Uma cena surpreendente emergiu da mais recente onda de
protestos no Irã: a publicação, nas redes sociais, de vídeos do príncipe
herdeiro da antiga dinastia real. Reza Pahlevi, filho do último Xá – título do
monarca que governou o país antes da Revolução Islâmica de 1979 –, surgiu em
uma série de gravações posicionando-se como um líder da revolução no exílio.
Seu apelo é direto: convoca a população a persistir na insurreição até a
derrubada completa do regime teocrático. O paralelo histórico é irônico e cheio
de significado. Há menos de meio século, era um líder religioso carismático, o
Aiatolá Khomeini, quem, do exílio na França, dirigia uma campanha implacável
contra o Xá Reza Pahlevi, culminando na fuga do monarca e na instauração da
República Islâmica. Agora, testemunhamos um processo de erosão dessa mesma
revolução, enquanto um Pahlevi, do exílio, tenta reivindicar o papel de símbolo
máximo da alternativa ao regime. A história, parece, não se repete, mas ecoa de
forma perturbadora, abrindo espaço para a remota, porém publicamente evocada,
possibilidade de restauração de dinastias depostas.
A história recente do Oriente Médio demonstra que a queda de
regimes autoritários fortemente centralizados, sobretudo aqueles sustentados
por estruturas militares ideologizadas, tende a produzir mais instabilidade do
que democratização. No Iraque, a deposição de Saddam Hussein em 2003, conduzida
pela intervenção anglo-americana e pela dissolução deliberada do Exército e do
Partido Baath, resultou na desarticulação completa do aparato estatal, criando
um vácuo de poder explorado por milícias sectárias, pela Al-Qaeda no Iraque e,
posteriormente, pelo Estado Islâmico. A ausência de um plano de estabilização
pós-conflito e a lógica da de-Baathificação transformaram uma
derrota militar rápida em um conflito assimétrico prolongado, cujos efeitos
ainda se fazem sentir duas décadas depois.
Na Líbia, a derrubada de Muammar Kadafi em 2011, no contexto
das chamadas Primaveras Árabes e sob cobertura aérea da OTAN, seguiu trajetória
semelhante. A eliminação do líder não foi acompanhada da preservação de instituições
coercitivas nacionais, o que levou à fragmentação do monopólio da força, com o
surgimento de governos paralelos, milícias tribais e grupos jihadistas. O país
converteu-se em um espaço de guerra por procuração, envolvendo potências
regionais e globais, evidenciando os limites da doutrina de “intervenção
humanitária” quando dissociada de um projeto político-institucional de longo
prazo. A Síria oferece um modelo distinto, porém igualmente revelador. A partir
de 2011, o regime de Bashar al-Assad optou pela militarização total da crise,
sustentando-se por meio da lealdade das Forças Armadas, do apoio de milícias
aliadas e da intervenção direta da Rússia e do Irã. O resultado foi a
preservação formal do Estado, mas ao custo de uma soberania fraturada, com áreas
controladas por atores externos e não estatais. Trata-se de um exemplo clássico
de conflito híbrido e congelado, no qual a sobrevivência do regime não
corresponde à restauração da ordem nacional.
O Irã reúne elementos dos três casos, mas em escala mais
complexa. Diferentemente do Iraque de 2003, o país não enfrenta uma intervenção
externa direta; contudo, como na Líbia, observa-se uma erosão interna da
legitimidade do regime. Ao mesmo tempo, à semelhança da Síria, Teerã mantém um
aparato militar altamente politizado, em especial a Guarda Revolucionária
Islâmica, treinado em doutrinas de guerra assimétrica, repressão interna e
projeção regional. Essa capacidade reduz a probabilidade de colapso imediato,
mas aumenta o risco de um processo prolongado de desgaste, com ciclos de
repressão, insurgência difusa e radicalização. Dessa forma, a hipótese mais
plausível não é a de uma transição ordenada nem a de uma restauração monárquica
clássica, mas a de uma crise prolongada de autoridade, capaz de comprometer a
coesão do Estado iraniano e desestabilizar os equilíbrios regionais. Tal
cenário reforça a tese de que o Irã pode tornar-se mais um epicentro da crise
da Nova Ordem Internacional, na qual regimes colapsam ou sobrevivem de forma
disfuncional, enquanto o sistema internacional revela-se incapaz de administrar
transições, conter guerras internas ou evitar a disseminação do caos para além
das fronteiras nacionais.
Portanto, o discurso do príncipe Pahlevi é menos uma solução
e mais um indicador da magnitude da crise de sucessão política que se abre no
Irã. A revolução islâmica, como projeto geracional e ideológico, mostra sinais
de exaustão. No entanto, as instituições coercitivas que ela criou são robustas
e têm interesses vitais a defender. A hipótese de uma transição pacífica para
uma monarquia constitucional ou uma república democrática parece remota face à
história militar recente da região. O diagnóstico aponta para um longo inverno
de turbulência. A alternativa mais realista não está entre a república islâmica
e a monarquia, mas entre diferentes graus de desordem controlada e colapso
violento. O regime pode se manter, cada vez mais autoritário e menos
ideológico, em um estado de conflito latente com sua própria população. Ou pode
rachar, desencadeando uma luta pelo poder dentro do establishment que abriria
as portas para uma desintegração tipo líbia, porém em uma escala geopolítica
infinitamente mais perigosa. A comunidade internacional, fracturada e sem
consenso, mostra-se incapaz de gerir tais transições, como a história recente
prova. O mundo pode, mais uma vez, ser pego de surpresa por um terremoto
geopolítico no Irã, limitando-se a reagir aos destroços, em vez de moldar um
resultado estável. O regresso do Xá, como ideia, é um espelho das aspirações de
ruptura de muitos iranianos. Mas o espectro que verdadeiramente ronda o Irã e a
região é o do vazio de poder e da guerra multifacetada, heranças malditas das
transições traumáticas no Oriente Médio do século XXI.
A crise iraniana não se anuncia como revolução redentora nem como simples continuidade autoritária, mas como um interregno perigoso, no qual o velho perdeu sua legitimidade e o novo é incapaz de nascer. Nesses momentos, a história ensina, não triunfam projetos, mas forças. O retorno simbólico de um Pahlevi não é sinal de restauração, mas de esgotamento: quando o passado é convocado como futuro, é porque o presente entrou em colapso. O verdadeiro espectro que ronda o Irã não é o da monarquia nem o da república islâmica, mas o da dissolução do poder político como princípio ordenador. E quando o poder se fragmenta em sociedades armadas, a violência deixa de ser exceção e se converte em método. O Oriente Médio do século XXI já conhece bem esse roteiro, e o sistema internacional, mais uma vez, parece condenado a assistir à tragédia sem coro, sem catarse e sem saída.