Sempre tive disposição crepuscular. Não é que as alvoradas
não me encantassem. Mas é que, costumeiramente, pouco me permiti vivê-las. Essa
coisa de acordar antes do alvorecer – contrariando uma arraigada disposição da
alma – sempre causou certa ojeriza, uma antipatia invencível. Mas eis que, numa
dessas madrugadas insones, coloco-me de pé às quatro da manhã e, de supetão,
puxo a cortina que encobre a janela.
Pois lá estava ela. A lua. Redonda, com seus ricos detalhes
de porcelana, misteriosa, límpida, sedutora. O ocaso ia se aproximando com o
fim da madrugada. Mas o astro ainda despejava uma luz alva que atravessava a
janela e se refletia na parede oposta. O quarto, então, ganhou uns tons
leitosos.
O mais magnífico, no entanto, era o silêncio que a lua
impunha. Na verdade, nem era ela e sim as convenções sociais, as conveniências,
o horário de repouso, porque nem todo mundo pode ser boêmio. Mas, de alguma
maneira, é a lua que chancela essa quietude. Admirava-a, portanto, sisudo,
quase intimidado.
Até aquele momento tudo era escuridão. A cidade era um manto
de luzes espichando-se, mas, mais à frente, esmorecia, findava. No céu, mesmo
com as estrelas brilhando nítidas, era impossível tanger o breu, dissipá-lo.
Afinal, não havia ainda nenhum vestígio da barra do dia.
Mas – coisa espantosa! – alguns pássaros já pressentiam o
alvorecer. Cantavam a partir do negrume das copas das árvores catingueiras.
Entre os pios, destacavam-se os trinados magistrais dos sabiás. Como reconforta
ouvi-los novamente, já prenunciando o verão! Vá lá que a estação é tórrida, mas
como são intensas suas cores! E como os sabiás emprestam vida!
O êxtase só arrefeceu com as primeiras luzes da manhã. Belas,
mas elas trouxeram os primeiros roncos dos motoristas, a estridência das
primeiras buzinas e, também, os primeiros pedestres. Alguns eram trabalhadores,
apressados; outros, atletas aproveitando o começo da manhã.
Nas emissoras de rádio, os crimes do final de semana e os
incontáveis problemas urbanos decretavam que, de fato, o momento mágico expirou
e que é hora de mergulhar na rotina...