Nos manuais de História da Moderna diplomacia europeia
podemos encontrar duas antigas lições sobre os modos de ordenamento das
relações interestatais. A primeira delas nos assegura que cada século é
dominado por um organismo político que se mostra dotado de poder e ímpeto
intelectual suficiente para moldar todo um sistema de acordo com seus próprios
valores, deixando-o à sua imagem e semelhança. Uma outra nos afiança que a
política de equilíbrio de poder, ao contrário do que muitos parecem
apressadamente crer, não seria a forma natural de relacionamento entre as
nações. Para a maior parte da humanidade e nos períodos mais longos da
História, o império tem sido a forma normal de governo.
A política de poder, costumeiramente, manifesta-se como um
concerto internacional de nações dotado de poderio militar quase equivalente,
resultando em um impasse. Havendo a impossibilidade de um dos membros tornar-se
forte o suficiente para impor-se sobre todos os demais, criando, desta forma,
um império, todas as pretensões agressivas de um dos componentes são refreadas
pela combinação dos demais sócios que podem unir-se formando coalizões. Durante
as guerras napoleônicas, a França pós-revolucionária viu-se frente a três ou
quatro combinações de Estados rivais que abandonaram momentaneamente suas
desavenças particulares para fazer frente a um inimigo considerado como a mais
grave de todas as ameaças. Prússia, Áustria e Rússia czarista e outras
potências menores, que tempos depois travariam guerras particulares entre si,
firmaram pactos de auxílio mútuo visando o equilíbrio de poder na Europa. A
carreira militar de Napoleão se fez na luta prolongada contra uma sucessão de
articulações entre as casas monárquicas do velho continente que desejam
vencê-lo a qualquer custo. A aura de genial condutor de tropas foi por ele
adquirida no desbaratamento sucessivo das coalizões inimigas uma após outra até
ser finalmente vencido pela última, a de 1815, que o conduziu ao exílio em um
promontório rochoso – a ilha de Santa Helena.
O que se anuncia no início do século XXI não é um retorno ao
equilíbrio de poder, mas a normalização da pilhagem geopolítica, na qual
Estados soberanos são tratados como ativos estratégicos, zonas de influência ou
simples obstáculos descartáveis. As três grandes potências militares da
atualidade, aquelas que emergiram como as vencedoras da Guerra Fria, Estados
Unidos, Rússia e China, embora distintos em história, ideologia e linguagem
diplomática, esses atores convergem num mesmo gesto estrutural: a recusa
prática do direito internacional quando este se torna inconveniente. Estamos
assistindo não a uma crise da ordem internacional, mas à sua substituição por
um regime de rapina legitimada. A atual conjuntura geopolítica mundial sugere a
preponderância relações internacionais conduzidas por atores e organismos
estatais inescrupulosos que se arvoram ao direito de tratar regiões ou mesmo
países inteiros como suas propriedades particulares: “ O hemisfério [ocidental]
é nosso”, proclama Donald Trump, ressuscitando, sem pudor, o velho vocabulário
da Doutrina Monroe.
A consequência mais imediata dessa mutação sistêmica é a
corrosão acelerada de todas as instâncias que, desde 1945, pretenderam regular
o uso da força e domesticar a violência interestatal. Organismos multilaterais,
tribunais internacionais e regimes jurídicos de contenção da guerra não são
formalmente abolidos; tornam-se, isto sim, decorativos, acionados seletivamente
como instrumentos retóricos ou descartados sem cerimônia quando se interpõem
aos desígnios das grandes potências. O direito internacional, outrora invocado
ao menos como horizonte normativo, ainda que frequentemente violado, passa a
ser tratado como um expediente contingente, subordinado a narrativas de
segurança, excepcionalismo histórico ou interesse vital. Nesse cenário, a lei
deixa de limitar o poder e passa a orbitá-lo, como uma linguagem acessória,
impotente diante da decisão soberana de quem dispõe da força.
Para os Estados médios e periféricos, particularmente aqueles
situados em regiões de valor estratégico, essa nova ordem não anuncia estabilidade
alguma, mas a reinstalação de uma política internacional pré-jurídica, na qual
soberania e integridade territorial tornam-se concessões revogáveis. A promessa
moderna de um sistema internacional regulado por normas comuns cede lugar a uma
geopolítica de espoliação aberta, em que territórios, populações e recursos
voltam a figurar como prêmios de disputa. Não se trata, portanto, de um mundo
que regressa ao equilíbrio de poder, mas de um que abdica deliberadamente dele
em favor da força desnuda. O que se desenha no horizonte não é uma nova ordem
mundial, mas um interregno brutal, no qual a paz deixa de ser um princípio
organizador e passa a existir apenas como pausa provisória entre atos
sucessivos de rapina legitimada.
Nota de rodapé: ao leitor interessado em aprofundar questões
aqui brevemente mencionadas aconselha-se a iniciar seu estudo a partir do
clássico e incontornável tratado de Henry Kissinger: A Diplomacia das
Grandes Potências. Há uma tradução antiga, publicada pela extinta
editora Francisco Alves; e outra mais recente da Editora Saraiva.