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Wellington Freire

Marchar separado, desafiar juntos: o paradoxo sino-russo

04 de Fevereiro de 2026 | 13h 59
Marchar separado, desafiar juntos: o paradoxo sino-russo

 Ao definir a parceria entre Rússia e China como um “fator de estabilidade” em meio à guerra, Vladimir Putin não descreve a realidade internacional, ele a reconstrói retoricamente. A afirmação, feita às vésperas de o conflito na Ucrânia completar quatro anos, revela menos sobre equilíbrio global e mais sobre a natureza peculiar dessa aliança que Moscou e Pequim insistem em apresentar como “sem limites”.

A tentação de enxergar nessa aproximação o embrião de uma coalizão militar comparável à OTAN é grande, mas enganosa. A relação sino-russa se assemelha menos a uma aliança operacional integrada e mais a um tipo histórico específico: alianças definidas pelo inimigo comum, não por planejamento estratégico conjunto. Nesse sentido, o paralelo mais instrutivo não é com os Aliados da Segunda Guerra, mas com o eixo Roma-Berlim-Tóquio.

O Eixo, frequentemente tratado de forma caricatural, nunca foi uma aliança militar no sentido pleno. Alemanha, Itália e Japão compartilhavam antagonistas, sobretudo as potências anglo-saxãs, mas não elaboraram planos operacionais conjuntos, não criaram um comando integrado, nem coordenaram campanhas militares. Cada guerra foi travada em seu próprio teatro, segundo prioridades nacionais distintas. A unidade era política e ideológica; a guerra, fragmentada.

A parceria entre China e Rússia segue lógica semelhante. Há cooperação diplomática, intercâmbio econômico intenso e exercícios militares conjuntos cuidadosamente encenados. Mas não há evidência de planejamento operacional compartilhado, nem compromissos automáticos de defesa mútua. A guerra da Ucrânia permanece um empreendimento exclusivamente russo. Um eventual conflito em Taiwan seria, da mesma forma, uma decisão soberana chinesa.

Essa ausência de integração não é um defeito acidental — é um componente estrutural da relação. Pequim evita, de forma consistente, qualquer arranjo que limite sua liberdade estratégica. Não há tratado que imponha um casus foederis, nem disposição chinesa de se deixar arrastar para conflitos alheios. Moscou, por sua vez, precisa mais da China do que a China precisa da Rússia, o que torna a simetria da aliança apenas aparente.

Nesse sentido, trata-se menos de uma coalizão militar do que de uma aliança negativa: uma convergência destinada a bloquear iniciativas americanas e a enfraquecer a ordem liberal liderada pelos EUA, sem a pretensão de substituí-la por um sistema alternativo coerente. China e Rússia não constroem uma nova arquitetura de segurança conjunta; elas corroem a existente.

A retórica do “grande plano” evocada por Xi Jinping deve ser lida com cautela. Para a China, planejamento significa previsibilidade econômica, acesso energético seguro e margem de manobra geopolítica, não necessariamente coordenação bélica profunda. Para a Rússia, isolada por sanções e dependente do comércio asiático, a parceria funciona como linha de sobrevivência estratégica.

Assim como no Eixo histórico, a força dessa aliança reside justamente em sua ambiguidade. Ao evitar a integração militar plena, China e Rússia maximizam benefícios e minimizam riscos. Não marcham juntas, mas caminham na mesma direção, ao menos enquanto seus interesses convergirem. A estabilidade celebrada por Putin, portanto, não é a do sistema internacional, mas a de uma relação construída para desafiar sem se comprometer, resistir sem se fundir e contestar sem planejar a guerra em comum.

 



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