Em oportunidades anteriores, tratou-se nesta espaço dos efeitos da proliferação dos jogos eletrônicos no Brasil. Até então, havia menor clareza sobre seus efeitos no bolso do brasileiro e, sobretudo, sobre suas consequências. Derrocada financeira, desestruturação familiar, adoecimento mental, e até, em situações mais trágicas, suicídios, compõem os desdobramentos da ludopatia: o vício em jogo. Mas, como o “liberou geral” da jogatina era recente, seus efeitos ainda não eram tão mensuráveis.
Pois bem: o tempo passou e os levantamentos ganharam robustez, graças às séries mais longas de informações. O que se debatia em tese, assumiu maior nitidez com sustentação em números. E estes números trazem um cenário alarmante.
No país dos juros estratosféricos, o brasileiro gasta mais com jogo do que com crédito e juros. É isso aí: na média, boa parte da renda vai para o poço sem fundo das bets, para felicidade dos donos dessas arapucas digitais. Frustrado com a ilusão de ficar rico jogando, com seu orçamento desfalcado, o brasileiro médio direciona seu azedume para o alvo mais conveniente: o governo.
Pré-candidato à reeleição, acuado pela avaliação negativa de sua gestão, o presidente Lula até falou na proibição total das bets no Brasil. Demorou para se manifestar, mas revelou o que os mais sensatos pensam a respeito da jogatina no país. Mais do que um impulso individual, no agregado o vício vem produzindo efeitos nocivos sobre a economia, conforme atestam inúmeros levantamentos.
O problema é convencer o Congresso a adotar a medida. Lá, o lobby da jogatina é poderoso e mobiliza sabe Deus quantos parlamentares. Comenta-se que muitos são sócios ocultos e atuam para sustentar o descalabro que vem condenando muita gente a abrir mão do pão, da carne, da roupa e do calçado em nome da fantasia de ganhar dinheiro sem esforço.
É difícil fomentar um debate maduro sobre esta questão – e sobre muitas outras também – num país cujos parlamentares investem no histrionismo, na aberração, no radicalismo e em debates rasos insuflados pela ditas redes sociais. Quem colocou esta gente lá? Quem vive devorando notícias sobre famosos e propagando fake news pelos aplicativos de celular. A encruzilhada é complexa, como se vê.
Como já mencionado, Lula, possivelmente acossado pela avaliação negativa do seu governo, falou o que já deveria ter sido dito há bastante tempo. Não foi o melhor começo para discutir a questão, mas, de qualquer maneira, é um ponto de partida. Criminosos de colarinho branco, milícias e facções já representam problemas demais para o já esgarçado tecido social brasileiro, para recorrer a uma clássica e repisada expressão.
Proibir as bets e reverter a condição brasileira de recente paraíso da jogatina é um passo importante e, certamente, menos complexo que combater os criminosos de colarinho branco, milícias e facções e suas teias intrincadas. Mas, seguramente, terá efeitos positivos, inclusive sobre os criminosos de colarinho branco, milícias e facções, que também dispõem de suas bets...