O Supremo Tribunal Federal (STF) dá início, nesta segunda-feira (9), ao interrogatório do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de outros sete réus do chamado “núcleo 1” da ação penal que apura a tentativa de golpe de Estado ocorrida após as eleições de 2022.
Etapa crucial da fase de instrução penal, o interrogatório
serve para o acolhimento de novas provas. Os réus serão inquiridos, presencialmente,
no plenário da Primeira Turma do STF, a partir das 14h.
O primeiro a depor será o tenente-coronel do Exército Mauro
Cesar Barbosa Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Isto porque a legislação
determina que réus colaboradores devem ser ouvidos primeiro. Na sequência, os
outros acusados serão interrogados conforme ordem alfabética:
Alexandre Ramagem, ex-diretor da ABIN e deputado federal;
Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha;
Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de
Segurança Pública do Distrito Federal (DF);
Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança
Institucional;
Jair Bolsonaro;
Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa;
Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil e da Defesa,
além de candidato a vice na chapa de Bolsonaro em 2022.
A Suprema Corte questionará os réus acerca de suas vidas
pessoais e das acusações a eles imputadas. Os magistrados que compõem o colegiado
buscarão saber detalhes sobre participação de cada um dos acusados nas reuniões
realizadas para articular o plano golpista; sobre a minuta de decreto que
instalaria estado de exceção no país; e sobre o incentivo à desconfiança nas
urnas eletrônicas.
Caso neguem as acusações, os réus podem prestar
esclarecimentos, indicar provas, apresentar suas próprias versões dos fatos e
rebater os elementos da investigação. Também lhes é resguardado, pela Constituição
Federal, o direito de permanecerem em silêncio, se a resposta a alguma pergunta
possa vir a lhes autoincriminar.
Testemunhas – Nas últimas duas semanas, o STF ouviu mais de 50
testemunhas arroladas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelas
defesas dos acusados. A maior parte das testemunhas arroladas por Jair
Bolsonaro relatou que, após a derrota nas eleições, o ex-presidente demonstrava
estar abatido, mas que, mesmo assim, estava disposto a entregar o cargo ao novo
governo.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos);
o senador e ex-vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos-RS); e o senador
Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil do Governo Bolsonaro,
apresentaram versões semelhantes.
As testemunhas declararam que o ex-presidente estava “triste”,
“abatido” ou “resignado”, por ter perdido a disputa nas urnas, em 2022. Também
negaram que houve discussões sobre uma possível ruptura institucional,
afirmando que o mesmo aceitou a derrota prontamente, dando início à transição
de governo.
No entanto, na primeira semana de depoimentos, duas
testemunhas listadas pela PGR confirmaram que Bolsonaro avaliou medidas de
exceção, tendo chegado a uma minuta de golpe, com o intuito de impedir a posse do
atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O ex-comandante do Exército, general Marco Antônio Freire
Gomes, e o ex-comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Carlos de Almeida
Baptista Junior, relataram, em juízo, que foram apresentados, em reuniões que
contaram com a participação do ex-presidente, estudos sobre um possível decreto
de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). E que, com isso, o governo derrotado nas
urnas pretendia criar um “estado de defesa”.
Conforme os militares, em um dos encontros com Bolsonaro, os
participantes chegaram a cogitar a prisão do ministro Alexandre de Moraes, que
compõem a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal.
Um governo não pode atentar contra ministros da Suprema Corte.
Tal ato se constitui crime, segundo a Carta Magna brasileira. Isto porque compete
apenas ao Senado Federal processar e julgar os ministros do STF e, em caso
extremo, afastá-los de suas funções.
Próximos passos – Finalizados os interrogatórios dos réus, defesa e
acusação terão um prazo de cinco dias para requerer diligências complementares,
isto é, novas investigações ou medidas consideradas necessárias. Depois dessa
fase, deverão apresentar suas alegações finais, no prazo de 15 dias.
Na sequência, o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso,
prepara seu voto e libera o caso para julgamento, que será marcado pelo
presidente da Turma, Cristiano Zanin. Além de Moraes e Zanin, proferirão seus
votos os ministros Flávio Dino, Luiz Fux, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia. Na
ocasião, a Suprema Corte decidirá pela condenação ou absolvição dos réus.