Os generais explicam as batalhas. Os correspondentes explicam a guerra
Durante muito tempo, a História Militar foi escrita de cima
para baixo. Dos quartéis-generais para as trincheiras. Dos mapas para os
homens. Dos generais para os soldados. Aprendemos a acompanhar setas coloridas
indicando o avanço de divisões, o deslocamento de esquadras, a conquista de
cidades e o cerco de fortalezas. Conhecemos os nomes dos comandantes, os
calibres da artilharia, a composição dos exércitos e as decisões estratégicas
que mudaram o curso de campanhas inteiras. Tudo isso é indispensável. Mas não
basta.
Nenhum mapa registra o cheiro da pólvora. Nenhuma carta de
operações consegue reproduzir o silêncio que antecede um bombardeio. Nenhuma
ordem do dia traduz a angústia de um soldado esperando o amanhecer ou o alívio
absurdo provocado por uma piada contada dentro de uma trincheira. Há uma guerra
que escapa aos estados-maiores. É a guerra vista do chão. Foi essa guerra que
os grandes correspondentes legaram à História. E eu sempre fui fascinado por
correspondentes de guerra e seus relatos.
Enquanto os generais explicavam por que uma colina precisava
ser conquistada, eles mostravam quem morria tentando conquistá-la.
Talvez o primeiro grande nome dessa tradição tenha sido
William Howard Russell. Na Guerra da Crimeia, em meados do século XIX, Russell
desmontou a retórica heroica que cercava os exércitos britânicos. Suas
reportagens revelaram improvisação, incompetência logística, sofrimento e
abandono. Pela primeira vez, milhões de leitores descobriram que uma batalha
não era apenas um feito glorioso, mas também lama, doença e desorganização.
No século XX, essa tradição atingiu sua maturidade. Martha
Gellhorn desembarcou na Normandia escondida em um navio-hospital porque as
autoridades militares haviam proibido mulheres de acompanhar a invasão. Ela
desafiou a ordem não por vaidade, mas porque compreendia que a guerra precisava
ser vista de perto. Em vez de escrever sobre os movimentos das divisões
aliadas, descreveu o cheiro da grama entre explosões, o humor nervoso dos
soldados, o medo compartilhado e a estranha persistência da vida em meio ao
caos.
Seu contemporâneo Robert Capa levou essa mesma perspectiva
para a fotografia. Suas imagens são tecnicamente imperfeitas, muitas vezes
tremidas. Justamente por isso permanecem insuperáveis. Não retratam uma guerra
observada; retratam uma guerra vivida. Como dizia o próprio Capa, se a
fotografia não ficou boa, é porque o fotógrafo não estava suficientemente
perto.
Na Guerra do Vietnã, Michael Herr rompeu definitivamente com
a linguagem tradicional da reportagem militar. Em Dispatches,
especialmente nas páginas dedicadas ao cerco de Khe Sanh, a guerra deixa de ser
uma sucessão de operações e transforma-se numa experiência psicológica. O medo,
a confusão, a fadiga e o absurdo passam a ocupar o centro da narrativa. O
leitor compreende o conflito não porque decorou mapas, mas porque atravessou
emocionalmente aquele campo de batalha.
Poucos anos depois, Joseph L. Galloway acompanharia os
soldados americanos no vale de Ia Drang. Diferentemente do observador distante,
caminhou ao lado das tropas, compartilhou riscos e registrou o primeiro grande
choque entre forças norte-americanas e vietnamitas. Seu trabalho, mais tarde
transformado em livro, mostrou que compreender uma batalha exige estar onde as
balas caem, e não apenas onde as ordens são emitidas.
O mesmo pode ser dito de Robert Fisk. Durante décadas, das guerras
do Líbano aos conflitos do Oriente Médio, Fisk recusou o conforto das redações
e insistiu em permanecer entre ruínas, hospitais e populações civis. Sua grande
contribuição talvez tenha sido lembrar que toda guerra, por mais sofisticadas
que sejam suas armas, continua sendo vivida por pessoas comuns.
Há, portanto, duas histórias possíveis de cada conflito. A
primeira é escrita pelos estrategistas. Explica por que uma ofensiva foi
lançada, quais objetivos foram alcançados e como determinada campanha alterou o
equilíbrio político entre Estados. A segunda é escrita pelos correspondentes.
Ela registra o frio, a fome, a poeira, a espera, o medo, os pequenos gestos de
solidariedade e as breves explosões de humor que impedem o desespero
absoluto.Nenhuma substitui a outra. Mas apenas a segunda consegue responder à
pergunta mais importante de todas: Como era, afinal, estar lá?
Os generais nos ensinam como as guerras são vencidas. Os
correspondentes nos lembram por que elas jamais deveriam ser romantizadas. E
talvez seja justamente por isso que, décadas depois do silêncio dos canhões,
continuemos voltando às páginas desses homens e mulheres. Não para compreender
apenas a guerra, mas para compreender o ser humano quando todas as estruturas
da civilização parecem desabar.
*Nota: meu fascínio pelo estudo de História Militar remonta
aos meus tempos de adolescente. Logo cedo me familiarizei com relatos de
correspondentes de guerra. São muitos, mas talvez o de mais fácil leitura seja os “Despachos do Front”, do correspondente da revista Rolling Stone, Michael
Herr. Este livro serviu de inspiração para o filme "Apocalipse Now".