A persistir o atual ritmo de expansão da mancha urbana de Feira de Santana, uma parcela significativa de sua zona rural tende a desaparecer ou a ser convertida em mera extensão periférica da cidade. O que se observa não é um crescimento orgânico ou planejado, mas um avanço acelerado, fragmentário e frequentemente predatório, impulsionado pela valorização imobiliária e pela lógica especulativa que passou a orientar o uso do solo urbano nas últimas décadas.
O crescimento quase vertiginoso do mercado imobiliário, sobretudo a partir dos anos 2010, produziu uma expansão que, em diversas áreas, dissolveu por completo a fronteira entre o urbano e o rural. O resultado não se limita à ocupação desordenada do território: trata-se de um processo mais profundo, que envolve o apagamento progressivo da memória social, a descaracterização da paisagem histórica e a ruptura de modos tradicionais de existência que, por séculos, estruturaram a vida local.
Fatores de ordem local, como os elevados índices de violência urbana e o enfraquecimento da capacidade reguladora do Estado, articulam-se a dinâmicas globais, entre elas a mercantilização extrema do espaço urbano e o medo como princípio organizador da vida social. Dessa combinação emerge o crescente interesse das classes médias por formas de habitação fechadas, planejadas e cercadas por muros: os condomínios residenciais. O problema central reside no fato de que as áreas mais bem localizadas da cidade já se encontram amplamente ocupadas. A expansão, portanto, avança inexoravelmente sobre a zona rural.
Nesse contexto, toda a região que outrora delimitava os entornos do Distrito de Jaíba encontra-se sob ameaça concreta de desaparecer enquanto espaço rural dotado de identidade própria. Complexos de condomínios, muitos deles interligados a ponto de configurarem bairros inteiros, surgiram em poucos anos, alterando de forma irreversível a paisagem. Áreas que, há menos de quinze anos, abrigavam a Lagoa da Berreca e os pequenos cursos d’água que nela desaguavam foram aterradas, loteadas e incorporadas ao tecido urbano, sem que se tenha produzido um debate público proporcional à gravidade da transformação.
Situação semelhante se verifica no entorno da Avenida Nóide Cerqueira. Suas antigas estradas vicinais, que conduziam a áreas de cultivo, pastagens e pequenos núcleos rurais, encontram-se hoje sob domínio quase absoluto da especulação imobiliária. O que resiste são pontos isolados, verdadeiros redutos de uma paisagem em vias de extinção, pertencentes em alguns casos a famílias antigas que ainda preservam um modo de vida semi-rural, cada vez mais pressionado pelo avanço da cidade.
O caso de Jaíba, embora emblemático, não é isolado. São José, por exemplo, tornou-se praticamente um prolongamento do subúrbio feirense. Mesmo sem apresentar, até o momento, grande concentração de condomínios de classe média, sua paisagem rural foi profundamente alterada. A substituição de práticas tradicionais por usos urbanos do solo produz efeitos que ultrapassam o plano material e alcançam a esfera simbólica. Desaparecem, junto com a paisagem, formas de sociabilidade, saberes práticos, mitos, festas, narrativas e instrumentos de uma cultura imaterial forjada ao longo de séculos.
Esse processo representa mais do que uma simples mudança de uso do território. Trata-se da erosão de um universo simbólico que conferia sentido à experiência histórica de amplos segmentos da população. Em médio prazo, corre-se o risco de perder não apenas referências espaciais, mas também modos específicos de perceber, interpretar e habitar o mundo.
Desde seus primórdios, Feira de Santana integrou-se à chamada civilização do couro. Situada estrategicamente em rotas de circulação do gado, a cidade formou-se a partir de uma base eminentemente rural. O primeiro colono português a estabelecer moradia fixa nas terras que hoje compõem o município, João Batista Teixeira Viegas, no século XVII, dedicava-se à pecuária. Associados às origens da cidade estão o gado, as fazendas, os caminhos de boiadas, a paisagem aberta e todo o complexo simbólico que deles deriva.
Ignorar esse dado histórico significa romper com a própria identidade de Feira de Santana. A expansão urbana não é, em si, um problema; o problema é quando ela se faz à custa da supressão da memória, da homogeneização do espaço e da conversão do território em mercadoria desprovida de história. Preservar o rural, nesse sentido, não é um gesto nostálgico, mas um ato de responsabilidade histórica e cultural diante das gerações futuras.
Ao permitir que a expansão urbana apague esses vestígios, a cidade pratica uma forma de autossabotagem histórica. Não se trata de defender um rural idealizado ou de rejeitar o crescimento urbano, mas de denunciar um modelo de desenvolvimento que confunde progresso com destruição e modernização com esquecimento. Uma cidade que elimina suas raízes, em nome do lucro imediato, compromete não apenas sua memória, mas também sua capacidade de projetar um futuro que não seja mera repetição de desigualdades e vazios simbólicos.
Resta
perguntar:
Que cidade Feira de Santana pretende ser?
Uma cidade que cresce
eliminando sua história?
Que chama de progresso aquilo que
apaga suas origens?
Que aceita trocar memória por muro,
paisagem por condomínio e identidade por valorização imobiliária?
Ou uma cidade capaz de reconhecer que, sem passado preservado, todo futuro é apenas uma expansão sem sentido?