A tentação de enxergar nessa
aproximação o embrião de uma coalizão militar comparável à OTAN é grande, mas
enganosa. A relação sino-russa se assemelha menos a uma aliança operacional
integrada e mais a um tipo histórico específico: alianças definidas pelo
inimigo comum, não por planejamento estratégico conjunto. Nesse sentido, o
paralelo mais instrutivo não é com os Aliados da Segunda Guerra, mas com o eixo
Roma-Berlim-Tóquio.
O Eixo, frequentemente tratado de
forma caricatural, nunca foi uma aliança militar no sentido pleno. Alemanha,
Itália e Japão compartilhavam antagonistas, sobretudo as potências anglo-saxãs,
mas não elaboraram planos operacionais conjuntos, não criaram um comando
integrado, nem coordenaram campanhas militares. Cada guerra foi travada em seu
próprio teatro, segundo prioridades nacionais distintas. A unidade era política
e ideológica; a guerra, fragmentada.
A parceria entre China e Rússia
segue lógica semelhante. Há cooperação diplomática, intercâmbio econômico
intenso e exercícios militares conjuntos cuidadosamente encenados. Mas não há
evidência de planejamento operacional compartilhado, nem compromissos automáticos
de defesa mútua. A guerra da Ucrânia permanece um empreendimento exclusivamente
russo. Um eventual conflito em Taiwan seria, da mesma forma, uma decisão
soberana chinesa.
Essa ausência de integração não é um
defeito acidental — é um componente estrutural da relação. Pequim evita, de
forma consistente, qualquer arranjo que limite sua liberdade estratégica. Não
há tratado que imponha um casus foederis, nem disposição chinesa de se
deixar arrastar para conflitos alheios. Moscou, por sua vez, precisa mais da
China do que a China precisa da Rússia, o que torna a simetria da aliança
apenas aparente.
Nesse sentido, trata-se menos de uma
coalizão militar do que de uma aliança negativa: uma convergência
destinada a bloquear iniciativas americanas e a enfraquecer a ordem liberal
liderada pelos EUA, sem a pretensão de substituí-la por um sistema alternativo
coerente. China e Rússia não constroem uma nova arquitetura de segurança
conjunta; elas corroem a existente.
A retórica do “grande plano” evocada
por Xi Jinping deve ser lida com cautela. Para a China, planejamento significa
previsibilidade econômica, acesso energético seguro e margem de manobra
geopolítica, não necessariamente coordenação bélica profunda. Para a Rússia,
isolada por sanções e dependente do comércio asiático, a parceria funciona como
linha de sobrevivência estratégica.
Assim como no Eixo histórico, a
força dessa aliança reside justamente em sua ambiguidade. Ao evitar a
integração militar plena, China e Rússia maximizam benefícios e minimizam
riscos. Não marcham juntas, mas caminham na mesma direção, ao menos enquanto seus
interesses convergirem. A estabilidade celebrada por Putin, portanto, não é a
do sistema internacional, mas a de uma relação construída para desafiar sem se
comprometer, resistir sem se fundir e contestar sem planejar a guerra em comum.