Salvador,
manhã de sábado, sol vigoroso, algumas nuvens e mar tranquilo. Foi então que,
no rádio, toca “Que tal um samba?”, de Chico Buarque. “Será música antiga, que
nunca ouvi?”. Não: a canção é recente, de 2022, descobri depois. Ouvindo-a pela
primeira vez, percebi que traduzia com perfeição o quadriênio nefasto que o
Brasil atravessou nos últimos tempos.
Depois
daquela descoberta, vira e mexe ouço-a novamente. Como traduz o Brasil doente
que emergiu com a ascensão da extrema-direita ao poder: “Então que tal puxar um
samba/Puxar um samba legal/Puxar um samba porreta/Depois de tanta
mutreta/Depois de tanta cascata/Depois de tanta derrota/Depois de tanta
demência”.
Não
para por aí, porém. Há esperança, há perspectiva de futuro, de dias melhores: “De
novo com a coluna ereta que tal?/Juntar os cacos, ir à luta/Manter o rumo e a
cadência/Esconjurar a ignorância, que tal?”. Erguer-se dos escombros, no entanto,
vem exigindo muito esforço, conforme previam os mais lúcidos. Mesmo que as
ameaças ainda não foram totalmente debeladas.
Mas
por quê a lembrança na noite de sexta-feira em que há mais ânimo e mais gente
pela cidade, mesmo com a trovoada que se insinuou? É que, nos últimos dias, o
noticiário exibe a exumação do golpe fracassado que a extrema-direita tentou.
Jair Bolsonaro, o “mito”, estava enfronhado na intentona, conforme sinalizam as
investigações. Está longe de ser surpreendente.
Quem
digere, horrorizado, os detalhes da investigação, sente-se por um instante de
volta ao pesadelo que durou quatro anos, mas que foi perversamente infinito. A
vulgaridade, a truculência, a selvageria, a ignorância, o autoritarismo, o
cinismo, a desfaçatez, a mentira, tudo brota feito um bueiro que transborda, caudaloso.
Por enquanto, respira-se.
A
disposição golpista, porém, não arrefece. O “mito” convoca seus acólitos para fazerem
número na Avenida Paulista, lá em São Paulo. Com o espetáculo grotesco pretendem
intimidar o Judiciário, acuar os sensatos que repelem uma ridícula e
extemporânea ditadura de lunáticos de extrema-direita. Novamente se verá o
triste espetáculo dos dementes, dos alucinados, dos aloprados e dos facinorosos
em êxtase com o “mito”.
Mas é noite de sexta-feira.
Melhor respirar, preparar-se para o final de semana, para as alegrias miúdas do
cotidiano que ainda não foram ceifadas. Há vida, pelo menos até a próxima
intentona golpista. Então, “Que tal um samba?”