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Wellington Freire

Paz de dez dias, guerra de décadas

Wellington Freire - 18 de Abril de 2026 | 07h 23
Paz de dez dias, guerra de décadas
Foto: Reprodução

No Oriente Médio, a paz costuma chegar com prazo de validade. Não se apresenta como reconciliação, tratado duradouro ou reconstrução política. Surge, quase sempre, como intervalo. Dez dias de trégua. Setenta e duas horas de cessação de hostilidades. Uma pausa técnica entre bombardeios. Um silêncio precário entre duas explosões.

O novo cessar-fogo anunciado entre Israel e Hezbollah, acompanhado da retomada de negociações entre Estados Unidos e Irã, foi recebido com alívio imediato. Sempre há alívio quando as armas silenciam. Famílias retornam às casas, comboios humanitários avançam, mercados respiram e diplomatas voltam a sorrir diante das câmeras. Mas o alívio não deve ser confundido com solução.

A região tornou-se especialista em administrar crises sem resolvê-las. Essa talvez seja a grande tragédia contemporânea do Oriente Médio: a substituição da paz verdadeira por mecanismos de contenção temporária. Não se elimina a causa do conflito; apenas se controla sua temperatura. Não se desarma o antagonismo; regula-se sua intensidade.

Israel busca segurança definitiva, mas enfrenta inimigos que sobrevivem mesmo quando militarmente atingidos. O Hezbollah pode perder posições, bases e combatentes, mas preserva sua lógica política e sua utilidade estratégica para o Irã. O Irã, por sua vez, negocia enquanto mantém instrumentos indiretos de pressão regional. Os Estados Unidos tentam arbitrar o tabuleiro sem pagar o custo total de ocupá-lo. Todos ganham tempo. Ninguém resolve o problema.

Essa política do tempo é central. Ganhar tempo tornou-se mais importante do que conquistar a paz. Governos ganham tempo para reorganizar arsenais. Milícias ganham tempo para recompor estruturas. Potências ganham tempo para reorganizar alianças. Mercados ganham tempo para recalcular riscos. E populações civis ganham apenas o tempo necessário para enterrar mortos, recolher escombros e preparar-se para a próxima rodada de violência.

O caso do Estreito de Ormuz ilustra esse drama. Em poucas horas, abre-se, fecha-se, reabre-se parcialmente, volta à ameaça de bloqueio. Não há estabilidade: há oscilação controlada. O mundo inteiro depende de rotas energéticas vitais submetidas à lógica da crise permanente. O petróleo reage, os fretes sobem, bolsas estremecem. A guerra local produz efeitos globais.

Donald Trump, fiel ao seu estilo, vende a imagem de acordos rápidos e sucesso iminente. Mas a experiência recente mostra que grandes anúncios nem sempre produzem grandes resultados. Diplomacia real exige tempo, garantias, fiscalização, concessões dolorosas e continuidade institucional, exatamente o oposto da política performática de Trump.

A frase “paz de dez dias” resume mais do que uma trégua. Resume uma era. Vivemos tempos em que conflitos prolongados produzem pequenas pausas vendidas como grandes vitórias. A guerra deixa de ser exceção e passa a ser estrutura; a paz deixa de ser horizonte e passa a ser intervalo.

Enquanto isso não mudar, cada cessar-fogo será celebrado com esperança e observado com ceticismo. Porque todos sabem que, naquela região, dez dias podem parecer muito, justamente porque décadas de guerra ensinaram a esperar tão pouco.



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