sobrevoavam quarteirões destruídos em busca de combatentes do Estado Islâmico. O inimigo da maior potência militar do planeta escondia-se em túneis, vielas e edifícios parcialmente colapsados. A guerra americana tinha cheiro de poeira, concreto queimado e insurgência urbana. O século XXI parecia destinado a ser a era do contraterrorismo permanente.
Dez anos depois, a paisagem estratégica mudou radicalmente.O centro gravitacional da doutrina militar americana já não está nas cidades devastadas do Oriente Médio, mas nas águas do Indo-Pacífico. O Pentágono agora pensa em estreitos marítimos, cadeias logísticas oceânicas, satélites, semicondutores, rotas polares e mísseis hipersônicos chineses. A guerra deixou de ser travada contra células insurgentes escondidas em desertos para voltar a ser concebida como competição entre grandes potências industriais.
A transformação é histórica. Durante duas décadas, Washington organizou sua máquina militar em torno da chamada Guerra ao Terror. O trauma de 11 de Setembro produziu uma arquitetura estratégica baseada em operações especiais, contraterrorismo, assassinatos seletivos, vigilância global e campanhas de ocupação em ambientes assimétricos. O inimigo era fluido, descentralizado e invisível. Não possuía marinha, força aérea ou capacidade industrial relevante. Combatia-se uma rede.
Em 2026, contudo, os estrategistas americanos voltaram a pensar como os velhos geopolíticos do século XX. O adversário já não é o jihadista escondido em Fallujah, mas o Estado-civilização dotado de capacidade tecnológica, poder naval e ambição planetária. A China obrigou Washington a abandonar a lógica da contrainsurgência para retornar à gramática clássica da disputa imperial.
Isso explica por que termos como “A2/AD”, outrora restritos a círculos especializados, tornaram-se centrais no vocabulário estratégico americano. A expressão - anti-access/area denial - descreve a capacidade chinesa de impedir o acesso militar americano a determinadas regiões do Pacífico mediante mísseis de longo alcance, guerra eletrônica, submarinos, inteligência artificial e sistemas integrados de vigilância. Em outras palavras: Pequim procura tornar extremamente custosa qualquer intervenção americana em torno de Taiwan.
A própria geografia da guerra mudou. Em 2016, os mapas militares americanos concentravam-se em Raqqa, Mossul e Kandahar. Hoje, os pontos críticos incluem Taiwan, o Mar do Sul da China, o Ártico, a Groenlândia e até corredores estratégicos na América Latina. O mundo deixou de ser percebido como um arquipélago de insurgências e voltou a ser interpretado como um tabuleiro de contenção entre potências.
Até a psicologia estratégica mudou. A Guerra ao Terror era marcada pela obsessão com atentados, radicalização e segurança interna. Já a nova competição sino-americana é dominada pelo medo do declínio relativo do poder americano. Não se trata mais de impedir ataques terroristas, mas de preservar hegemonia global diante de um rival economicamente comparável e tecnologicamente sofisticado.
O símbolo máximo dessa mudança talvez seja Taiwan. Se Mossul representava a guerra do século pós-11 de Setembro, Taiwan representa a guerra do século pós-globalização. Ali se concentram não apenas tensões militares, mas cadeias produtivas, semicondutores, rotas marítimas e o equilíbrio de poder do Pacífico. A disputa deixou de ser ideológica no sentido clássico; tornou-se estrutural, tecnológica e civilizacional.
Existe aqui uma ironia histórica profunda. Depois de gastar trilhões de dólares em campanhas no Afeganistão e no Iraque, Washington descobriu que o verdadeiro desafio estratégico não emergia das cavernas de Tora Bora, mas dos estaleiros, laboratórios e portos chineses.
A América deixou de perseguir guerrilhas no deserto para voltar a disputar oceanos.