O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU), com sede em Genebra, na Suíça, divulgou, nesta sexta-feira (31), uma nota oficial expressando “profunda preocupação” com a operação policial mais letal já registrada no Brasil.
A incursão das polícias Civil (PCRJ)
e Militar (PMRJ) nas comunidades do Complexo do Alemão e do Complexo da Penha, na
Zona Norte do Rio de Janeiro, na última terça-feira (28), deixou 121 mortos, sendo
quatro agentes de Segurança Pública e 117 civis.
Na manifestação, especialistas do organismo internacional
pedem que as autoridades brasileiras realizem uma investigação independente e célere,
com o objetivo de ‘’garantir responsabilização pelos fatos, interromper
violações de direitos humanos e assegurar proteção a testemunhas, familiares
das vítimas e defensores de direitos humanos’’.
A ONU manifestou, ainda, no documento, preocupação com retaliações
e tentativas de intimidação. “Estamos particularmente preocupados com as
represálias contra as famílias e testemunhas. As autoridades devem garantir sua
vida, segurança e integridade pessoal, e impedir qualquer forma de intimidação,
assédio ou criminalização”.
Além disso, a entidade lembrou que “é responsabilidade das
autoridades preservar o local para posterior exame forense” e destacou que a Operação Contenção “atingiu comunidades
habitadas, majoritariamente, por pessoas negras e de baixa renda’’.
Os relatores da ONU afirmam ter recebido denúncias de que
corpos foram encontrados com as mãos amarradas e com marcas de tiros na nuca.
Também há relatos de decapitações, invasões domiciliares sem mandado judicial,
prisões arbitrárias e uso de helicópteros e drones
para efetuar disparos. “A escala da violência, a natureza dos assassinatos
relatados e as consequências para as comunidades pobres afrodescendentes que
vivem em áreas periféricas urbanas expõem um padrão profundamente arraigado de
policiamento racializado”, diz a nota.
No comunicado, os especialistas elencam, ainda, uma série de
medidas urgentes que o Brasil deve adotar, dentre elas:
- Suspender operações com uso desproporcional da força, evitando
novas mortes de civis;
- Garantir proteção a testemunhas, familiares e defensores de
direitos humanos contra retaliações e processos arbitrários;
- Preservar provas e a cadeia de custódia em casos de
homicídio;
- Realizar investigações periciais independentes, conforme
padrões internacionais;
- Cumprir normas globais sobre o uso da força e punir
adequadamente casos de abuso policial.
Em seu comunicado, a ONU adverte, também, que episódios de
violência policial no Brasil já haviam sido motivo de alerta por parte de
organismos internacionais de direitos humanos. “Este trágico acontecimento
ressalta a necessidade urgente de o Brasil rever suas políticas de segurança,
que continuam a perpetuar um modelo de violência policial brutal e racializada.
As autoridades brasileiras devem romper com o legado de impunidade que
caracterizou eventos semelhantes no passado”, alerta.
Em relatório divulgado em 2024, o mesmo grupo de especialistas
destacou que a política de Segurança Pública brasileira se baseia em repressão,
violência e “hipermasculinidade”, apontando que mais de 6 mil pessoas morrem,
anualmente, em ações policiais, a maioria
delas negra e moradora de periferias. “Essas
mortes, muitas vezes em operações que visam ‘criminosos’, são generalizadas e
sistemáticas, funcionando como uma forma de limpeza social contra grupos
marginalizados”, ressaltam os relatores.
As preocupações dos especialistas foram formalmente
encaminhadas ao Governo do Brasil por meio de uma carta. O documento que tem
caráter público e solicita informações sobre as medidas adotadas para garantir
responsabilização, reparação e justiça às vítimas e seus familiares.
*Com informações da Agência
Brasil.