O Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Sul
(MPT-RS) decidiu investigar o vereador Sandro Fantinel (Patriota) por declarações
xenófobas contra trabalhadores baianos encontrados em situação análoga à
escravidão, em vinícolas situadas no município gaúcho de Bento Gonçalves, e,
também, por apologia ao trabalho escravo.
No último dia 28 de fevereiro, o parlamentar, em discurso proferido
na tribuna da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, disse que empresários do
setor de uva e vinho não deveriam contratar mais “aquela gente lá de cima”, em
referência aos cidadãos da Bahia resgatados na região.
Sandro Fantinel também defendeu a contratação de trabalhadores
argentinos, sob o injurioso argumento de que, ao contrário dos baianos, seriam
limpos, corretos, cumpridores de horário, mantenedores da higiene das residências
e ainda agradecidos aos patrões “pelo serviço prestado e pelo dinheiro que
receberam”.
Dando seguimento ao rol de ofensas xenófobas, o vereador disse,
ainda, que “a única” cultura que os baianos têm “é viver na praia tocando
tambor” e que, em função disso, seria normal ocorrer “esse tipo de problema”,
referindo-se às acusações de prática trabalhista análoga à escravidão.
De acordo com a Agência Brasil, na opinião de Italvar Medina,
procurador do Trabalho e vice-coordenador nacional de erradicação do Trabalho
Escravo do MPT, a fala de Sandro Fantinel “minimiza, indevidamente, a extrema
gravidade da escravidão contemporânea, busca culpabilizar as próprias vítimas
pelos ilícitos sofridos, tem conteúdo preconceituoso e, para piorar, estimula a
discriminação nas relações de trabalho, em ofensa à Constituição da República,
à legislação e a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil”.
ENTENDA O CASO – Uma ação conjunta entre a Polícia Rodoviária Federal (PRF),
a Polícia Federal (PF) e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) resultou, na
noite do dia 22 de fevereiro, no resgate de 207 trabalhadores que enfrentavam
condições de trabalho degradantes durante a colheita da uva, em Bento
Gonçalves, na Serra Gaúcha.
A retirada dos trabalhadores da situação análoga à escravidão
ocorreu depois que três trabalhadores fugiram do local e informaram sobre as
condições de degradação humana nas quais eram mantidos à PRF de Caxias do Sul.
Os homens disseram que foram atraídos pela promessa de
salário de R$ 3 mil, mas acabaram enfrentando atrasos nos pagamentos dos
salários, violência física, longas jornadas de trabalho e oferta de alimentos
estragados. Além disso, relataram que, ao chegar o início do mês, foram
coagidos a permanecer no local, sob pena de pagamento de multa por quebra do
contrato de trabalho.
Durante a ação, a Polícia Federal (PF) prendeu um empresário baiano responsável pela firma que contratava os trabalhadores. Por meio de nota, as vinícolas implicadas afirmaram desconhecer as irregularidades praticadas contra os trabalhadores recrutados pela terceirizada Oliveira & Santana, prestadora de serviços.