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Política

Esquema de espionagem ilegal da Abin no governo Bolsonaro monitorou quase 1,8 mil celulares, aponta PF

19 de Junho de 2025 | 17h 02
Esquema de espionagem ilegal da Abin no governo Bolsonaro monitorou quase 1,8 mil celulares, aponta PF
Foto: José Cruz/Agência Brasil

Investigações da Polícia Federal revelam que um esquema de espionagem ilegal operado dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), monitorou cerca de 1.800 telefones entre fevereiro de 2019 e abril de 2021. O caso ficou conhecido como “Abin Paralela”.

Segundo reportagem do InfoMoney, a apuração da PF indica que Bolsonaro atuava como “centro decisório” do esquema, sendo responsável por definir os alvos da vigilância clandestina. A defesa do ex-presidente ainda não se pronunciou sobre o assunto.

De acordo com o relatório da Polícia Federal, 34 credenciais do software israelense First Mile foram utilizadas para rastrear 1.796 terminais telefônicos, resultando em 60.734 acessos ilegais. O programa explorava falhas em redes 2G e 3G para identificar a localização dos celulares monitorados.

O jornal O Estado de S. Paulo teve acesso ao documento de 1.125 páginas, que teve o sigilo retirado nesta quarta-feira (18) pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A apuração aponta que o sistema foi usado principalmente para espionar opositores da gestão Bolsonaro. Entre os alvos estavam jornalistas, políticos, integrantes do Judiciário, servidores públicos e até aliados. O período de maior atividade ocorreu em outubro de 2020, durante as eleições municipais.

A Polícia Federal classificou os alvos em oito grupos: geral, servidores do TSE e institutos de pesquisa, Poder Judiciário, Poder Legislativo, Ministério Público, servidores públicos, núcleo político e alvos não identificados.

Entre os nomes monitorados estão os ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. O advogado Rafael Fontelles, sobrinho de Barroso, também foi espionado. Segundo a PF, o objetivo era encontrar elementos comprometedores relacionados a um processo bilionário envolvendo o banco Itaú. A ação tramitava no STF, sob relatoria do ministro Luiz Fux, e não de Barroso.

Senadores que integraram a CPI da Pandemia, como Renan Calheiros (MDB), Omar Aziz (PSD) e Randolfe Rodrigues (REDE, à época), também foram monitorados. As investigações incluíram assessores parlamentares e buscavam associá-los a casos de corrupção, como os ligados à Transpetro. Além disso, eles foram alvo de campanhas de desinformação e ataques coordenados nas redes sociais.

Outros parlamentares citados no relatório são Gustavo Gayer (PL), Kim Kataguiri (DEM, à época), Evair Vieira de Melo (PP), João Campos (PSB, hoje prefeito do Recife), Alessandro Vieira (MDB) e o advogado Walfrido Warde. O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), e sua esposa, Analine Castro, também foram investigados sob ordens de levantamento de “todos os podres” do casal.

A espionagem não se limitou a rastreamento eletrônico. O então presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM, à época), e a deputada Joice Hasselmann (PSDB, à época) foram seguidos por agentes da PF durante um jantar. A operação, segundo a PF, foi autorizada por Alexandre Ramagem, então diretor da Abin.

Jornalistas também estiveram na mira da “Abin Paralela”. Reinaldo Azevedo foi monitorado, especialmente por suas reportagens sobre o próprio esquema. Ele foi alvo de campanhas difamatórias e perfis falsos nas redes. Vera Magalhães e Luiza Bandeira passaram por situações semelhantes. Esta última foi incluída após publicar estudos críticos ao governo e teve até sua mãe, a professora Nilza Gonzaga Alves, monitorada com uso de ferramentas de geolocalização. Um agente identificado como “Frank” chegou a ordenar que Luiza fosse “futucada” e “explodida”.

As investigações continuam, e o relatório completo da PF reforça o uso indevido da estrutura de inteligência do Estado brasileiro para fins políticos e pessoais durante a gestão Bolsonaro.



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