O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) decidiu, por
unanimidade, afastar três juízes da comarca de Porto Seguro, no Extremo Sul do
estado, por suspeita de envolvimento nos crimes de grilagem de terras,
corrupção e agiotagem. O pedido foi impetrado pela Corregedoria Geral da Corte e
deferido por seu Tribunal Pleno. Os afastamentos ocorreram na quarta-feira (19).
Os alvos da investigação são: Fernando
Machado Paropat, titular da 1ª Vara dos Feitos Relativos às Relações de
Consumo, Cíveis, Comerciais e Registros Públicos; Rogério Barbosa de Sousa e
Silva, titular da Vara da Infância e Juventude e Execução de Medidas
Socioeducativas; e André Marcelo Strogenski, titular da 1ª Vara Criminal, Júri
e Execuções Penais.
De acordo com o portal G1 BA, o acórdão que oficializa o
afastamento traz vários indícios das supostas irregularidades cometidas
pelos magistrados. Além da denúncia de grilagem, o documento revela os juízes teriam
adquirido lotes de um terreno e se unido em um investimento imobiliário de alto
padrão. Em função disso, funcionários do cartório local se referiam aos
magistrados como "Liga da Justiça".
O documento, ao qual a produção da TV Bahia teve acesso, aponta, também, que, no caso da grilagem de
terras, houve desconsideração de áreas que são do Estado da Bahia e da União. A
associação indevida entre os suspeitos, para este fim, teria, ainda, prejudicado
antigos e tradicionais ocupantes de terras devolutas, isto é, aquelas sem
destinação dada pelo poder público e que nunca integraram patrimônio particular.
Além disso, o acórdão aponta que não houve cuidado com a
preservação ambiental. No documento, consta, também, o voto do relator do
processo, o desembargador e corregedor-geral da Justiça, Roberto Maynard Frank.
O magistrado, diz o G1, indica a formação de uma associação ilícita
entre juízes, promotores, advogados, empresários e secretário de obras do Município de
Porto de Seguro, além de mencionar uma série de crimes sob investigação.
De acordo com o relator, durante a fase de apuração, o telefone
celular do juiz Fernando Machado Paropat foi periciado. As buscas teriam revelado
"atuação suspeita" entre o juiz e um promotor da cidade. Para a
Corregedoria-Geral da Justiça, os indícios de corrupção são evidentes.
Liga da Justiça – O voto de Maynard Frank destaca, ainda, a
"existência de caos registral" no departamento que funcionava como
repositório de qualquer documento apresentado. O relator não explicitou qual
dos magistrados acusados atuava na área, mas indicou que a desordem acabava
"permitindo a comercialização de imóveis com valores milionários, sem
capacidade de emprestar segurança jurídica quanto ao direito de
propriedade".
Além disso, Maynard Frank ressaltou que a sociedade entre os magistrados
e os demais operadores do Direito envolvidos foi apelidada, por funcionários do
cartório, como "Liga da Justiça". Isto pelo fato de os investigados
terem se unido em torno de um investimento de alto padrão, referente à
aquisição de lotes em um terreno. "Observou-se aquisição de área de 60.000
m² por magistrados, promotor de Justiça e advogado, gerando sociedade em
empreendimento imobiliário com 76 lotes individualizados, cabendo 8 deles a
cada um dos juízes", diz o relator, em seu voto.
Ainda conforme o G1, indícios de irregularidades também foram
identificados em áreas públicas. Houve, no entendimento do desembargador, "significativa
mácula registral". Isto porque a titularidade de um dos terrenos estava em
posse dos pais de um magistrado punido com aposentadoria compulsória,
justamente por sua atuação em casos de cunho imobiliário.
DEFESA – Os advogados dos magistrados e demais citados por Maynard
Frank apresentaram suas alegações ao G1 e à TV Santa Cruz, afiliada da Rede Bahia
na região. Por meio de nota, Francisco Roque Festa, que representa o juiz André
Marcelo Strogenski, disse que, até o momento, não teve acesso à integralidade
dos autos e que irá se pronunciar "assim que tiver ciência de todos os
documentos".
O advogado, disse, ainda, que seu cliente não teve o
"mínimo direito de defesa", ao ser afastado de suas funções. "O
Dr. André está muito tranquilo com a sua consciência e acredita que a Justiça
em relação à sua ilibada conduta de magistrado, por décadas, será feita em
breve", afirmou Festa.
Conforme o G1, o Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA)
também se pronunciou sobre o caso. O órgão destacou que tomou ciência dos fatos
durante a sessão do Pleno do Tribunal de Justiça.
A Promotoria ressaltou, ainda, que solicitou, à
Corregedoria-Geral da Justiça, o compartilhamento do processo administrativo, a
fim de que possa apurar o caso e, assim, adotar todas as providências cabíveis.