Os oceanos funcionam como corredores de tráfego que interligam o comércio transnacional e os seus meios de projeção de poder a longa distância. O mar é devasso, dizia o padre e cronista português seiscentista Fernando de Oliveira. Ou seja, é uma rota de domínio público, que pode ser utilizada indistintamente por grupos rivais entre si. Portanto, o controle sobre os mares é peça fundamental para qualquer projeto de domínio imperialista. E essa lógica, uma lógica antiga, estrutural e recorrente, ajuda a compreender o renovado interesse das grandes potências pela Groenlândia, hoje convertida em gargalo estratégico de um oceano ártico em aquecimento. É nessa lógica que, no contexto geopolítico do século XXI o mar deixa de ser apenas devasso, um espaço que não pertence a ninguém; ele passa a ser também militarizado, cartografado, cercado e disputado.
É nesse novo contexto que o Ártico, outrora
percebido como mera periferia gelada
do sistema internacional, vem sendo rapidamente revalorizado como espaço
central de disputa estratégica. O aquecimento global, ao reduzir o gelo
marinho, transforma a região em novo corredor oceânico, encurtando rotas entre
a Ásia, a Europa e a América do Norte, ao mesmo tempo em que expõe vastas reservas
de minerais críticos e hidrocarbonetos. A Groenlândia, situada entre o
Atlântico Norte e o Oceano Ártico,
ocupa posição privilegiada nesse tabuleiro
emergente. Não surpreende, portanto, que os Estados Unidos, sob a presidência
de Donald Trump, tenham passado a tratar a ilha não apenas como aliado
distante, mas como ativo estratégico cujo controle direto passou a ser
publicamente cogitado.
A crescente centralidade do Ártico expõe, contudo, um limite estrutural do direito internacional contemporâneo. À medida que o degelo transforma a região em espaço navegável e militarmente relevante, as normas que regulam a soberania, a circulação e a exploração de recursos tendem a perder eficácia diante da lógica da segurança e da projeção de poder. O Ártico passa a operar, assim, como uma zona de indeterminação jurídica, na qual o controle efetivo precede o reconhecimento formal. É nesse cenário que a Groenlândia adquire valor decisivo: mais do que território sujeito a tratados, a ilha converte-se em plataforma estratégica. Ao admitir publicamente a possibilidade de adquiri-la ou submetê-la a controle direto, o governo Donald Trump sinalizou que, nesse novo espaço, a exceção começa a se impor como regra.Mais do que uma excentricidade recente, a leitura da Groenlândia como “porta-aviões insubmersível” inscreve-se numa lógica militar de longaduração, que remonta à Segunda Guerra Mundial e se consolida ao longo da Guerra Fria. Sua posição geográfica permite tanto a defesa antecipada do espaço aéreo norte-atlântico quanto a projeção ofensiva a grandes distâncias, convertendo a ilha em plataforma estratégica permanente. O que muda, no século XXI, não é a lógica militar em si, mas a disposição de explicitá-la politicamente, mesmo à custa da erosão de normas jurídicas consolidadas.
A disputa em torno da Groenlândia sugere, assim, algo mais profundo do
que um episódio isolado ou uma extravagância retórica de ocasião. Ela revela o
esgotamento progressivo da promessa liberal de que o direito internacional
seria capaz de domesticar a geografia e neutralizar a lógica do poder. No
Ártico em degelo, como em outras zonas estratégicas do sistema internacional, o
espaço volta a impor suas determinações materiais, e a soberania
reaparece não como norma compartilhada, mas como fato consumado. A Groenlândia, nesse
sentido, não é apenas um território cobiçado, mas um sinal dos
tempos: ali onde o gelo recua, avança também uma ordem internacional menos
jurídica, mais crua e, talvez, mais
próxima de suas origens trágicas.