Os grandes exércitos do mundo contemporâneo são produtos de uma longa tradição histórica que associa vitória militar à superioridade técnica, à disciplina organizacional e à capacidade de impor uma derrota decisiva ao inimigo no campo de batalha. Essa concepção, herdada do chamado modo ocidental de guerrear, pressupõe que a guerra seja um instrumento racional a serviço de objetivos políticos claramente definidos e que seu desfecho se dê pela aniquilação, ou ao menos pela neutralização, da força armada adversária. O problema surge quando esse modelo é empregado contra inimigos que se recusam a jogar segundo tais regras.
A atual guerra em Gaza ilustra com rara nitidez essa
dissonância estrutural. De um lado, as Forças de Defesa de Israel (FDI), um dos
exércitos mais tecnologicamente sofisticados do planeta, dotado de
superioridade aérea, inteligência em tempo real, poder de fogo preciso e uma
cadeia de comando altamente profissionalizada. Do outro, os combatentes do
Hamas, organizados segundo princípios clássicos da guerra irregular:
fragmentação, mobilidade, ocultação no terreno humano e recusa sistemática ao
combate decisivo.
Não se trata, portanto, de uma assimetria meramente material,
mas de um choque entre concepções incompatíveis de guerra. O Hamas não busca
derrotar militarmente Israel no sentido clausewitziano do termo. Seu objetivo
não é a conquista de terreno, a destruição das forças inimigas ou a imposição
de uma capitulação formal. Sua estratégia repousa na sobrevivência, no desgaste
prolongado e na capacidade de transformar o tempo em arma política. Cada dia
adicional de combate, cada operação inconclusiva, cada baixa civil amplificada
no plano simbólico representa, para a lógica da guerra irregular, um ganho
estratégico.
Esse padrão não é novo. Ele se insere numa linhagem histórica
que remonta às guerras tribais, às insurgências coloniais e às lutas de
libertação nacional do século XX. Exércitos regulares, moldados para vencer
batalhas, tendem a fracassar quando confrontados com inimigos que não oferecem batalhas.
A busca obsessiva pela decisão, núcleo duro da tradição militar ocidental,
torna-se um fardo quando o adversário faz da evasão e da fluidez o seu
princípio operacional fundamental.
O caso iraniano aprofunda essa lógica em escala regional.
Desde a Revolução de 1979, o Irã desenvolveu um sofisticado sistema de projeção
de poder indireto baseado em milícias, forças paramilitares e atores não
estatais aliados. Hezbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque, Houthis no
Iêmen e o próprio Hamas em Gaza integram um ecossistema estratégico que permite
a Teerã confrontar adversários muito mais poderosos sem jamais recorrer a um
embate convencional direto. Trata-se de uma arquitetura de guerra irregular
deliberadamente pensada para neutralizar as vantagens tecnológicas do inimigo e
diluir a responsabilidade política do confronto.
Nesse modelo, a simplicidade é uma virtude. Túneis, foguetes
artesanais, células autônomas e comando descentralizado mostram-se capazes de
desorganizar sistemas militares cuja eficácia depende da integração perfeita
entre informação, logística e poder de fogo. Quanto mais complexo o aparato
bélico, maior sua vulnerabilidade a inimigos que operam fora de seus parâmetros
normativos.
A dificuldade dos exércitos modernos em vencer guerras “simples”
decorre, assim, menos de falhas táticas do que de um erro conceitual. Não se
pode derrotar decisivamente um inimigo que não reconhece a validade da decisão.
Em guerras desse tipo, sobreviver já é vencer; persistir é impor derrota moral
e política ao adversário. Gaza, como tantas outras antes dela, não é apenas um
campo de batalha, é um lembrete incômodo de que a história militar não premia
necessariamente os mais fortes, mas os mais adaptáveis.
Ao leitor interessado em aprofundar o debate, remeto a:
Hanson, Davis. Porque o Ocidente Venceu:
mortandade e cultura. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
A história raramente repete seus cenários, mas insiste em preservar suas lógicas. Mudam os territórios, os recursos e as tecnologias; permanece, quase intacta, a gramática do poder. A comparação entre a Guatemala de 1954 e a Groenlândia do século XXI revela essa continuidade incômoda. O que separa uma república centro-americana dominada por uma empresa bananeira de uma ilha ártica coberta por gelo não é a natureza do conflito, mas apenas o recurso estratégico em disputa.
Na Guatemala, a soberania foi corroída não por uma invasão formal, mas pela atuação de uma corporação privada convertida em infraestrutura estratégica informal: a United Fruit Company. Seus portos, ferrovias, plantações e canais de influência política constituíam uma verdadeira rede logística, essencial não apenas à economia local, mas aos interesses estratégicos dos Estados Unidos no hemisfério. Quando o governo de Jacobo Árbenz ameaçou esse sistema por meio da reforma agrária, a disputa econômica foi rapidamente transfigurada em ameaça existencial.
Carl von Clausewitz ajuda a compreender esse mecanismo. Para ele, a guerra não é um fim em si mesma, mas a continuação da política por outros meios. Em 1954, esses “outros meios” não exigiram divisões blindadas ou ocupação territorial: bastaram operações psicológicas, pressão diplomática, demonstrações navais e a construção de uma narrativa de cerco. O essencial não era conquistar a Guatemala, mas impedir que ela escapasse à órbita estratégica americana.
Sete décadas depois, a Groenlândia ocupa papel análogo, embora em escala geopolítica ampliada. Se na Guerra Fria tropical o ativo central eram bananas, terras e portos, hoje são minerais críticos, rotas marítimas emergentes e posição geográfica absoluta. A ilha não é apenas um território remoto: é um ponto-chave entre América do Norte, Europa e Rússia, fundamental para sistemas de alerta antecipado e defesa antimísseis. Na linguagem da estratégia clássica, trata-se de terreno decisivo.
Aqui, Alfred Thayer Mahan torna-se indispensável. Ao defender que o controle das rotas marítimas é a base do poder global, Mahan antecipou um mundo em que gargalos oceânicos e pontos de passagem definiriam hierarquias internacionais. A Groenlândia, situada no coração do Atlântico Norte e próxima à Lacuna GIUK ( a Lacuna GIUK é o estreito invisível por onde passa a dissuasão nuclear do Atlântico Norte), encaixa-se perfeitamente nessa lógica. Onde passam navios e submarinos, passa também a dissuasão e, com ela, o imperativo do controle.
Mas a Groenlândia não é apenas mar. É também terra. E nisso ecoa Halford Mackinder. Seu famoso conceito de “pivô geográfico da história” alertava que determinadas regiões, pela combinação de posição, recursos e acesso, condicionam o equilíbrio global. No século XXI, o degelo transforma o Ártico em um novo pivô móvel, onde fronteiras antes congeladas se tornam transitáveis. Controlar a Groenlândia significa influenciar esse novo centro de gravidade estratégico antes que ele se consolide plenamente.
A diferença entre Guatemala e Groenlândia está menos no método do que na transparência. Em 1954, o poder americano agia por intermediação: empresas, serviços secretos, forças locais. Hoje, age por meio de doutrina declarada. A lógica que antes se ocultava sob o anticomunismo agora se apresenta como segurança nacional explícita. Do lobby empresarial silencioso passou-se à ameaça pública; da rádio clandestina, à coerção visual permanente.
Ainda assim, o padrão permanece reconhecível para qualquer leitor de História Militar. Trata-se de uma estratégia de coerção contínua, na qual a guerra raramente se materializa, mas nunca deixa de ser insinuada. O míssil substituiu a banana porque a economia global substituiu o mundo agrário pelo industrial-tecnológico; porque terras-raras valem mais que plantações; porque a dissuasão nuclear exige posições fixas, não mercados instáveis. Mas o gesto é o mesmo: elevar um recurso à condição de vital e, com isso, relativizar a soberania de quem o controla.
A Guatemala oferece, contudo, uma advertência que a teoria estratégica muitas vezes ignora. A intervenção bem-sucedida no curto prazo produziu instabilidade duradoura. O vazio político aberto em 1954 gerou décadas de violência, migração e criminalidade, ameaças mais profundas do que aquelas que se pretendia evitar. Clausewitz lembrava que a guerra nunca é um ato isolado; ela gera consequências que escapam ao cálculo inicial.
Entre bananas e mísseis, o que atravessa o tempo não é o objeto da disputa, mas a estrutura do poder. Quando um recurso é definido como indispensável, a soberania torna-se negociável. O século XXI apenas deslocou o palco da selva ao gelo. A gramática estratégica, essa, permanece intacta.
Nota: a quem deseja aprofundar os temas aqui esboçados recomendo: Clausewitz, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes: 2010; Aron, Raymond. A Paz e a Guerra entre As Nações. Brasília: UNB, 2002.
Você se encontra sentado no banco
traseiro do veículo, passando seus
pensamentos em revista, e é com certa dificuldade que você consegue decifrar os
sons que parecem provir de tão longe: “
escute filho - diz o cara com aspecto de limpador de chaminés -, o endereço é
esse, chegamos”. Você desce em silêncio, insatisfeito com o aspecto rude do
condutor e com seus modos nada corteses. Você olha ao redor, a rua está deserta
àquela hora do dia, início de uma tarde
de novembro de 2025. Você permanece imóvel observando a ausência de
movimentação e de sons. A rua Alto do Paraná é muito silenciosa, quase como uma
necrópole antiga; não se vê habitantes locais transitando e tudo imerso na imobilidade. Você se vira e olha
detidamente a casa diante da qual você se encontra. Ela é ampla e se espraia por uma enorme faixa
de terreno que serve como jardim da residência; seu muro é relativamente baixo
e as paredes dele se encontram parcialmente cobertos por um tipo de azulejo e
algumas discretas gravuras com ares de pinturas rupestres. Junto delas vê-se um
nome, uma assinatura: Nanja. Você está
diante da casa do poeta Antonio
Brasileiro.
Você já esteve ali muitas vezes
antes. Mas suas visitas anteriores quase sempre se deram sob a proteção da
noite. Essa é, provavelmente, a segunda ou terceira vez que você pode
contemplar a construção sob a luz diurna, e o efeito é profundamente diferente:
à luz do sol, a casa revela-se não apenas como abrigo ou moradia, mas como a
sede administrativa de um reino invisível, um território cujo poder se exerce
silenciosamente, através da presença e da forma. As muralhas, que à noite
pareciam apenas sombras, agora se erguem com dignidade concreta, testemunhas
silenciosas da história de um homem. As paredes daquele muro pertencem à sede
administrativa de um império.
Desde 1972 ali acontece uma reunião
noturna que congrega um grupo seleto de escritores ou de admiradores das belas
letras. Embora ao longo dos anos a composição desse grupo tenha sofrido
alterações das mais diversas, a reunião continua tendo como seu condutor e
líder espiritual, o proprietário da casa onde ela se realiza. Embora não tenha
sido esse seu intento inicial, você se viu arrastado para o epicentro de um
ritual quase religioso. O modo como aqueles homens se comportam ali lembra em
tudo uma celebração mágico-ritualística; eles comem e bebem, elogiam o sabor do
vinho - quando este se mostra digno disto -, discorrem sobre a
contemporaneidade e seus temas assombrosos, discutem entre si, traçam planos
que não resistem ao dissipar dos vapores do vinho; e eles nunca sorriem, mas
gargalham sinistramente. Estar ali entre eles fez nascer em você o desejo de
escrita, de registro interpretativo daquela experiência, como um etnólogo
realizando anotações em uma sociedade desconhecida.
Há uma mangueira antiga no jardim da
casa de Antônio Brasileiro e você a vê todas as noites de quinta-feira. As
raízes emergem do chão como colunas, sustentando uma copa que parece o teto de
uma basílica vegetal. Debaixo dela, o ar é sempre mais denso, como se a própria
luz hesitasse antes de tocar o solo. Essa velha mangueira faz você se recordar
da árvore Yggdrasil, dos mitos escandinavos; Ali, toda semana, há mais de meio
século, se realiza uma cerimônia que não figura em nenhuma agenda oficial da
cultura brasileira: o Império das Mangueiras,
tertúlia literária, ritual de amizade e culto da palavra. Ali não há
regras escritas, mas há hierarquia. Há liberdade de fala, mas também um código
tácito de respeito e silêncio. O vinho é o sacramento: circula entre os
presentes como se fosse o sangue do verbo, mas você não bebe álcool, você
apenas observa e escuta.
Eles são poucos, e nem sempre fiéis
na presença. À sua direita, quase sempre, repousa o médico César Oliveira,
cronista de talento, homem de conversa precisa e humor constante. Um pouco
adiante, sentado atrás da mesa de madeira sólida, está Roberval Pereyr, o Vate
das Umburanas, responsável pela condução da maior parte dos números da revista Hera.
Ao seu lado costuma se acomodar o advogado Antônio Carlos, atento e discreto,
ele se mantém em silêncio quase todo o tempo. Em algumas noites, o juiz Nunes
aparece: apesar dos mais de sessenta anos, é homem de grande jovialidade; o
corte moderno do cabelo e o riso alto e estrepitoso, riso de quem sabe viver,
rompem o silêncio com naturalidade. Outros surgem mais raramente. Juraci Dórea
e sua esposa, Selma Soares, passam de tempos em tempos, como visitantes de uma
antiga corte. O erudito professor Brian Kibbuuka é presença ainda mais
excepcional. Mais recentemente, integraram-se ao círculo o professor Trazíbulo
Henrique e o músico Léo Brasileiro. Há também dois jovens de pouco mais de
vinte anos, Lucas e Dudu, iniciados que observam tudo com a atenção dos que
sabem estar diante de uma tradição maior do que eles. Fechando o círculo,
permanecem dois membros da família do anfitrião: Nanja, pintora de talento
silencioso, e Tom Brasileiro, professor universitário e cultivador de métodos
socráticos de condução de diálogos. No centro de todos eles, como sacerdote,
oficiando um culto antigo, Antônio Brasileiro.
Talvez seja isso o império das
Mangueiras: uma ficção que se torna realidade pela força do verbo. E talvez seja esse, também, o sentido último
deste texto: compreender como um homem do sertão construiu, com a matéria invisível
da linguagem, um reino que atravessa o tempo - feito de livros, de discípulos,
de conversas e de silêncios. Sob a
mangueira, o vinho já se esgota, os convivas se levantam - “amanhã acordo cedo,
tenho que ir,” diz o advogado Antônio Carlos.
A noite avança, e o Imperador recolhe-se ao seu trono discreto. Ficam no
ar as últimas frases, como brasas que ainda iluminam. Enquanto você se levanta, totalmente sóbrio
em meio aos quase trôpegos - você pensa no
que aprendeu ali: que biografar é um ato de convivência e que, diante de
um mestre como Antônio Brasileiro, todo gesto de escrita é também um gesto de
reverência. O império que ele construiu não se ergueu de mármore nem de poder
material, mas de palavras bem ditas e silêncios bem guardados.
Dessa maneira, o
Império das Mangueiras estabelece sua própria diplomacia: a diplomacia da
recusa. Não se trata de rejeitar o mundo, mas de impedir que ele invada e
destrua aquilo que nele é mais frágil: a nitidez da forma. Por isso, não há
embaixadas. Não há convocações. O reino não busca alianças porque sabe que sua
força não está na ampliação, e sim na coesão. Antônio Brasileiro,
diferentemente de Pedro, o Grande, não procura se ver refletido nos espelhos do
Ocidente. Ele se basta. Ou, mais precisamente: basta-se naquilo que é
essencial, o domínio exato do verbo e o governo interior. Assim, a inversão da
metáfora imperial revela sua verdade mais profunda: no Império das Mangueiras,
o gesto político é um gesto estético. A contenção é uma forma de poder. O
silêncio é uma forma de presença. E o isolamento não é fuga, mas cultivo, uma
horticultura espiritual praticada à sombra de uma árvore que, como a Yggdrasil, sustenta não apenas raízes, mas
um mundo inteiro.
Domingo, 30 de janeiro
do ano da graça de 2026, cidade de Salvador, antiga capital de uma possessão
colonial ultramarina. Como o integrante de uma coluna de prisioneiros de guerra
que marchava pelas ruas sendo exibido à população de uma cidade inimiga, você
caminha cabisbaixo e sombrio pelos corredores de um shopping center.
Você se deslocou até
aquela cidade por motivos de ordem laboral e sua presença ali, naquele centro
de compras, é mera imposição circunstancial; exausto, você se deixa cair
pesadamente em uma cadeira e tenta se recompor interiormente enquanto lança
olhares ao redor de si: há muito barulho, desordem, luzes de brilho intenso e
muitas pessoas - jovens e velhos - sentados ao redor de mesas quadradas e
redondas; e sobre elas você vê grandes quantidades de alimentos
industrializados, alimentos ultraprocessados, daqueles potencialmente capazes
de provocarem doenças do trato digestivo em médio prazo. Eles chamam aquele
lugar de praça de alimentação.
Todas as mesas estão
ocupadas e todos os ocupantes comem alegremente.Você olha e se pergunta: porque
tanta gente rindo sob aquelas luzes de lâmpadas potentes? porque tanta gente
rindo enquanto ingere venenos de efeito retaardado? porque tanta alegria? Será
que eles estão comemorando a coroação do Kaiser Guilherme II? Com atraso você
se recorda que o Kaiser foi deposto após os acontecimentos de novembro de 1914
e que se ele se exilou na Dinamarca. Toda essa algazarra, esses sons
desarmoniosos, essa discordante melodia de vozes fere seus ouvidos. Você se ergue com dificuldade,
o peso da angústia dificulta seus movimentos de homem velho, e se afasta dali
com passos lentos. Você percorre os corredores tão amplamente iluminados que
ferem sua sensibilidade ocular.
Os ruídos estão por
toda parte; para onde quer que você olhe há sons discordantes e multidões
caminhando e rindo enquanto levam pacotes nas mãos. Custosamente você consegue
chegar à saída, mas lá fora o quadro é ainda mais desolador: uma multidão se
espreme em um passeio à espera de veículos de transporte de passageiros; ali é
uma espécie de ponto de espera de carros de transporte por aplicativos. Você se
sente como um soldado em um campo de prisioneiros de guerra cercado por arames
farpados; ou como se todos ali - inclusive você - estivessem na outra margem do
rio aguardando a barca de Caronte. Seu veículo chega; você embarca nele para
longe dali; mas antes você lança para a multidão que se espreme naquele passeio
e você se recorda do discurso de Caronte, em um dos cantos de A Divina
Comédia: “Ai de vós, almas malditas. A luz do sol novamente jamais vereis”.
O veículo começa a se
mover lentamente, vencendo com dificuldade o emaranhado humano que se comprime
no passeio. Pela janela, você observa os rostos iluminados pelos celulares,
pela expectativa da corrida aceita, pela ansiedade difusa de quem espera ser
chamado. Ninguém parece perceber ninguém. Não há hostilidade, tampouco
fraternidade. Apenas coexistência.
À medida que o carro
se afasta, o ruído vai diminuindo, como se alguém girasse lentamente o botão de
um rádio mal sintonizado. Ainda assim, os sons permanecem dentro de você,
martelando os tímpanos com ecos tardios. A luz artificial do shopping, mesmo
distante, continua a ferir seus olhos por dentro. Você pisca várias vezes, como
quem tenta se readaptar à penumbra depois de um bombardeio noturno.
É então que lhe
ocorre, com um atraso incômodo, que talvez a metáfora do campo de prisioneiros
não seja inteiramente justa. Ou talvez seja, mas não da forma que você
imaginara. Você não está cercado por inimigos. Está cercado por sobreviventes.
Cada um ali, rindo sob lâmpadas agressivas e ingerindo alimentos de procedência
duvidosa, talvez esteja apenas tentando preencher o vazio de um domingo
qualquer, de uma vida qualquer, em uma época que já não promete sentido algum.
A praça de alimentação
lhe retorna à mente não mais como inferno, mas como trincheira. Um espaço de
ruído constante, excesso visual, luz artificial e comida ultraprocessada, sim,
mas também um lugar onde homens e mulheres descansam as armas invisíveis com as
quais enfrentam seus próprios dias. Não celebram imperadores depostos nem
vitórias militares. Celebram intervalos.
Você se pergunta,
então, se o prisioneiro de guerra é realmente aquele que caminha cabisbaixo
entre vitrines e mesas engorduradas, ou se é aquele que observa tudo isso
incapaz de participar, aprisionado em sua lucidez amarga, em sua memória
histórica, em sua recusa íntima de aceitar o mundo como ele se apresenta.
Talvez, pensa você,
não haja barca alguma esperando na outra margem. Talvez Caronte esteja
desempregado há séculos, esquecido em algum canto da mitologia, enquanto os
vivos inventam seus próprios infernos, e
também suas próprias formas precárias de atravessá-los.
Você fecha os olhos
por um instante, sabendo que isso não é descanso, mas contenção. O prisioneiro
não sonha com fuga nem com resgate. Aprende a existir dentro dos limites
impostos, a carregar consigo o mapa do mundo que perdeu e a avançar sem
esperança, porque até a esperança pode ser uma forma sutil de capitulação.
Às vésperas de completar quatro
anos, a guerra da Ucrânia corre o risco de ser interpretada de forma
excessivamente restrita: como um conflito regional, centrado em fronteiras
terrestres, identidades nacionais e equilíbrio militar no Leste Europeu. Essa
leitura, embora não errada, é insuficiente. Os acontecimentos recentes, como a
revelação feita hoje de que veículos espaciais russos interceptaram
comunicações de satélites europeus, indicam que a Ucrânia é apenas uma das frentes
visíveis de um conflito muito mais amplo, sistêmico e multidimensional.
Desde 2022, Moscou deixou claro que não enfrenta apenas Kiev,
mas o arranjo estratégico que emergiu após 1991. A guerra convencional no
Donbass e no sul da Ucrânia convive com uma guerra híbrida que inclui sabotagem
de cabos submarinos, ataques cibernéticos, pressão energética, desinformação e,
agora, operações de reconhecimento agressivo no espaço. O objetivo não é apenas
vencer batalhas no terreno, mas testar, revelar e explorar vulnerabilidades
estruturais das sociedades ocidentais, especialmente aquelas altamente
dependentes de infraestruturas tecnológicas integradas.
Nesse sentido, a interceptação de satélites civis e
governamentais europeus não é um detalhe técnico, mas um sintoma. Satélites de
comunicação, navegação e observação são hoje o equivalente funcional das
antigas rotas marítimas: por eles passam dados, fluxos financeiros, comando
militar, logística comercial e sincronização de mercados. Interferir nesses
sistemas é paralisar, ainda que temporariamente, economias inteiras, exatamente
como o bloqueio naval fazia no século XIX e início do XX.
É aqui que o pensamento do capitão Alfred Thayer Mahan
retorna com força inesperada. Para Mahan, o domínio do mar não significava
apenas superioridade naval, mas controle das rotas por onde circulam comércio,
riqueza e poder político. Quem controla os “caminhos do mundo” molda a ordem
internacional. No século XXI, esses caminhos não são apenas marítimos: são
também orbitais, digitais e informacionais. O espaço tornou-se uma extensão
lógica do mar, um novo “oceano estratégico” onde se decide quem vê, quem
comunica, quem coordena e quem permanece funcional em situação de crise.
A Rússia parece ter compreendido isso com clareza. Ao monitorar
satélites europeus, muitos deles civis, lançados em outra era tecnológica, sem
criptografia robusta, Moscou não precisa destruí-los para obter vantagem
estratégica. Basta mapear padrões de uso, identificar dependências, localizar
estações terrestres e conhecer os elos fracos do sistema. Trata-se de dissuasão
por vulnerabilidade, não por destruição aberta. Uma lógica profundamente
mahaniana, adaptada à era espacial e integrada ao conceito russo de guerra
híbrida permanente.
Os Estados Unidos, por sua vez, continuam apostando na
preservação da superioridade global por meio do controle combinado do mar, do
ar, do espaço e do ciberespaço. A doutrina americana parte do pressuposto de
que a manutenção das rotas abertas, marítimas, digitais e espaciais, é condição
essencial para a estabilidade da ordem liberal internacional. Não por acaso,
Washington investe pesadamente em resiliência espacial, constelações
redundantes de satélites, alianças tecnológicas e proteção de cabos submarinos.
O problema é que essa estratégia, ao depender de redes altamente complexas,
também cria novos pontos de fragilidade exploráveis por adversários.
A China, por sua vez, observa e aprende. Pequim não está
diretamente envolvida na guerra da Ucrânia, mas extrai dela lições estratégicas
fundamentais. Seu investimento simultâneo em marinha de águas azuis, controle
de portos estratégicos, rotas da Iniciativa do Cinturão e Rota, e capacidades
espaciais e cibernéticas revela uma compreensão sofisticada da guerra
contemporânea como disputa por conectividade. Para a China, assim como para
Mahan, o poder não reside apenas na força militar direta, mas na capacidade de
garantir, ou negar, o fluxo contínuo de comércio, energia, dados e
comunicações.
Essa ampliação do campo de batalha ajuda a responder a uma
pergunta central: a guerra da Ucrânia é, em essência, uma disputa por rotas? Em
grande medida, sim; mas não apenas por rotas físicas tradicionais. O
Mar Negro, os corredores energéticos, o acesso ao Mediterrâneo e ao Ártico
continuam centrais. Contudo, a disputa atual envolve também rotas invisíveis:
dados, sinais, comunicações e sincronização global. Controlá-las é tão decisivo
quanto controlar estreitos marítimos no passado.
A Ucrânia, portanto, não é o centro do conflito global, mas
sua superfície mais visível. O que está em jogo é a capacidade de Estados e
blocos de garantir o funcionamento contínuo das infraestruturas que sustentam o
mundo contemporâneo. Satélites, cabos, portos, estreitos, redes energéticas e
sistemas digitais formam um único ecossistema estratégico. Atacá-lo, mesmo sem
bombas, é fazer guerra.
Ignorar essa realidade é insistir numa distinção entre guerra
e paz que já não corresponde ao mundo em que vivemos. Como no tempo de Mahan, o
controle das rotas continua sendo o coração da estratégia. Apenas mudaram os
oceanos, e aqueles que não perceberem isso correm o risco de perder uma guerra
que já começou.
*Nota: o que faço é apenas um esboço de discussão. Para o
leitor que deseja aprofundar o tema sugiro como ponto de partida: PARET, Peter
(org). Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Bibliex editora,
2000. 2 volumes. Recomendo especial atenção ao segundo volume.