Quantas árvores cabem numa área nativa de 4,4 hectares, equivalente a 6 campos de futebol ou 45 mil metros quadrados? Milhares, segundo estimativas técnicas. Algo entre 8 e 14 mil.
Mas se esta área será utilizada para construção de um condomínio, prédios, shopping, seja o que for, é inevitável o desmatamento. É o que chamamos na espécie humana, de progresso.
Como não vivemos mais ou não voltamos ainda para a barbárie, o interessado no desmatamento precisa compensar minimamente a destruição que causará. Como compensar?
A prefeitura de Feira de Santana concedeu uma Autorização de Supressão Vegetal em uma área no SIM, "para desenvolver a atividade de construção de edifícios". O município admite a compensação na forma de mudas que a empresa desmatante vai doar para serem plantadas e crescerem em algum lugar adiante.
Vamos imaginar quantas mudas a prefeitura aceita como compensação para a derrubada do equivalente a 6 campos de futebol de vegetação nativa?
1.000 mudas, um pouquinho mais que 10% do mínimo que haveria no terreno original?
Não. 1.000 é demais. Vamos baixar a expectativa, cortar isso pela metade. 500 mudas, pelo menos. Afinal não se compara uma muda com uma árvore adulta. Não se compara plantar uma muda nos poucos canteiros centrais disponíveis nas nossas avenidas com derrubar uma árvore dentro do próprio ecossistema. A muda terá um longo caminho a percorrer, nem é garantido que chegará a ser uma árvore adulta.
Porém, sou obrigado a contar aqui que 500 mudas é muito. Não sei porque, mas é muito.
Então vamos imaginar que a prefeitura aceitou que em troca da derrubada de 8 mil árvores, a empresa - já digo qual - doe 250 mudas. Pode ser assim então?
Não, não pode. A compensação "exigida" pela Secretaria de Meio Ambiente, em portaria com assinatura da secretária Jaciara Moreira da Costa, no Diário Oficial do dia 13 de maio de 2026, é um tanto mais modesta, é menos que um terço disso.
Para ser exato, 0,9% daqueles 8.000 exemplares adultos, que diferentes de uma muda, dão sombra, regulam temperatura, adubam e preservam o solo. Inclusive sem que alguém precise regar.
70 mudas.
70 mudas é o compromisso que a Gran Artêmia Empreendimentos Imobiliarios Spe LTDA tem com Feira de Santana para compensar o desmatamento de 45 mil metros quadrados.
E alguém conhece essa empresa do ramo imobiliário? Sim e Não.
Não é conhecida porque é muito nova, seu CNPJ nasceu em 17/01/2025, menos que um ano e meio atrás. Por outro lado, seus donos são sobejamente conhecidos, pois sócios também da veterana L. Marquezzo: Antonio Ribeiro Marques Neto, Ricardo Trindade Marques e
Rogerio Trindade Marques. Até o endereço das duas empresas é o mesmo, na avenida Maria Quitéria.
Graças aos envolvidos, parabéns, estamos inaugurando uma nova e ousada política: ao invés de neutralizar carbono, neutralizamos oxigênio. Por quê? Porque o plano de arborização do município, confessado a Valdomiro Silva pelo engenheiro ambiental João Falcão, diretor municipal de Áreas Verdes, é plantar ao longo de todo o atual mandato, 5 mil mudas, enquanto cairão no mínimo 8 mil árvores adultas, na área da qual tratamos aqui, localizada nas proximidades da futura avenida Gilson Carlos Silva Pereira, no SIM.
No frigir dos ovos - o que pode ser feito no meio da rua desta metrópole quente e desmatada - de uma tacada só, L.Marquezzo, digo, Gran Artêmia, precisa apenas de uma retroescavadeira e alguns dias para zerar, com folga, o notável esforço de anos do departamento de Áreas Verdes.
A lei 11.428/2006, que trata da utilização e proteção da vegetação nativa Mata Atlântica, diz em seu artigo 17 que neste bioma só se pode desmatar fazendo a compensação ambiental em "área equivalente à extensão da área desmatada". Ou seja, havendo boa vontade e real interesse, a empresa pode, ao invés de anular o esforço do departamento de Áreas Verdes, providenciar sozinha as 5 mil mudas de que João precisa.
Mas não havendo boa vontade, lembro de ter ouvido alguma vez que o Ministério Público tem um promotor para a área ambiental. Espero que seja verdade, porque poderia ajudar o Executivo municipal a evitar esta flagrante injustiça com a natureza.