Depois de 23 anos, o Bahia voltou a figurar entre os dez primeiros colocados da Série A Campeonato Brasileiro em 2024. O feito não acontecia desde o remoto 2001, quando a equipe chegou às quartas-de-final – era jogo único – e foi eliminada pelo São Caetano, num empate em 0 a 0, lá em São Paulo. O time do ABC paulista tinha a vantagem do empate, em função da melhor campanha.
Desde
então o Bahia viveu uma turbulência impressionante. Chegou a disputar, por duas
temporadas, a Série C. Ficou, durante sete longos anos, distante da elite do
futebol brasileiro. Mesmo quando subiu, experimentou dois rebaixamentos e, em
boa parte das temporadas em que permaneceu na Série A, brigou para não cair.
O
oitavo lugar na campanha em 2024 – que culminou com a classificação para a
pré-Libertadores, etapa eliminatória que antecede a fase de grupos – foi a
melhor em quase um quarto de século. De quebra, garantiu a possibilidade de
disputar a pré-Libertadores em 2025, o que não acontecia há 36 anos.
O
Bahia viveu seu auge no futebol brasileiro em meados dos anos 1980. Naqueles
anos, emplacou boas campanhas em 1985 (7°), 1986 (5°), 1988 (1°) e 1990 (4°). Desde
então só reapareceu entre os primeiros em temporadas esporádicas, como em 2001.
Pior: passou a flertar, com frequência, com a Série B.
A
chegada do Grupo City reacendeu as esperanças, embora 2023 tenha sido
decepcionante, com a equipe escapando do rebaixamento no Brasileiro só na
derradeira rodada. Em 2024 faltou um título – Baiano ou do Nordeste – mas a
campanha no Brasileiro foi notável, considerando-se o retrospecto do Bahia nas
últimas décadas.
Mesmo
assim, os histéricos das redes sociais estão insatisfeitos, cobravam o título,
no mínimo uma pontuação que garantisse a fase de grupos da Libertadores. Além
de só ouvirem as próprias vozes, conhecem pouco de futebol. É bom não duvidar
que, logo mais, apareça uma palavra de ordem megalômana:
- O título da Libertadores é obrigação!
Escrever é tarefa melindrosa, descobre-se ao longo de anos de ofício. Na juventude, a alguns falta conteúdo e estilo, mas sobra disposição, convertida em textos com desassombrada frequência. Correr os dedos sobre o teclado, embalado por esses ruídos característicos, produz, em muita gente, uma indescritível sensação de prazer.
“Travar”,
como se diz por aí, não conseguir escrever por qualquer razão era impensável. Inadmissível.
Pelo menos pra mim. Vá lá que a inspiração sempre escasseia, mas o bruto
apetite de tamborilar freneticamente, castigando o teclado, impelia,
encorajava.
Claro
que, no começo, sempre há o compromisso com o exercício contínuo, é só através
dele que se adquire experiência, se burila um estilo, um padrão de escrita.
Fastio,
portanto, é desculpa de preguiçoso, diria com arrogância noutros tempos. Ou –
sei lá – vaidade de quem tem inclinações literárias, mesmo que vagas. Mas o
fato é que, às vezes, bate mesmo um fastio, uma ojeriza quando se pensa no
teclado e na tela luminosa. Talvez seja parte de uma crise qualquer – filosófica,
profissional, etária, pessoal – ou uma difusa decepção com certos fatos que
surgem aí no dia a dia.
Não,
no momento não se pode alegar falta de assunto. A vitória de Donald Trump, a
extrema-direita arreganhando os dentes, a violência endêmica, os impulsos
histéricos nas mídias digitais, o indescritível calor feirense que evoca as
mudanças climáticas, tudo isso e muito mais é assunto que está na ordem do dia,
como se dizia antigamente.
Dizem
que, com a maturidade, consegue-se antever muita coisa que, para os mais
jovens, é novidade. Talvez seja verdade. Mas é verdade também que esta
antevisão traz algum enfado. “Isso de novo!” ou “Já vi isso antes!” são reações
comuns.
Sobre
a escrita, com a idade, também, acaba-se desenvolvendo um estilo, mesmo que
mal-ajambrado. Isso conforta um pouco quem escreve e até justifica o ócio
eventual.
Mas
o fato é que veio aí uma fase de fastio, de desinteresse pela escrita. Atenuada
a crise, o interesse reaparece, mesmo que irregular, sujeito a espasmos. Então
vou tentando retomar aos poucos, equilibrando limitações físicas e mentais.
Quem
sabe se, mais à frente, não se aborda uma questão de relevo, um assunto prático
que interesse quem lê?
Tema
recorrente no noticiário são os famosos. Aliás, tema quase exclusivo. Se um
deles aparece doente – com um câncer, por exemplo – haja matérias, manchetes,
fotos, vídeos, uma sufocante visibilidade que deixa qualquer internauta zonzo.
Nem precisa estar com câncer: qualquer problema de saúde já vira manchete,
fotos antigas e atuais replicando-se vertiginosamente. Mas se a celebridade
morrer, então, aí é que o noticiário fervilha, qualquer insignificância ganha manchete
apelativa.
O
problema é que não precisa nenhum problema de saúde para os famosos – incluam-se
aí as subcelebridades – ganharem as manchetes. Um singelo procedimento estético
viraliza logo, para usar uma expressão das próprias redes. Aí tome foto, tome
título, tome texto curto, cheio de frases feitas.
Todo
o noticiário, aliás, nasce de umas poucas fórmulas simples. Se algo mais
complexo aconteceu, há logo um “entenda”; postagens de famosos nas mídias
digitais tem um padrão quase universal: “X posta tal foto e recebe elogios”; Há
sempre um “Y que polemiza” com uma foto ou um comentário; Também há o noticiário
disposto em itens, com “Z” pontos que precisam ser entendidos pelo leitor.
Boa
parte do noticiário hoje, a propósito, deriva de postagens em mídias digitais.
Um famoso qualquer poste alguma coisa e logo o texto converte-se em “conteúdo
jornalístico”. Nestes textos, sempre se apresenta uma biografia sumária da
personagem, um ou dois parágrafos contextualizando o assunto e, às vezes,
comentários pinçados de internautas ociosos.
Faz
tempo que, no Brasil, cultura é coisa para classe média ou para rico; pobre
chafurda no entretenimento, conteúdo produzido pela afamada “indústria cultural”.
O jornalismo também avança na mesma direção. Imagino que, mais à frente, quem
puder pagar vai dispor de informação; quem não puder ou não quiser, vai se
virar com o noticiário sobre os “famosos” ou essas bizarrices que se vêem
regularmente.
Até
lá, uma transição importante vai se processar. Os jornalistas de carne e osso,
em grande medida, vão perder espaço para a Inteligência Artificial, que vai
produzir os textos consumidos pela patuleia. Aos poucos, vive-se essa transição,
discreta e silenciosa.
Quase
não se fala publicamente no assunto, mas muita gente já comenta por aí. Em
suma: os textos sobre as celebridades produzidos por gente, hoje, amanhã será
produto da famosa IA. Humanos? Só para pinceladas eventuais nos textos.
Mas
isso é tema para debate graúdo, tocado por gente conhecedora da comunicação e
da tecnologia. Por enquanto há apenas alguns sinais aí, à vista. O texto que
aqui se arremata – curto, imperativo nesses tempos digitais – estertora. Divagação
de quem está com preguiça de pensar. Então é melhor começar a pensar no fim de semana.
Sim,
o fim de semana está aí e já começa amanhã.
A
lufa-lufa política acabou depois das eleições realizadas no domingo. Os
foguetórios, as carreatas, as caminhadas, os santinhos distribuídos e os jingles
tocados incessantemente – enfim, a muvuca – ficaram para trás. Restam, em
muros, muretas e postes, os cartazes dos candidatos sorridentes. Com o tempo,
vão se desfazer, perdendo a cor, enrugando e se desprendendo. Alguns eleitores
apressam o serviço, desprendendo os cartazes de seus muros e portões.
Como
se sabe, aos vitoriosos coube o júbilo; quem perdeu tentou sustentar o otimismo,
enaltecendo o próprio desempenho, o que é do jogo; uns e outros se debruçam
para esmiuçar números, mapear a distribuição de votos, aferir suas forças e
fragilidades. Essas informações vão orientar condutas, permitir traçar rumos
mais à frente.
No
Legislativo feirense, há novidades. Não, não se trata de novos nomes, porque
isso quase não aconteceu. Mas é que aquela pulverização partidária de outros
tempos – as legendas de aluguel sempre elegiam algum azarão – já não tem a
mesma amplitude. Quem coloca gente no parlamento são os partidos mais sólidos, amparados
por robustos fundos eleitoral e partidário.
Em
2024 o União Brasil – partido do prefeito eleito José Ronaldo de Carvalho –
elegeu sete vereadores, o que corresponde a um terço da Câmara Municipal. Na
sequência veio o Progressistas, com quatro parlamentares; o Partido Liberal
(PL) e o Partido dos Trabalhadores (PT), despontam com dois vereadores cada.
São, portanto, 15. Os seis restantes representam, cada um, uma legenda.
Doze
anos atrás, em 2012, o cenário foi bem diferente. Naquela ocasião o futuro
prefeito José Ronaldo elegera-se para seu terceiro mandato. Seu partido – o então
DEM – elegeu só dois parlamentares; a Câmara Municipal era bem heterogênea em
termos partidários: os 21 vereadores representavam nada menos que 15 legendas.
O
que explica essa concentração recente? As reformas políticas tocadas desde
aquela época foram enrijecendo as regras eleitorais, o que incluiu cláusulas de
desempenho para os partidos. Sem recursos, desde então alguns nanicos se
fundiram e outros trilharão o mesmo caminho a partir de 2026. Dinheiro farto,
de fato, só para as maiores legendas.
Ampliaram-se,
também, recursos e vantagens para quem já está no poder. Quem está de fora, e
tenta, enfrenta dificuldades crescentes. Não foi à toa que boa parte dos
vereadores feirenses se reelegeu. Alguns que estavam afastados do Legislativo
retornarão. Apesar de se reclamar muito dos vereadores pelas ruas, houve pouca
mudança.
É
que, no fundo, o povo reclama, reclama, mas reelege.
Nenhuma
mulher figura nas chapas para as eleições majoritárias aqui na Feira de Santana
em 2024. Nota-se, também, que pouco se fala delas nos programas eleitorais. Mesmo
assim, as mulheres constituem a maior parte do eleitorado feirense (55%), de
acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral. Por outro lado estão, também,
incluídas entre os segmentos da população que mais demandam atenção dos
governos.
É
o caso da população beneficiária do maior programa de distribuição de renda do
País, o Bolsa Família (PBF). Dados do Ministério do Desenvolvimento Social
indicam que, na Princesa do Sertão, há 120 mil beneficiárias entre elas. Os
homens, por sua vez, eram 73,9 mil de um total de 193,9 mil pessoas. Os dados
são de julho de 2024.
O
recorte por faixa etária mostra que elas são 21,7 mil entre 7 e 15 anos. Eles,
22,3 mil, ligeira maioria. O problema é que, à medida que as faixas etárias
avançam, os homens tornam-se menos dependentes do programa. Elas também, mas
essa redução se dá numa proporção menor. No recorte de 25 a 34 anos, por
exemplo, os homens são apenas 5,2 mil e as mulheres impressionantes 20,1 mil.
O
equilíbrio só se restabelece na faixa acima de 65 anos. Entre elas há apenas
403 beneficiárias e, entre eles, 406. A redução drástica explica-se pela
existência de outros benefícios sociais para esta faixa etária, como o
Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou a própria previdência social. Nas
demais faixas etárias elas são sempre maioria.
Tudo
bem que, preferencialmente, a titularidade do benefício pertence à mulher no
núcleo familiar, conforme as regras do PBF. Mas há também a questão que as
mulheres assumem muito mais a condição de únicas chefes de família em
comparação aos homens.
Também
enfrentam mais obstáculos para ingressar no mercado de trabalho, o que não se
verifica na mesma magnitude entre os homens. Em suma, estão mais expostas às
vulnerabilidades social e econômica.
Robustecido,
o Bolsa Família vem contribuindo de maneira marcante para a dinamização da
economia em periferias e pequenos municípios e reduzindo a pobreza que vinha
crescendo de maneira alarmante no Brasil durante o desgoverno daquilo que
chamavam de “mito”. A iniciativa é bem-vinda, mas insuficiente para assegurar
crescimento econômico sustentável.
Pontualmente,
os municípios têm um papel a desempenhar em relação à questão. Em artigo
anterior mencionamos a necessidade de mais creches e mais vagas em creches, o
que libera as mulheres para trabalhar. Mas as medidas – em nível municipal –
podem ir além. Só que é necessário conhecer a realidade e propor soluções criativas,
o que não se nota por aqui.
Não,
município nenhum vai resolver, sozinho, a grave questão do desemprego, do
subemprego e do trabalho precário enfrentados pelas mulheres. Mas a disposição
para enfrentar a questão e o conhecimento podem ajudar a, pelo menos, mitigar o
problema, oferecendo iniciativas pontuais a segmentos da população mais
fragilizados.