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Fome deverá atingir famílias que não corriam risco de insegurança alimentar, diz economista da ONU

12 de Junho de 2022 | 15h 44
Fome deverá atingir famílias que não corriam risco de insegurança alimentar, diz economista da ONU
Foto: Getty Images

Caso a atual crise alimentar global se arraste, pessoas que não corriam risco de insegurança alimentar passarão fome. É o que diz a economista Monika Tothova, da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

Segundo o portal Notícias ao Minuto, a em entrevista à Lusa, a especialista em políticas agrícolas e alimentares explicou que muitas famílias perderão poder de compra e terão de recorrer a refeições menos nutritivas ou, inclusive, reduzir o número diário de ingestas alimentares. “Mesmo as pessoas que ainda não estão em níveis de insegurança alimentar de emergência provavelmente serão afetadas, pois o seu poder de compra diminuirá, precisarão de consumir alimentos menos nutritivos ou saltar refeições, retirar as crianças da escola”, advertiu.

Monika Tothova alerta, ainda, que, atualmente, os índices de fome no planeta são extremamente graves. “Os níveis de fome e os níveis de emergência são a ponta do iceberg, sendo provável uma deterioração significativa, já que muitos cidadãos já esgotaram qualquer capacidade de resiliência que tinham”, avaliou.

A especialista lembra que, combinadas, essas possibilidades impactarão na saúde e no bem-estar dessas famílias, uma vez que haverá aumento da prevalência de desnutrição, assim como a perda e o atraso no crescimento das crianças.

O Iêmen deverá ser um dos países mais afetados. Isto porque, explica a economista, cerca de 17,4 milhões de pessoas já necessitam, agora, de assistência alimentar. “A situação humanitária no país, provavelmente, ficará ainda pior, entre junho e dezembro de 2022, com o número de pessoas que, provavelmente, não conseguirão atender às suas necessidades alimentares mínimas a atingir um recorde de 19 milhões de pessoas, nesse período”, detalhou.

A estimativa é desalentadora. Conforme Tothova, espera-se que mais 1,6 milhões de pessoas no Iêmen caiam em níveis emergenciais de fome, elevando o total para 7,3 milhões de pessoas até ao final do ano.

De acordo com a ONU, em 2021, o mundo registrou mais um pico de fome. O Relatório Global sobre Crises Alimentares apontou que, no ano passado, cerca de 193 milhões de pessoas, em 53 países/territórios, vivenciaram uma insegurança alimentar aguda, o que implica em um aumento de 40 milhões de pessoas desde 2020.

Ainda segundo o Notícias ao Minuto, iniciada no dia 24 de fevereiro, a guerra da Rússia contra a Ucrânia, tem se configurado como um agravante da situação, uma vez que perturbou o equilíbrio alimentar global. Com o conflito, o temor de uma crise ainda maior cresceu. Isto porque a guerra já afeta os países mais pobres.

O colapso alimentar provocado pela situação no Leste europeu ocorre porque Ucrânia e Rússia produzem quase um terço do trigo e da cevada do mundo e metade do óleo de girassol. Além disso, a Rússia e a Bielorrússia, que apoia a investida do presidente Vladmir Putin contra a Ucrânia, são os maiores produtores mundiais de potássio, um ingrediente essencial para a indústria de fertilizantes.

A guerra, portanto, desencadeou um aumento nos preços mundiais dos cereais e óleos, fazendo com que os valores superassem os alcançados durante as Primaveras Árabes de 2011 e os “motins da fome” de 2008. “A guerra na Ucrânia ocorreu no momento em que o mundo recuperava da pandemia de Covid-19. Ao mesmo tempo, a insegurança alimentar estava a aumentar em todo o mundo, porque muitas pessoas perderam os meios de subsistência”, explicou a economista.

De acordo com Monika Tothov, o conflito resultante da invasão russa ao terrotório ucraniano “trouxe preocupações significativas sobre o potencial impacto negativo na segurança alimentar, especialmente para países pobres dependentes de importação de alimentos e grupos populacionais vulneráveis”.

A especialista destacou, ainda, que, mais de 70 milhões de dólares (65,2 milhões de euros) por mês seriam necessários para manter o financiamento humanitário destinado à assistência vital, incluindo assistência alimentar. Os dados são do Programa Alimentar Mundial.

Para tentar estancar o problema, a economista da ONU disse que uma possível solução seria diminuir a perda e o desperdício de alimentos. Isto, segundo ela, poderia ajudar a balancear, ainda que parcialmente, o equilíbrio alimentar.

No entendimento de Tothova, também seria preciso investir em pesquisa, desenvolvimento e capacidade produtiva. Ela ressalta, entretanto, que a estratégia é de longo prazo, não sendo capaz de resolver a problemática da insegurança alimentar rapidamente.



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