Durante muito tempo, a guerra na Ucrânia foi narrada quase
exclusivamente por mapas. A cada semana, discutia-se qual aldeia havia sido
conquistada, qual cidade resistia, qual linha de frente avançava alguns
quilômetros para leste ou para oeste. Era uma narrativa geográfica, construída
sobre o território. Mas talvez estejamos assistindo a uma mudança silenciosa e
muito mais profunda. O verdadeiro campo de batalha começa a deslocar-se dos mapas
para as refinarias.
Os relatórios mais recentes indicam que a Rússia enfrenta
dificuldades crescentes para atender à própria demanda interna de gasolina.
Refinarias importantes foram atingidas por ataques ucranianos de longo alcance,
a produção caiu, reservas estratégicas passaram a ser utilizadas, combustível
começou a ser importado da Bielorrússia e autoridades locais chegaram a
recomendar redução de deslocamentos para economizar gasolina.
À primeira vista, trata-se apenas de uma notícia econômica. Na
realidade, é uma notícia profundamente militar. Poucas substâncias possuem
tanto valor estratégico quanto o combustível. Exércitos modernos não marcham
apenas sobre o estômago, como dizia Napoleão; marcham, sobretudo, sobre
derivados de petróleo. Tanques, caminhões, aviões, helicópteros, geradores,
embarcações e toda a gigantesca máquina logística que sustenta uma guerra
dependem de um fluxo permanente de energia. Sem combustível, até o mais
poderoso dos exércitos transforma-se em um conjunto de equipamentos imóveis.
Talvez estejamos diante de uma das maiores transformações
estratégicas desta guerra. A Ucrânia parece ter compreendido que destruir um
depósito de combustível pode produzir efeitos militares superiores aos da
conquista de uma pequena localidade. Em vez de concentrar todos os esforços na
destruição de batalhões inimigos, passou a atacar aquilo que permite a esses
batalhões continuar existindo: refinarias, oleodutos, terminais petrolíferos,
subestações elétricas, centros logísticos e, mais recentemente, até
navios-tanque responsáveis pelo abastecimento da Crimeia ocupada. Essa mudança
não é apenas operacional. Ela altera a própria lógica da guerra.
Durante séculos, pensou-se que a vitória dependia da
destruição direta das forças inimigas ou da conquista de suas cidades. Hoje,
percebe-se que é possível reduzir significativamente a capacidade de combate de
um adversário sem ocupar um único quilômetro adicional de território. Basta
tornar cada vez mais difícil alimentar sua economia de guerra.
É a velha ideia do centro de gravidade, formulada por
Clausewitz, reinterpretada para o século XXI. O ponto decisivo já não é
necessariamente uma fortaleza, uma capital ou uma grande batalha campal. Pode
ser uma refinaria situada a centenas de quilômetros da linha de frente. Pode
ser uma subestação elétrica. Pode ser um terminal de armazenamento de
combustíveis. O objetivo deixa de ser apenas destruir tropas; passa a ser
corroer, lentamente, a capacidade material que permite a continuidade das
operações militares.
Essa lógica, aliás, possui precedentes históricos. Na Segunda
Guerra Mundial, os bombardeios aliados contra as instalações petrolíferas de
Ploie?ti, na Romênia, buscavam precisamente reduzir a capacidade operacional da
máquina militar alemã. A diferença é que, oitenta anos depois, essa missão pode
ser realizada por enxames de drones relativamente baratos, capazes de atingir
alvos situados a centenas ou até mais de mil quilômetros de distância.
A consequência é que a guerra deixa de possuir uma única
frente. O campo de batalha torna-se difuso, profundo e nacional. Um incêndio em
uma refinaria distante pode produzir efeitos tão relevantes quanto um combate
nas trincheiras do Donbass. O motorista que encontra um posto sem combustível,
o caminhoneiro que enfrenta restrições de abastecimento e a indústria obrigada
a reduzir sua produção também passam a integrar, ainda que involuntariamente, a
equação estratégica do conflito.
Talvez esta seja a principal lição da guerra na Ucrânia em 2026. O mapa continua importante, mas já não conta toda a história. As batalhas decisivas podem estar ocorrendo longe das trincheiras, onde não se disputam cidades, mas a energia que mantém um país em guerra. No século XXI, quem controla a produção, o transporte e a distribuição de combustível não controla apenas a economia. Controla, cada vez mais, o ritmo da própria guerra.