A escalada ofensiva de Vladimir Putin contra a Ucrânia fez
novas vítimas, na madrugada desta sexta-feira (25). Kiev, a capital, despertou
sob uma chuva de mísseis. As sirenes do ataque aéreo soaram na cidade de 3
milhões de pessoas, muitas delas abrigadas nas estações de metrô, um dia após o
presidente russo iniciar a invasão ao país, diante da perplexidade e indignação
do mundo. Esta é a maior investida, desde a Segunda Guerra Mundial, que um país
europeu faz contra outro do mesmo bloco.
De acordo com a sucursal da agência de notícias Reuters em
Kiev, o chefe de Estado ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, pediu à comunidade
internacional que imponha sanções mais severas à Rússia, porque as anunciadas,
até agora, disse ele, não foram suficientes para frear a sanha de Putin.
Autoridades ucranianas relataram que uma aeronave russa havia
sido abatida, durante a noite, chocando-se contra um edifício de Kiev. O prédio
pegou fogo e deixou como saldo oito pessoas feridas. Segundo a Reuters, um alto
funcionário ucraniano disse que as forças russas devem entrar em áreas fora da
capital ainda hoje e que as tropas ucranianas, apesar da desvantagem numérica,
defendem posições em quatro frentes.
Com o ataque desta madrugada, janelas foram destruídas em um bloco
de apartamentos de dez andares, perto do aeroporto principal de Kiev, onde uma
cratera de 2 metros se abriu. O buraco, que está cheio de escombros, mostra o
local atingido pelo disparo de artilharia. Um policial informou que, nesta
zona, a ofensiva deixou feridos, mas que ninguém havia morrido. “Como podemos
passar por isso no nosso tempo? O que devemos pensar? Putin deveria queimar no
inferno junto com toda sua família”, disse Oxana Gulenko, enquanto limpava estilhaços
de vidros de seu quarto.
Testemunhas relataram que grandes estrondos puderam ser
ouvidos em Kharkiv, segunda maior cidade da Ucrânia, localizada perto da fronteira
com a Rússia. Sirenes de ataque aéreo também soaram sobre Lviv, no Oeste. As
autoridades informaram, ainda, que houve fortes combates na cidade de Sumy, situada
no Leste do país. Enquanto explosões e tiros abalavam as grandes cidades
ucranianas, milhares de pessoas fugiram. Conforme a Reuters, dezenas foram
consideradas mortas.
Chernobyl – Tropas russas também capturaram a antiga usina nuclear de Chernobyl, ao norte de Kiev,
enquanto marchavam sobre a cidade procedente da antiga Bielorrúsia. A agência
nuclear ucraniana disse que registrou aumento dos níveis de radiação na extinta
usina, que, no dia 26 de abril de 1986, foi palco do maior acidente nuclear da História.
De acordo com Volodymyr Zelensky, as tropas russas estavam
atrás dele. O presidente ucraniano, no entanto, prometeu permanecer em Kiev. Por
mensagem de vídeo, ele disse que o inimigo o marcou como “alvo número um” e que
sua família era “o alvo número dois”. “Eles querem destruir a Ucrânia
politicamente, destruindo o chefe de Estado”, afirmou.
Nesta quinta-feira (24), Vladimir Putin deu sinais claros de
que não recuaria frente a qualquer sanção imposta pelo mundo. O governante, que
chegou a ameaçar todo e qualquer país que tentasse intervir no conflito, ordenou
a invasão da Ucrânia por terra, ar e mar, após a declaração de guerra. Putin alega
que a Ucrânia é um Estado ilegítimo fora da Rússia. Os ucranianos, por sua vez,
veem a declaração do presidente russo como uma tentativa de apagar sua história,
que data de mais de mil anos.
Conforme a Reuters, os objetivos do líder russo seguem obscuros.
Putin afirma que não planeja uma ocupação militar, ressaltando que quer, apenas,
desarmar a Ucrânia e depor seus governantes. Não está claro, no entanto, como
um líder pró-russo poderia ser instalado sem que o país exercesse controle
sobre grande parte do território ucraniano. Até o momento, a Rússia não indicou
nomes e ninguém se apresentou.
REAÇÃO DA POPULAÇÃO
RUSSA – Durante
meses, Moscou negou planejar a invasão a Ucrânia. Por isso, a notícia de que
Putin ordenou o ataque também chocou os russos. Segundo a Reuters, a população
do país, que tem muitos amigos e familiares em solo ucraniano, estava
acostumada a ver seu governante como um estrategista cuidadoso.
No poder há mais de duas décadas, Putin reprimiu a
dissidência interna, especialmente no último ano. Seus principais inimigos
políticos foram presos ou fugiram. A mídia estatal também lançou propagandas
massivas, caracterizando a Ucrânia como uma ameaça à Rússia. Mesmo assim,
milhares de russos saíram às ruas, em protesto contra o ataque. A polícia russa
reagiu, efetuando, rapidamente, centenas de prisões.
Uma estrela pop, diz a Reuters, postou um vídeo no Instagram
se opondo à guerra. O chefe de um teatro estatal de Moscou decidiu renunciar.
Ele afirmou que não aceitaria seu salário de um assassino.
A Ucrânia, que é uma nação democrática composta por 44
milhões de pessoas, votou pela independência, quando a extinta União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) caiu, no dia 8 de novembro de 1991. Recentemente,
o país intensificou os esforços para aderir à Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan) – aliança militar ocidental – e também à União Europeia.
As aspirações ucranianas enfureceram Putin.
Ontem, os países ocidentais anunciaram uma série de sanções
financeiras à Rússia, muito mais severas do que as anunciadas anteriormente. As
punições incluem a colocação dos bancos russos em listas negras e a proibição
de importação de tecnologia.
Não anunciaram, entretanto, medidas mais duras, como a
exclusão da Rússia ao sistema SWIFT para pagamentos bancários internacionais. Conforme
a Reuters, o fato gerou uma forte reação de Kiev. O governo ucraniano criticou,
duramente, a ausência de medidas mais sérias, que, no entendimento de Zelensky,
precisam ser adotadas com urgência.
O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas
(ONU) deve votar, ainda nesta sexta-feira, uma proposta de resolução que
condena a invasão e exige a retirada imediata das tropas russas do território
ucraniano. A Reuters reportou, contudo, que a Rússia tem poder de veto sobre a
medida e que a China, que assinou tratado de amizade com o país do leste
europeu há três semanas, recusou-se a descrever as ações de Moscou como
invasão.
A guerra entre os dois países e as sanções impostas pelos
países ocidentais devem afetar duramente as economias de todo o mundo. Isto
porque a Rússia é um dos maiores produtores de energia do mundo. Cerca de 40%
da Europa depende, por exemplo, do gás produzido pelo país. Além disso, tanto a
Rússia quanto a Ucrânia estão entre os maiores exportadores de grãos do planeta.