A Câmara dos Deputados aprovou, em primeiro turno, o
texto-base da Reforma Tributária. Foram 382 votos a favor e 118 contra. Três
parlamentares se abstiveram. A sessão durou mais de dez horas.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) reformula a
tributação sobre o consumo. Segundo a Agência Brasil, a aprovação em segundo
turno ocorreu de madrugada, aproximadamente, a 1h40. Foram 375 votos a favor e
113 contrários.
A discussão da medida começou por volta das 11h da manhã de
ontem (6). A votação foi iniciada às 18h. O PL, partido do ex-presidente Jair
Bolsonaro, tentou adiar a votação, mas teve requerimento derrotado por 357
votos a 133. Os debates seguiram enquanto os deputados votavam.
Já eram quase 22h quando a PEC foi aprovada em primeiro turno.
Conforme a Agência Brasil, o número de votos a favor, além da própria
aprovação, provocaram efusivas comemorações entre a base governista. O
presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), também foi celebrado. Antes de sair
o resultado, ele subiu ao púlpito para fazer uma defesa veemente da reforma.
O relator da proposta, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), decidiu
fazer mudanças de última hora, com o objetivo de ampliar a base de apoio. O
texto traz algumas alterações em relação à proposta apresentada há duas semanas, como maiores reduções de
alíquotas, isenção para alguns produtos da cesta básica e mudanças no Conselho
Federativo, órgão que decidirá as políticas fiscal e tributária.
Alterações
– A última versão do
parecer foi apresentada após quase duas horas de discussões e de ameaças de
adiamento da votação. Em relação à cesta básica, diz a Agência Brasil, o novo
parecer zera a alíquota do futuro Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) para
itens a serem incluídos em lei complementar, além de frutas, produtos
hortícolas e ovos. A normativa criará a “cesta básica nacional de alimentos”.
Com a mudança, as resistências à PEC, por parte de alguns
estados, diminuíram. Antes, os governos de alguns entes federativos não eram
favoráveis a abrir mão da arrecadação. Os gestores alegavam que não estimularia
uma nova guerra fiscal em torno de produtos alimentícios, já que a lista valerá
para todo o território nacional.
Aguinaldo Ribeiro também aumentou, de 50% para 60%, o redutor
de alíquotas do IVA que incidirão sobre alguns produtos e setores com
tratamento diferenciado. Transporte público, saúde, educação, cultura e
produtos agropecuários fora da cesta básica nacional pagarão 60% a menos de
IVA, imposto que unirá a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), arrecadada
pela União, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de responsabilidade dos
estados e dos municípios.
Conforme a Agência Brasil, além dos produtos da cesta básica
nacional, a CBS não será cobrada sobre medicamentos para doenças graves e sobre
serviços de educação superior (Prouni). Os demais produtos pagarão a alíquota
cheia de IVA, que será definida após a Reforma Tributária.
Regimes
especiais – O
relator manteve regimes específicos de arrecadação para combustíveis, operações
com bens imóveis, planos de assistência à saúde, serviços financeiros e
apostas. Mas incluiu outros setores, como: serviços de hotelaria, parques de
diversão e parques temáticos, restaurantes e aviação regional. Estes preveem
tratamento diferenciado nas regras de creditamento (aproveitamento de créditos
tributários) e na base de cálculo; e tributação com base na receita ou no
faturamento (em vez do valor adicionado na cadeia).
Conselho
Federativo – De acordo com o que foi adiantado, na última quarta-feira
(5), pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o Conselho Federativo,
encarregado de gerir o IBS, terá o
modelo de votação alterado. A entidade será formada por 27
representantes, um de cada unidade da Federação, mais 27 representantes dos
municípios. Segundo a Agência Brasil, dos representantes municipais, 14 serão
eleitos por maioria de votos igualitários entre os entes e 13 com base no
tamanho da população.
As decisões do Conselho Federativo só serão aprovadas se as
mesmas obtiverem, ao mesmo tempo, votos da maioria numérica dos estados e dos
representantes que correspondam a mais de 60% da população do país. Os votos
dos municípios serão apurados com base na maioria absoluta.
O Distrito Federal terá duas cadeiras no órgão, sendo uma de
unidade da Federação e outra de município.
Imposto
seletivo – Ainda
conforme a Agência Brasil, a versão final do relatório modificou o Imposto
Seletivo, que será cobrado sobre bens e serviços prejudiciais à saúde e ao meio
ambiente, como cigarros, bebidas alcoólicas e bebidas e alimentos com excesso
de açúcar. Esse imposto não poderá ser cobrado sobre itens que paguem IVA
reduzido.
A medida impede que o Imposto Seletivo incida sobre itens da
agropecuária prejudiciais ao meio ambiente, a exemplo de agrotóxicos e
defensivos agrícolas. A mudança foi colocada, pela Frente Parlamentar do
Agronegócio, como condição para aprovar a Reforma Tributária.
Coube ao PSOL apresentar destaque para derrubar a mudança. O
governo, no entanto, argumentou que discutirá, em uma lei complementar, o
detalhamento dos insumos agrícolas. Teoricamente, isso permitiria a cobrança do
Imposto Seletivo sobre agrotóxicos e defensivos.
Fundo
regional – O Fundo
Nacional de Desenvolvimento Regional foi mantido em R$ 40 bilhões. O
instrumento foi criado com o intuito de estimular o desenvolvimento de estados
que não poderão mais recorrer à guerra fiscal (reduções de impostos locais)
para atraírem investimentos.
Conforme a Agência Brasil, diversos estados pediam aportes
maiores, de R$ 75 bilhões. A nova versão do relatório, entretanto, não trouxe
os critérios para a divisão dos recursos do fundo entre os estados. O tema será
definido após a Reforma Tributária.
Para conseguir o apoio da bancada do Amazonas, Aguinaldo
Ribeiro ajustou os artigos relativos à Zona Franca de Manaus e às Zonas de
Processamento de Exportação (ZPE), o que tornou mais claro o tratamento
diferenciado e a vantagem das empresas instaladas nessas áreas.
Cashback
e heranças – O
parecer final também informou que o cashback (devolução parcial de impostos)
terá como base a redução de desigualdade de renda, ao invés da diminuição da
desigualdade de raça e de gênero. A mudança atende reinvindicações de
parlamentares conservadores, que ameaçaram não votar a favor PEC caso a
expressão não fosse retirada.
O cashback institui a possibilidade de devolução ampla de
parte do IBS e da CBS a pessoas físicas. No início, a ideia do Grupo de Trabalho
(GT) da Câmara dos Deputados que discutiu a Reforma era incluir na PEC um
mecanismo de devolução a famílias de baixa renda. Algo parecido com o que já
existe em alguns estados. As condições de ressarcimento, segundo a Agência
Brasil, serão definidas por meio de lei complementar.
Já no que se refere às heranças, o novo relatório isentou do Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) as transmissões para entidades sem fins lucrativos com finalidade de relevância pública e social, inclusive as organizações assistenciais e beneficentes de entidades religiosas e institutos científicos e tecnológicos. Uma lei complementar definirá as condições para as isenções. A progressividade (alíquotas mais altas para heranças maiores) foi mantida.