O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) garantiu, neste
sábado (10), que nenhum aposentado ou pensionista restará prejudicado pelos
descontos não autorizados de mensalidades associativas na folha de pagamento do
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O chefe de Estado também salientou que o Governo Federal não
quer fazer do caso “um show de pirotecnia”, e sim apurar as circunstâncias da
fraude, “com muita seriedade”, a fim de identificar todos os culpados.
Lula assegurou que a Controladoria-Geral
da União (CGU) e a Polícia Federal (PF) investigaram, profundamente, as
circunstâncias dos descontos indevidos. “Você poderia ter feito uma pirotecnia
e não ter apurado. Como a gente quer
apurar com muita seriedade, tanto a CGU como a Polícia Federal foram a fundo na
exploração, para chegar no coração da quadrilha. Se tivesse feito um
carnaval, há um ano atrás, possivelmente, teria parado no carnaval, como
acontece em todas as denúncias”, avaliou o presidente, quando questionado sobre
críticas acerca da demora nas investigações.
A discrição, enfatizou o chefe do Executivo Nacional, foi
crucial para o desmonte da organização criminosa que, segundo ele, se formou, a
partir do governo Bolsonaro (PL), para lesar os beneficiários do INSS. “A CGU e
a nossa Polícia Federal, num processo de investigação com muita inteligência,
sem nenhum alarde, conseguiram desmontar uma quadrilha que estava montada desde
2019, nesse país. Tem entidades sérias no meio, que, certamente, não cometeram
nenhum crime e tem entidades que foram criadas para cometer crime”, observou,
reforçando que o esquema estava ativo desde o primeiro ano de governo da antiga
gestão.
Segundo Lula, os recursos pertencem
aos aposentados e pensionistas. Em função disso, ele garante que o Governo Federal
atuará de modo a repatriar o dinheiro, devolvendo-o a quem de direito. “Devolver ou não vai depender de
você constatar a quantidade de pessoas que foi enganada, a quantidade de
pessoas que teve o seu nome numa lista sem que ele tivesse assinado. Porque
aqueles que assinaram, autorizaram”, explicou, referindo-se aos descontos ilegais
das mensalidades.
O governante classificou o golpe como “um assalto” aos
beneficiários. “O que eu acho mais grave não foi dinheiro dos cofres públicos.
Esse dinheiro estava no bolso do aposentado quando alguém pediu para descontar
do salário dele. Então, o crime foi um assalto aos aposentados e pensionistas
deste país. Eles não foram no cofre do INSS, eles foram no bolso do povo”,
recriminou.
O presidente deu as declarações à imprensa desde Moscou,
capital da Rússia, país onde esteve, em visita de Estado cumprida no contexto
das celebrações dos 80 anos da vitória
da União Soviética sobre a Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial.
Após falar com os jornalistas, Lula embarcou para Pequim, na
China, onde participa da cúpula entre o gigante asiático e países da Comunidade
de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), nos dias 12 e 13 de maio,
além de fazer uma visita de Estado.
Ressarcimento – Nesta quinta-feira (8), Gilberto
Waller Júnior, presidente do INSS, anunciou que os aposentados e pensionistas
vítimas de descontos não autorizados de mensalidades associativas serão ressarcidos pelos prejuízos sofridos,
a partir de março de 2020 até março de 2025.
Conforme o gestor, na
próxima terça-feira (13), o órgão começará a notificar cerca de 9 milhões de
beneficiários da Previdência Social, de cujos benefícios foram deduzidas as
mensalidades de filiação a associações, sindicatos e outras entidades sociais.
Ele informou que a notificação será feita por meio do aplicativo
Meu INSS e, alternativamente, pela Central de Atendimento telefônico da
autarquia, cujo número é 135. Caso a pessoa
comunique ao INSS que não autorizou os descontos, o instituto notificará
a entidade para a qual repassou toda a quantia cobrada junto ao benefício
previdenciário.
A associação terá 15 dias úteis para comprovar que o
aposentado ou pensionista se filiou e autorizou o desconto em folha. Se não conseguir
comprovar, terá que devolver os recursos para que o INSS faça o ressarcimento
ao cidadão.
Entenda o caso – A cobrança em folha da mensalidade
associativa é permitida desde 1991, quando entrou em vigor a Lei dos Benefícios
da Previdência Social. Ela é feita com base em Acordos de Cooperação Técnica
(ACTs) que o INSS assina com as entidades para as quais, posteriormente,
repassa o valor deduzido das aposentadorias e pensões.
Contudo, indícios de ilegalidades levaram
a PF e a CGU a deflagrar, no último dia 23, uma megaoperação
para aprofundar as investigações sobre um esquema nacional de descontos não
autorizados. Dois relatórios divulgados, nos últimos dias, pela CGU,
demonstram que o caso já vinha sendo apurado também no âmbito administrativo,
pelo menos, desde o primeiro semestre de 2024.
A Operação Sem Desconto
resultou, de imediato, na exoneração de Alessandro Stefanutto, então presidente
do INSS, que foi substituído por Waller. Quatro dirigentes da autarquia e um
policial federal lotado em São Paulo também foram cautelarmente afastados de
suas funções. Poucos dias depois, o pedetista Carlos Lupi deixou o comando do Ministério da Previdência Social (MPS),
ao qual o INSS está subordinado.
Após a deflagração da ação policial, o INSS suspendeu os acordos de cooperação com todas
as associações, sindicatos e entidades e, consequentemente, os descontos
automáticos de milhões de beneficiários.
Além disso, a AGU criou um grupo
especial, com a finalidade de propor medidas judiciais e administrativas para tentar recuperar o
prejuízo, ressarcir os beneficiários do INSS prejudicados e propor novas
medidas contra fraudes.
Por decisão judicial, mais de R$ 1 bilhão em bens
patrimoniais dos investigados já estão bloqueados. Isto para, eventualmente,
reparar parte dos danos.
Na última quinta-feira (8), a AGU pediu à Justiça Federal que bloqueie R$ 2,56 bilhões em bens, em
poder de 12 entidades associativas. No dia seguinte (9), o órgão pediu
mais um bloqueio de seis empresas e oito pessoas investigadas, no valor de R$
R$ 23,8 milhões.
DESDE 2016 – Dados do INSS e da CGU apontam
para o “súbito aumento no montante dos descontos de mensalidades associativas
realizados na folha de pagamento dos beneficiários do INSS” a partir de 2016, durante o governo de Michel Temer
(PMDB), portanto. No período, os abatimentos associativos somaram R$ 413
milhões.
Em 2017, o montante subiu para R$ 460 milhões. Já em 2018,
foram descontados R$ 617 milhões. Em 2019, R$ 604 milhões. Em 2020, em meio à
pandemia da covid-19, o valor caiu para R$ 510 milhões. Em 2021, o total voltou
a subir, atingindo R$ 536 milhões. Em 2022, foram R$ 706 milhões. Em 2023, R$
1,2 bilhão. E, no ano passado, R$ 2,8 bilhões.
As reclamações ao INSS cresceram quase que no mesmo ritmo dos
descontos. Só entre janeiro de 2023 e maio de 2024, o órgão recebeu mais de
1,163 milhão de pedidos de cancelamento de cobranças. A maior parte deles com a
justificativa de que não tinha sido autorizada pelos beneficiários ou seus
representantes legais.
*Com informações da Agência
Brasil.