Contaminados pela loucura bélica
do mundo e a performance vexatória da seleção, deixamos de celebrar o
aniversário do biquíni neste 5 de julho. São 80 anos de uma das mais extraordinárias invenções da
história do vestuário — a síntese perfeita da arte de produzir o máximo efeito
com o mínimo de cobertura.
A humanidade gastou milênios para
ir das peles de animais ao terno de três peças, mas poucas décadas bastaram
para revelar que a verdadeira revolução consistia em vestir menos. O manifesto
do biquíni mudou costumes, enfrentou censores, causou síncopes em moralistas e
transformou as praias no mais democrático laboratório de emancipação social —
onde a única heresia era a marca de sol torta.
Mudou também a nossa cobiça.
Antes concentrada na visão acidental de um tornozelo ela foi ao êxtase com a
exposição dos seios intrépidos desenhados no top e no eterno duelo entre a
frente e o verso da área genital. O verso foi exposto antes, provando que o
flanco traseiro sempre esteve na vanguarda.
A vocação do brasileiro para a
nudez encontrou nessa peça sua redenção. Afinal, a modelo e estilista Miriam
Etz, refugiada da Alemanha e radicada no Brasil desde 1936, anos depois botou
as manguinhas de fora — e a barriga, as pernas e quase todo o resto também. Ela
costurou um duas-peças movida por um desejo revolucionário: tomar sol no
umbigo. Depois disso, a linha do equador nunca mais foi a mesma.
Entretanto, foi em 1946 que o
engenheiro — vejam a matemática da coisa — e estilista Louis Réard lançou, em
Paris, o biquíni oficial. Apenas Micheline Bernardini, dançarina do Cassino de
Paris, teve a coragem de usá-lo em público. A criação recebeu o nome do Atol de
Bikini, onde os Estados Unidos realizavam testes nucleares. A metáfora era perfeita:
a peça também seria uma explosão social, moral e estética. Réard resumiu tudo
em uma frase memorável: "Um biquíni só é realmente um biquíni se puder
passar por dentro de uma aliança de casamento." Juntou-se, enfim, a
vontade de mostrar com a fome de ver. Quanto maior a liberdade feminina, menor
o pano que as cobria. Afinal: seu corpo, suas regras.
O Brasil deu contribuições
decisivas a essa engenharia minimalista. Primeiro com David Azulay que, na Blue
Man, em 1972, criou o biquíni de lacinho. É espantoso pensar que dois pequenos
nós são capazes de abrir um universo inteiro de fantasias. Depois, nos anos
1980, Cidinho Pereira levou o imaginário ao limite ao criar o asa-delta e o
fio-dental, transformando poucos centímetros de lycra na mais eficiente
demonstração de que, às vezes, menos é muito mais — e quase nada é o ideal.
Nunca houve, no vestuário humano,
uma peça que simbolizasse tanto a liberdade feminina. A minissaia, lançada nos
anos 1960 para libertar a libido, só encontrou terreno fértil porque as praias
já haviam libertado as pernas — e todas as áreas adjacentes. No fundo, toda
revolução começa pequena. Algumas cabem num panfleto; outras, numa barricada. A
do biquíni coube em dois palmos de tecido e, ainda assim, conseguiu
escandalizar o mundo, libertar milhões de mulheres e provar que há ocasiões em
que a História se escreve com muito menos pano do que supõe nossa vã filosofia.