O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António
Guterres, alertou, nesta segunda-feira (6), que a Faixa de Gaza está “se tornando
um cemitério de crianças”. E reafirmou que a proteção de civis “deve ser fundamental”
no conflito entre Israel e militantes do Hamas, grupo extremista islâmico que
controla o enclave palestino.
A fala de Guterres é uma crítica aberta à postura inflexível
do Estado de Israel, que se nega a conceder um cessar-fogo, para a entrada de
ajuda humanitária e retirada de civis do epicentro do conflito. “Precisamos
agir agora e encontrar uma saída para este beco de destruição brutal, horrível
e agonizante”, disse.
No território palestino, o número de mortos não para de subir.
Sob bombardeio incessante desde o dia 7 de outubro, logo após o ataque do Hamas
a Israel, que vitimou fatalmente 1.405 pessoas, entre nacionais e estrangeiros,
a Faixa de Gaza já contabiliza mais de 11 mil mortos. Destes, quase cinco mil
são crianças e mais de 2,6 mil são mulheres, segundo o Ministério da Saúde local
e diversos organismos internacionais de ajuda humanitária.
Além disso, quase duas mil pessoas encontram-se sob os
escombros. Mais da metade delas é menor de idade. “O pesadelo em Gaza é mais do
que uma crise humanitária. É uma crise da humanidade”, repudiou o chefe da ONU,
durante coletiva de imprensa, em Nova Iorque.
António Guterres salientou que a necessidade de um
cessar-fogo está se tornando “mais urgente a cada hora que passa”. Ele lembrou,
ainda, que as partes no conflito e a comunidade internacional “enfrentam uma
responsabilidade imediata e fundamental: pôr fim a este sofrimento coletivo
desumano e expandir dramaticamente a ajuda humanitária a Gaza”.
CATÁSTROFE HUMANITÁRIA –
Segundo a CNN Brasil,
desde o início do conflito, organizações de ajuda global e grupos de direitos
humanos alertaram que a contraofensiva israelense seria catastrófica para Gaza.
O enclave, que já vivia isolado do mundo há quase 17 anos, privado de livre circulação
de bens e sem concessão do direito de ir e vir aos seus moradores, em função do
implacável bloqueio imposto por Israel e pelo Egito, está, agora, agora em
situação de grave crise humanitária.
Os 2,3 milhões de habitantes, que já vivenciavam a extrema
pobreza, a fome e quase total dependência de ajuda internacional, enfrentam,
desde o dia 8 de outubro, um cerco total. Estão sem água, comida, remédios,
energia elétrica e combustíveis, além de Israel já ter cortado totalmente a
comunicação dos palestinos que lá vivem com o resto do mundo, recentemente, em
duas ocasiões, quando intensificaram os bombardeios.
Os hospitais do enclave que ainda não foram alvejados pelas
Forças de Defesa de Israel (FDI) estão na iminência de um colapso total. Médicos
alertam que pacientes feridos gravemente, muitos deles bebês, podem falecer,
caso as Unidades de Terapia Intensiva deixem de funcionar, por falta de energia
e combustível.
Operações de alta complexidade já vêm sendo realizadas sem
anestesia e sedativos, por falta de insumos médicos, conforme a Cruz Vermelha,
o Médicos sem Fronteiras, o Crescente
Vermelho Palestino e outras entidades de ajuda humanitária que atuam
na Faixa de Gaza.
A devastação dos ataques de Israel está se tornando cada vez
mais aparente. Conforme a CNN, não há informações de quantos combatentes do
Hamas estão incluídos no total de mortos. De qualquer forma, a absoluta maioria
é composta por civis.
Abrigos
lotados e insalubres – Além disso, cerca de 1,5 milhão de residentes estão,
agora, deslocados. Isto equivale a 70% da população. A maior parte está vivendo
em abrigos superlotados, de acordo com Tamara Alrifai, porta-voz da Agência de
Assistência e Obras da ONU para Refugiados da Palestina no Oriente Próximo
(UNRWA).
A UNRWA, diz a CNN, descreveu as condições nos seus abrigos
como “desumanas”, por causa da falta de água potável e de saneamento. No Centro
de Treinamento de Khan Younis, onde 22 mil pessoas buscaram abrigo, pelo menos
600 indivíduos compartilham um único banheiro, informou a entidade.
Também foram detectados milhares de casos de infecções de
pele, diarreia, catapora e outras doenças. As doenças são transmitidas quando pessoas
que vivem em ambientes desconfortavelmente próximos, afirmou a UNRWA, ressaltando
que os corpos em decomposição sob os destroços também oferecem risco à saúde
dos sobreviventes.
Metade da população precisou ser evacuada do Norte da Faixa
de Gaza para o Sul, por determinação de Israel. Mas isto não os deixou seguros,
porque bombardeios estão sendo registrados em toda a extensão do território,
que é menor do que a cidade de Curitiba, em termos de comparação.
CRIMES DE GUERRA – Os implacáveis ataques aéreos
israelenses também deixaram milhares de pessoas desabrigas. Inúmeros edifícios residenciais
foram completamente arrasados, além de escolas, universidades, templos
religiosos e hospitais. Ataques a estas chamadas zonas neutras são proibidas
pelas legislações que regem os conflitos bélicos. Em função disso, a ONU e outras
entidades governamentais acusam Israel de cometer crimes de guerra e genocídio.
CRIANÇAS GRAVEMENTE
FERIDAS – Segundo a
CNN, Emily Callahan, enfermeira americana que conseguiu deixar Gaza na semana
passada, disse ter visto ferimentos horríveis em Khan Younis e em outros
abrigos. “Havia crianças com queimaduras graves no rosto, no pescoço e em todos
os membros, e como os hospitais estão tão sobrecarregados, elas receberam alta
imediatamente depois”, denunciou.
O Conselho de Segurança da ONU ainda não conseguiu chegar a
consenso sobre um projeto de resolução para pôr fim ao conflito. E Israel segue
irredutível, com o apoio irrestrito dos Estados Unidos. O vice-embaixador dos
EUA na ONU, Robert Wood, declarou que “Israel fará o que sente”.