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Infectados pelo novo coronavírus podem gerar anticorpos permanentes, diz estudo

02 de Junho de 2021 | 12h 39
Infectados pelo novo coronavírus podem gerar anticorpos permanentes, diz estudo
Foto: Reprodução/Agência Petrobras

Um estudo publicado pela revista científica britânica Nature revelou, pela primeira vez, que pessoas que contraem a Covid-19 de forma leve ou moderada desenvolvem uma célula imunológica capaz de produzir anticorpos permanentes contra o SARS-CoV-2, mais conhecido como novo coronavírus.

De acordo com a Agência Brasil, a RTP de Washington reportou que observações realizadas em pacientes contaminados mostram que o nível de anticorpos (proteínas capazes de impedir que o vírus infecte as células) começa a diminuir após quatro meses. No entanto, os pesquisadores apontam que o importante é perceber se, apesar da baixa, o doente desenvolveu também uma resposta imunológica completa, que inclui a criação de glóbulos brancos capazes de eliminar o vírus, durante muitos meses ou mesmo anos, após a primeira infecção.

Muitos estudos indicam que tanto pessoas contagiadas quanto vacinadas geram uma resposta celular imune que as protege de reinfecções. A pesquisa publicada pela Nature traz uma excelente novidade. Após analisar 77 pacientes que contraíram a doença, mas não desenvolveram sua forma grave, os especialistas notaram que, na maioria, os anticorpos diminuíram, acentuadamente, após quatro meses. Essa redução, entretanto, foi mais lenta, fazendo com que as moléculas permanecessem no sangue 11 meses após o contágio.

Segundo a RTP, o estudo foi o primeiro a analisar a presença de células plasmáticas (produtoras de anticorpos) de longa vida na medula óssea. Estas são geradas quando um patógeno entra no organismo (no caso da Covid-19, o vírus usa a proteína S para contaminar as células humanas), com a finalidade de conter a doença provocada pelo agente invasor.

Conforme os cientistas, uma vez debelada a infecção, essas células imunes viajam pela medula óssea, permanecendo em estado de latência. Caso o vírus volte a entrar no organismo, elas regressam à corrente sanguínea, reiniciando a produção de moléculas de defesa. Foi o que aconteceu com a grande maioria dos doentes avaliados durante a pesquisa. Por meio de amostras de medula óssea, foi possível identificar que 15 dos 18 pacientes geraram células plasmáticas no sistema imunológico.

Em entrevista ao jornal espanhol El País, o imunologista Ali Ellebedy, da Escola de Medicina da Universidade de Washington e principal pesquisador  do estudo, afirmou que as células plasmáticas podem durar a vida inteira. "Essas células vão continuar e produzir anticorpos para sempre", destacou.

IMUNIDADE - É importante lembrar que a presença de anticorpos nem sempre vai proteger o organismo humano a ponto de torná-lo imune a uma reinfecção, embora, de acordo com o pesquisador, seja provável que isso aconteça. Ele explicou que, caso os anticorpos produzidos pelas células de longa vida não sejam suficientes, o sistema imunológico se encarrega de ativar as células B de memória. E que estas são capazes de produzir ainda mais anticorpos.

O estudo, diz a RTP, encontrou esses tipos de células em doentes e a descoberta condiz com pesquisas realizadas anteriormente, que sugerem que a imunidade contra o SARS-CoV-2, mediada por diferentes tipos de linfócitos e células do sistema imunológico, provavelmente, dura anos.

Isto já foi observado em ocorrências de diversas outras infecções. Um exemplo são os anticorpos e células de memória contra um tipo de coronavírus que provocou a morte de, pelo menos, 800 pessoas, no início da última década. Segundo os cientistas, eles já duram cerca de 17 anos. O mesmo aconteceu em relação à varíola. Mais de meio século após a vacinação, as pessoas seguem retendo células B capazes de produzir anticorpos, se o vírus voltar a atacar seus organismos.

NOVAS VARIANTES - Uma das preocupações dos cientistas é se essas células plasmáticas e de memória seriam capazes de neutralizar as mutações do SARS-CoV-2 que estão surgindo. No entendimento de Ellebedy, "tudo depende de quanto muda a sequência genética do vírus". Ele ressaltou que estudos anteriores constataram que o sistema imunológico dos infectados e vacinados neutraliza, suavemente, as variantes mais graves detectadas até o momento. 

Manel Juan, chefe do serviço de imunologia do Centro de Diagnóstico Biomédico (CDB) do Hospital Clínic de Barcelona, explicou que há anticorpos que não conseguem neutralizar o vírus. Entretanto, o sistema imunológico age estrategicamente, nunca apostando tudo numa única jogada. Ele enfatiza que o sistema de defesa produz anticorpos contra muitas proteínas diferentes do vírus e das células de memória com as mesmas capacidades. Sendo assim, é muito pouco provável que uma variante escape a todos eles, fazendo alguém adoecer gravemente ou morrer. "É razoável que esse tipo de célula forneça imunidade vitalícia", disse, ressaltando, ainda, que "essas células de longa vida são uma ajuda na imunidade contra outras doenças por muitos anos".

TERCEIRA DOSE - A comunidade científica também tem se empenhado em apurar se a proposta das farmacêuticas, que apontam para uma possível necessidade de aplicação de uma terceira dose de imunizante, é mesmo válida. Na opinião de Manel Juan, não. "Está claro que não é necessário, assim como não seria necessário vacinar quem já teve a doença", observou.

Tudo ainda é muito recente para se pensar nessa possibilidade, conforme África González e Marcos López-Hoyos, da Sociedade espanhola de Imunologia. "É bem provável que a proteção pela doença ou pela vacina seja para toda a vida, embora seja algo que terá que ser analisado", disse López-Hoyos.

Para ele, "é necessário estar muito atento ao que acontece com as pessoas mais velhas e com doenças de base. Em todo caso, pensamos que a necessidade de uma terceira dose não é tanta quanto dizem os CEOs da Pfizer e Moderna. Em qualquer caso, a primeira coisa é vacinar toda a população pela primeira dose. Estudos como esses mostram que a imunização gerada pela infecção é mais protetora do que se pensava", destacou.

Também imunologista da Universidade de Vigo, África González enfatizou que "o sistema imunológico gera células de curta, média e longa duração, em resposta a uma infecção". Conforme a especialista, há vacinas que fornecem, apenas, proteção temporária para anticorpos humorais, por cerca de seis meses. Estes, diz ela, "carregam os carboidratos de bactérias e não ativam os linfócitos T".

Outros imunizantes induzem respostas celulares e humorais que se mantêm por anos. É o caso da vacina contra o tétano, recomendada, somente, de dez em dez anos. Por fim, a pesquisadora destaca que outros fármacos dispensam a necessidade de revacinação, após as três doses recebidas na infância, ficando o indivíduo imune por toda a vida.



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