O presidente Jair Bolsonaro foi acusado de cometer crime contra a humanidade, em razão da crise sanitária decorrente da pandemia de Covid-19 que assola o Brasil. Em uma audiência iniciada na manhã desta quinta-feira (15), no Parlamento Europeu, deputados avaliaram a situação do país e responsabilizaram o chefe do Executivo nacional pela tragédia que já vitimou mais de 362 mil pessoas e jogou outros milhões de brasileiros na absoluta pobreza.
A crítica mais contundente partiu da alemã Anna Cavazzini, eurodeputada pelo Partido Verde e vice-presidente da delegação do Parlamento Europeu para assuntos relacionados ao Brasil. Ela disse que a situação caótica vivenciada no país tem como base decisões políticas equivocadas e que a crise poderia ter sido evitada.
De acordo com o jornalista Jamil Chade, colunista do portal de notícias Uol, ela cobrou respostas sobre a morte de indígenas, apontou o fracasso nas políticas públicas e inquiriu o governo brasileiro sobre quais medidas irá adotar para lidar com a fome. “A Covid-19 virou uma crise social, com pessoas indo para cama com fome. O que o governo vai fazer sobre isso?”, questionou.
Cavazzini também exigiu esclarecimentos sobre o destino do dinheiro enviado, pela União Europeia (UE), ao Brasil. “Se Bolsonaro nega a crise e coloca medidas que impedem a ação contra a pandemia, para onde é que o dinheiro vai?”, arguiu.
De acordo com o Uol, aludindo a uma expressão alemã, a parlamentar afirmou que a conjuntura é tão grave, que é como se o Brasil “caminhasse rumo ao precipício de olhos bem abertos”. Ela enfatizou que nenhum país é perfeito, mas que muitos governos estão lutando fazer o melhor. “Em meu país, também temos uma discussão muito crítica sobre se o governo está fazendo a coisa certa. Mas acho que a situação no Brasil realmente se destaca”, disse, em entrevista à BBC News Brasil.
Segundo Cavazzini, Bolsonaro “tem grande parcela de responsabilidade pelo número de doentes e mortos porque não levou a doença a sério, incentivou as pessoas a se reunirem em grandes aglomerações, manteve-se cético, no início, em relação à vacinação e obstruiu os serviços de imunização em cidades e estados do Brasil”.
Realizada em um momento em que o Brasil representa uma ameaça sanitária global, a reunião, que deve se estender durante todo o dia, tem como contexto a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a crise do novo coronavírus no país e os recordes de mortes por Covid-19. E, muito embora não tenha implicação prática, uma vez que o Parlamento Europeu não pode ditar a política externa, Cavazzini diz que as discussões nela fomentadas podem influenciar a agenda dos Estados que integram o bloco.
“Em geral, é claro que sempre é difícil influenciar realmente a política de saúde de outro país, porque é realmente uma questão nacional. Mas acho que uma mistura de pressão diplomática, conversar com o governo, dialogar, tentar identificar os agentes que pensam e agem de forma diferente, apoiá-los é sempre muito importante”, argumentou.
Sobre o financiamento de cooperação, ela foi enfática: “No momento, eu não daria nenhum dinheiro ao governo de Bolsonaro. Talvez identifique corporações que possam ajudar algumas pessoas no Brasil. Essas são opções de política externa. O Parlamento Europeu, basicamente, não tem voz na política externa, mas pode participar nas conversas e pode influenciar a agenda”, indicou.
A eurodeputada, que também é membro do comitê parlamentar responsável por assuntos relacionados ao meio ambiente, é, conforme o Uol, uma das principais vozes críticas à política ambiental do governo Bolsonaro, especialmente no tocante ao desmatamento da Amazônia. Ela tem levantado bandeira contra o massacre dos povos indígenas e contra a perseguição e assassinato de ativistas ambientais e dos direitos humanos.
Anna Cavazzini, que também se opõe ao acordo entre a União Europeia e o Mercosul, ainda em fase de revisão jurídica, se solidarizou com o povo brasileiro, que padece diante da Covid-19. “Queremos mostrar a solidariedade europeia para com as pessoas que estão lá e gravemente afetadas. Claro que também queremos lançar luz também sobre a difícil situação dos direitos humanos no Brasil e, principalmente, das pessoas que defendem as florestas, que defendem suas terras, que estão ameaçadas e algumas delas infelizmente mortas”, lamentou.
OUTRA VOZ CRÍTICA – Na avaliação de Jamil Chade, o eurodeputado Miguel Urban Crespo foi ainda mais duro ao imputar ao presidente brasileiro a culpa pelo caos que o contágio massivo desencadeado pelo novo coronavírus provocou no país. Conforme Crespo, a crise “tem causa política e tem um responsável”. O parlamentar salientou que “Bolsonaro declarou guerra aos pobres, à ciência, à vida e à medicina”.
Diante disso, para o deputado, é uma “autêntica vergonha” a UE continuar negociando um acordo comercial com o Mercosul. “Vamos dizer claramente: a necropolítica de Bolsonaro é um crime contra a humanidade contra o povo brasileiro”, disparou.
O QUE DISSE O BRASIL – Convocado a participar da reunião, o embaixador Marcos Galvão, chefe da Missão do Brasil junto à União Europeia, explicou a situação brasileira e, segundo Chade, foi claro ao reconhecer a dimensão da crise no país. O diplomata citou o número de mortos diários e apontou o mês de março como especialmente letal, uma vez que os números ultrapassaram, e muito, a casa dos 4 mil óbitos diários, neste período.
Marcos Galvão também enumerou os problemas enfrentados, pelos brasileiros, no contexto da pandemia. Ele disse que o desemprego bateu o recorde e que o setor da Saúde vive um momento crítico, alertando sobre a falta de oxigênio hospitalar e de outros insumos médicos.
De acordo com Jamil Chade, o embaixador, no entanto, insistiu que o foco precisa ser o acesso às vacinas. E implorou por ajuda. “Eu sou um servidor público de uma democracia”, lembrou, ao afirmar que estava apresentando “dados transparentes” ao Parlamento Europeu. “Não vou falar de responsabilidades. Temos instituições sólidas que poderão fazer isso. O contribuinte me paga para buscar ajuda no exterior”, completou.