Falta pouco mais de um mês para a Copa do Mundo. Imagino que, apesar do desânimo com a Seleção Brasileira, mesmo assim a população vai plantar-se defronte às tevês, acompanhando as inúmeras partidas. Isso em meio aos festejos juninos, que absorvem o Nordeste e os nordestinos. Depois da competição, em julho, a população vai começar a entrar no clima eleitoral. Afinal, o pleito acontece só um pouco mais à frente, no início de outubro.
Mas, apesar da relativa distância em relação às eleições, certos sintomas já são perceptíveis na atmosfera política brasileira. O sentimento mais denso, provavelmente, será o do ódio. Não é novidade: nas últimas eleições presidenciais este tem sido o principal dínamo. É tanto que, em janeiro de 2023, o ódio descambou numa destrambelhada tentativa de golpe.
Este ódio, em grande medida atributo da extrema-direita, materializa-se, quase sempre, na forma de mentiras que circulam pelo aplicativos de celular: as famosas fake news. Já é grande o volume de mentiras compartilhadas em grupos, sem nenhum tipo de freio moral. Como sempre, há os vilões e os herois: estes, invariavelmente, são os expoentes da extrema-direita; vilão é quem toma a liberdade de contestá-los.
Os avanços tecnológicos – como o uso da Inteligência Artificial (IA) – tendem a tornar o cenário ainda mais caótico, mesmo com os esforços institucionais recentes para frear os absurdos. Mas esta turma, como se sabe, não tem melindres nem pudores, o que torna contê-los ainda mais difícil.
Testada em seus limites na última década, a democracia brasileira tende a sofrer novos tensionamentos caso a extrema-direita não vença nas urnas. Não se trata, aqui, de especulação: eles próprios já propalam isso por aí, sem nenhum constrangimento. Tudo sinaliza, portanto, para um segundo semestre difícil, particularmente para quem repudia ditaduras e ditadores.
A peleja para manter a democracia de pé envolve custos. Por exemplo: enquanto se gasta energia repelindo golpistas, os problemas que o País precisa enfrentar são esquecidos. A energia deveria estar sendo canalizada para os imperativos do crescimento, da justiça social, da sustentabilidade ambiental, da inserção soberana e produtiva do Brasil no futuro.
Mas não: a prioridade é discutir a soltura de bandidos, – bandidos amigos são bons soltos - a revogação de direitos de trabalhadores, a predação ecológica, a perseguição às minorias, o privatismo irresponsável e por aí vai. Não falta quem bata palma, julgando-se afortunada, na fila do butim.
O fio do raciocínio quase escapa, mas resgatei-o: então, é bom aproveitar as transmissões da Copa do Mundo, dançar bastante forró, curar as ressacas para, logo à frente, encarar o sombrio cenário eleitoral. E, até chegar à tela da urna, torcer para o Brasil, novamente, não despencar no abismo.
Até porque nunca se sabe se haverá nova oportunidade de escapar deste mesmo abismo...