Após sete dias de julgamento em júri popular, a ex-deputada
federal Flordelis dos Santos foi condenada pelo assassinato do marido, o pastor
Anderson do Carmo, a 50 anos e 28 dias de prisão, por homicídio triplamente
qualificado, tentativa de homicídio duplamente qualificado, uso de documento
falso e associação criminosa armada.
A decisão foi tomada pela 3ª Vara Criminal de Niterói (RJ),
que também condenou, pelos mesmos crimes, Simone dos Santos Rodrigues, filha
biológica da ex-parlamentar e pastora evangélica, a 31 anos e 4 meses de reclusão.
Marzy Teixeira e André Luiz de Oliveira, filhos adotivos de Flordelis, foram
inocentados, assim como a neta biológica da ex-deputada, Rayane dos Santos. O
julgamento foi um dos mais longos da história do Rio de Janeiro.
Conforme o Ministério Público (MP), Flordelis planejou o
homicídio do marido, que foi executado com 30 tiros, dentro da residência do
casal, em Pendotiba, na cidade de Niterói, Região Metropolitana do Rio de
Janeiro, no dia 16 de junho de 2019. A denúncia aponta, ainda, que a
ex-deputada também convenceu o executor direto e os demais acusados de participação
no crime a simularem um latrocínio. Segundo o órgão, ela financiou a compra da
arma do crime e avisou sobre a chegada do marido à garagem da casa, onde ele foi
assassinado.
O crime, conforme as investigações, teria sido motivado pelo rigor
com que Anderson do Carmo controlava as finanças da família e administrava os
conflitos. O inquérito aponta que a vítima também não permitia tratamento
privilegiado às pessoas mais próximas de Flordelis, em detrimento de outros
membros da família, que é numerosa, já que a ex-parlamentar, além de quatro
filhos biológicos, tem mais de 50 filhos adotivos.
De acordo com o portal de notícias g1, na sentença, a juíza
Nearis dos Santos Carvalho Arce observa que Flordelis é ré-primária, mas que sua
culpabilidade se revela de forma acentuada, “com alto grau de reprovabilidade e
censurabilidade, posto que, tendo ciência inequívoca da ilicitude de sua conduta,
não se intimidou com a prática do crime, com a audácia extremamente reprovável,
planejando a execução brutal e fria da vítima, com diversos disparos, conforme se
depreende do esquema de lesões e laudos acostados aos autos”.
Para a magistrada, o crime teve contornos bárbaros. “A ação
criminosa evidencia, portanto, verdadeira e bárbara execução, caracterizando
uma demonstração explícita de ódio. Os diversos disparos efetuados contra a
vítima, de 42 anos de idade, concentraram-se em regiões vitais, como crânio,
tórax e abdome”, destaca.
A juíza aponta, ainda, que a brutalidade do homicídio chocou
a sociedade, tendo, inclusive, repercutido para além das fronteiras do país, além
de ter desconstruído a imagem de família perfeita pregada por Flordelis,
especialmente nas igrejas coordenadas por ela e seus familiares.
ALICIAMENTO – No decorrer do processo, as
investigações feitas pela Polícia Civil (PC) revelaram que trama macabra que
culminou na morte do pastor Anderson do Carmo envolvia diversas condutas
ilícitas. Testemunhas relataram que tanto a vítima quanto Flordelis mantinham
relações sexuais com os filhos adotivos. Além disso, a ex-deputada também teria
oferecido, sexualmente, uma "filha afetiva" a pastores pentecostais
estrangeiros, durante visita à casa da família.
A prática de aliciamento não era incomum, conforme o
inquérito. As testemunhas também relataram que o casal realizava "noitadas
em casas de swing". De acordo com os autos, Flordelis também tentou
envenenar Anderson do Carmo, com quem foi casada por 25 anos, com arsênico e
cianeto, pelo período de quase dois anos. Segundo a polícia, foram, pelo menos,
seis tentativas, que resultaram em diversas internações hospitalares, por sintomas
como vômito e diarreia.
Por meio de nota enviada à agência de notícias CNN, Rodrigo
Faucz, advogado da ex-deputada e de outros acusados, disse estar satisfeito com
a absolvição de três pessoas da mesma família. “Infelizmente, apesar de não
haver provas, Flordelis foi condenada pelo homicídio do marido. Entendo que a
condenação foi indevida, eis que, certamente, se deu pela pressão da opinião
pública formada desde o delito”, diz o jurista, salientando que recorrerá da
decisão judicial, em função de “diversas nulidades absolutas no decorrer do
julgamento”.
OUTROS
Condenados – Até o
momento, seis indiciados pelo assassinato do pastor já foram condenados. Um
deles é Flávio dos Santos Rodrigues, filho biológico de Flordelis. No dia 24 de
novembro de 2021, o réu recebeu uma pena de 33 anos, dois meses e 20 dias de
prisão em regime fechado. Ele foi denunciado como autor dos disparos que
provocaram a morte do pastor. Já Lucas Cezar dos Santos de Souza, filho adotivo
da ex-parlamentar, foi condenado a sete anos e seis meses de prisão, sob a acusação
de ter sido o responsável pela aquisição da arma do crime.
Em abril de 2022, outros quatro réus foram condenados.
Adriano dos Santos Rodrigues, filho biológico de Flordelis, foi sentenciado a
quatro anos em regime semiaberto, por uso de documento falso e associação
criminosa armada. Marcos Siqueira Costa, ex-policial militar, e sua esposa,
Andrea Santos Maia, foram condenados a cinco anos em regime fechado e quatro
anos em regime semiaberto, respectivamente.
Carlos Ubiraci Francisco da Silva, filho adotivo de
Flordelis, foi condenado, por associação criminosa armada, ao cumprimento de
uma pena de dois anos, em regime, inicialmente, semiaberto. Segundo o g1, ainda
em abril, a Vara de Execuções Penais do TJRJ concedeu liberdade condicional ao
réu.