O Senado Federal aprovou em dois turnos, nesta quarta-feira
(7), o texto base da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Transição. O texto
da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) foi mantido, mesmo com a pressão
exercida pela oposição para reduzir o impacto e o prazo de duração.
De acordo com a agência de notícias Folhapress, o placar foi
de 64 votos a 16. Para aprovar a PEC eram necessários 49 votos. Agora, a
matéria vai para apreciação da Câmara dos Deputados.
A medida amplia o teto de gastos em R$ 145 bilhões, em 2023 e
2024. A finalidade é o pagamento do Auxílio Brasil, que, segundo o presidente
eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), voltará a se chamar Bolsa Família. A
PEC também vai liberar outros R$ 23 bilhões para investimentos fora do teto, em
caso de arrecadação de receitas extraordinárias.
A PEC da Transição é a principal aposta de Lula para o
cumprimento de sua principal promessa de campanha: a manutenção do benefício de
R$ 600 e do adicional de R$ 150 por criança até seis anos. Sem a medida, o
valor reservado para o programa é suficiente apenas para o pagamento de R$ 405
por família.
Segundo a Folhapress, com o espaço de R$ 105 bilhões aberto
no Orçamento de 2023, o presidente eleito também espera recompor os programas Farmácia
Popular e Minha Casa, Minha Vida, além de reajustar o salário mínimo acima da
inflação. A distribuição do montante, todavia, não será definida apenas pelo
governo Lula, como previa a proposta inicial, mas também pelo Congresso
Nacional.
Alexandre Silveira (PSD-MG), relator do texto, salientou que
o mercado financeiro reagiu bem à proposta que saiu da CCJ. O parlamentar reforçou,
ainda, o compromisso do governo eleito com o envio de um novo arcabouço fiscal,
o que deverá ser feito até agosto de 2023, e de uma reforma tributária. "Nós
tivemos uma tranquilidade, nessas 24 horas, porque o Brasil entendeu a
necessidade da ampliação desses recursos como o mínimo necessário pelo futuro
governo para atender as pessoas que mais precisam, neste país", disse.
As legendas Podemos, PP e PL, conforme a Folhapress, tentaram
reduzir o prazo da PEC para um ano. A proposta, porém, acabou derrotada.
"Na verdade, o que nós estamos autorizando, hoje, passa de R$ 208 bilhões.
Nós estamos autorizando não R$ 145 bilhões, estamos autorizando R$ 208
bilhões", ressaltou o líder do Podemos, Oriovisto Guimarães.
PIS/Pasep – O texto
aprovado pelo Senado permite, também, que recursos parados nas contas do
PIS/Pasep há, no mínimo, 20 anos sejam apropriados pelo Tesouro Nacional. A
ideia é que sejam usados para bancar investimentos fora da regra fiscal que
limita o crescimento das despesas.
No mês de agosto, a Caixa Econômica Federal (CEF) disse que
há R$ 24,6 bilhões em cotas do PIS/Pasep. A medida que acaba de passar pelo
Senado prevê gasto extra de R$ 168 bilhões. Somando-se as cotas e outras
emendas incluídas, a proposta pode liberar mais de R$ 200 bilhões para o
governo Lula.
O aviso de apropriação dos recursos do PIS/Pasep deverá ser incluída
no Diário Oficial da União (DOU). Se o "eventual interessado
legítimo" não reivindicar o dinheiro em um prazo de 60 dias após a
publicação no DOU, as contas serão encerradas. No entanto, será possível pedir
o ressarcimento à União, em até cinco anos do encerramento das contas.
O dispositivo que inclui o PIS/Pasep, diz a Folhapress, não integrava
o relatório inicial de Alexandre Silveira. Ele foi incluído por sugestão do
senador Fernando Bezerra (MDB-PE), ex-líder do governo de Jair Bolsonaro (PL)
no Senado Federal.
Ao jornal Folha de S.Paulo, Bezerra destacou que, do ponto de
vista fiscal, a mudança é "neutra". "Primeiro, haverá criação de
receita e, depois, a realização de despesas de investimento que ficam
excepcionalizadas do teto. Do ponto de vista fiscal, ela é neutra. A reação do
mercado foi muito boa em relação à PEC", observou, referindo-se à reação
dos investidores no dia de ontem (7).
O relator, em consonância com líderes do Congresso e com o PT,
deixou uma brecha para que a PEC possa, também, abrir espaço no Orçamento de
2022. Conforme a Folhapress, no trecho que permite investimentos adicionais
quando houver receitas extraordinárias, até o limite de R$ 23 bilhões, a trava
de que essa medida valeria apenas a partir de 2023 foi retirada.
Em função disso, há margem para que o governo Bolsonaro
libere emendas parlamentares bloqueadas por causa do aperto fiscal. A
articulação para usar a PEC de Lula para destravar as emendas de aliados de Jair
Bolsonaro (PL) foi revelada em, novembro pelo jornal Folha de S.Paulo.
Alexandre Silveira nega ter participado da negociação de
emendas. Ele afirma que a antecipação foi incluída para que o atual governo consiga
fechar as contas. Isto porque o Ministério da Economia teme o risco real de que
falte dinheiro até mesmo para o pagamento das aposentadorias. "Se nós não
estivéssemos aprovando, hoje, nesta mesma PEC, a possibilidade de o atual
governo aproveitar R$ 20 bilhões para fechar o seu ano fiscal, esse governo
teria um rombo fiscal, no seu limite, de R$ 16,8 bilhões", destacou.
O parlamentar explicou que "nos números apurados e bem
apurados pela transição, precisamos, para ter a mesma execução orçamentária de
2022, de R$ 140 bilhões para o ano que vem". Segundo ele, "para
cumprir com os brasileiros e brasileiras que precisam do Auxílio Brasil".
Além disso, a PEC da Transição tira do teto de gastos
despesas das instituições federais de ensino custeadas por receitas próprias,
de doações ou de convênios celebrados com demais entes da Federação ou
entidades privadas.
De acordo com a Folha, a última versão do relatório
apresentado por Alexandre Silveira ainda amplia a medida para todas as
instituições de pesquisa e para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
O texto anterior mencionava apenas a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Doações
feitas a fundos de meio ambiente também ficam de fora do teto de gastos.
PONTOS DO RELATÓRIO:
- Eleva o teto de gastos em R$ 145 bi, para bancar o Bolsa
Família;
- Tem brecha para liberar emendas de relator em 2022;
- Permite o uso de R$ 23,9 bilhões para investimentos fora do
teto;
- Expande em R$ 145 bi o teto de gastos em 2023 e 2024, a fim
de acomodar despesas sociais (valor é fixo, não sendo reajustado pelo IPCA, a
cada ano);
- O Congresso terá liberdade para alocar o espaço aberto no
teto;
- Altera o indexador do montante total de precatórios a serem
pagos. Este valor, atualmente, é corrigido pela correção do teto. Para evitar
que o aumento do teto seja parcialmente consumido pelo pagamento de mais
precatórios, alterou-se o indexador do limite de precatórios para o IPCA. Vai
continuar a bola de neve de precatórios não pagos;
- A Desvinculação de Receitas da União (DRU), que permite ao
governo usar, livremente, 20% dos tributos federais vinculados, por lei, a
fundos ou despesas, foi prorrogada até o final de 2024. Nesse caso, há pouco
efeito prático, pois muitas receitas vinculadas, como as da educação, estão
fora do mecanismo, além de não mais haver superávit no Orçamento da seguridade
social que era usado para cobrir o déficit no orçamento fiscal;
- Prevê que o Executivo irá enviar uma nova proposta de regra fiscal até 31 de agosto de 2023. Quando aprovada essa nova regra (por projeto de lei complementar), será revogado da Constituição o teto atual. A aprovação de um projeto de lei complementar é mais fácil (precisa de menos votos) que uma PEC (proposta de emenda à Constituição).