“Ao querido Walter
Fontoura, na esperança de que a leitura resgate lembranças da adolescência no
interior do Brasil. Rio, agosto 86”.
A
dedicatória está no exemplar de “Setembro na Feira”, livro lançado pelo
jornalista baiano Juarez Bahia. A obra é ambientada na Feira de Santana e a
personagem principal – arguto e atento observador – provavelmente é o próprio
Juarez Bahia menino, que aqui viveu parte da infância e da adolescência.
Adulto, construiu exitosa carreira jornalística em Santos e, depois, em São
Paulo e no Rio de Janeiro.
Mas
quem foi Walter Fontoura? Uma pesquisa na Internet indica que foi jornalista
renomado no eixo Rio-São Paulo. É considerado um dos expoentes do Jornal do
Brasil, em cuja redação trabalhou durante décadas. Morreu em São Paulo, em
2017. Deduzo que, na redação do JB, conviveu com o baiano de Cachoeira Juarez
Bahia. Deduzo, também, que era o dono do exemplar.
Folheei
o volume com dedicatória num sebo no centro de São Paulo. Lembro da tarde
abrasadora de verão, do calor que entorpecia. No corredor estreito, entre as
prateleiras, revi de relance a Feira de Santana da década de 1940, a
Queimadinha, as verdes colinas circundando a cidade, o centro de cidade
acanhado, o Alto do Cruzeiro ali nas imediações do Sobradinho.
Caminhos
improváveis me conduziram ao exemplar. Revejo-me pela Rua da Palma naquele
remoto agosto de 1986, franzino, sem saber quem seriam Juarez Bahia ou Walter
Fontoura, sem sequer imaginar que, no futuro, passaria boa parte da vida em
redações. Naquele tempo, a existência era pouco mais que o Sobradinho.
Hoje
imagino o lançamento do livro nalguma prestigiosa livraria carioca, notas nos
jornais enaltecendo as virtudes literárias do renomado jornalista Juarez Bahia.
Na fila, Walter Fontoura cumprimentando o autor, recolhendo a dedicatória no
exemplar que, décadas depois, descansa numa prateleira próxima à Queimadinha, a
mesma que inspirou o romance.
O
fascínio de freqüentar sebos reside justamente aí. Quem compra, muitas vezes,
leva mais que o exemplar, mergulha na própria história dos leitores anteriores.
Não é à toa que a atmosfera dos sebos é diferente, há solenidade e mistério, o
grito imaginário e pretérito dos que manusearam as publicações à mostra. Circular pelos corredores dos sebos é
sentir o “cheiro dos livros desesperados”, como Caetano Veloso compôs e Maria
Bethânia cantou.
Onde andei naquele agosto
de 1986? Imagino que, nalguma manhã ensolarada, visitei a antiga Biblioteca
Infantil ali na Praça da Matriz. Ia fazer lições escolares, mas também
mergulhar na atmosfera mágica dos livros. O exemplar de “Setembro na Feira”,
com dedicatória, me fez resgatar essas lembranças...