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Saúde

Bebês super prematuros salvos no Hospital da Mulher

Juliana Vital - 07 de Julho de 2015 | 08h 36

Bebês com cinco meses de gestação conseguiram sobreviver

Bebês super prematuros salvos no Hospital da Mulher
A mãe Scheyla se admira ao pegar nos braços a ainda pequena Ana Vitória, nascida com pouco mais de meio quilo

Quando descobriu que estava grávida, Scheyla da Silva Ferreira, 34 anos, já tinha quase cinco meses de gestação. A surpresa de receber uma segunda filha veio após 14 anos do nascimento da primogênita.

Sem saber da sua condição, Scheyla ficou sem realizar o pré natal por quatro meses. Na sua primeira consulta recebeu o diagnóstico de pressão alta. Ela foi para o Hospital da Mulher apenas para receber uma medicação, mas foi internada imediatamente, com complicações na gravidez. "Eu cheguei aqui para ser medicada, quando fui avaliada pelos médicos, que constataram que a minha pressão estava tão alta que a placenta parou de trabalhar. O bebê já estava em sofrimento e foi preciso realizar a cesária", relembra.

Ana Vitória nasceu no dia 8 de abril deste ano, com 5 meses, e pesando apenas 586 gramas, considerada uma “super prematura” pela medicina, com pouquíssimas chances de sobreviver. Foi o menor bebê a nascer e sobreviver, em Feira de Santana. "No centro cirúrgico eu me lembro da médica me dizer que ela precisava chorar quando nascesse, pois ela só sobreviveria se chorasse e foi o que aconteceu. Quando ela nasceu deu logo um berro, chorou bastante e foi uma alegria enorme pra mim", comenta a mãe emocionada.

Ao nascer ela foi transferida para a UTI neonatal onde ficou por 77 dias. Saiu pesando 1,320 quilo. Nem deu tempo da mãe produzir leite. Por isso, Ana Vitória está recebendo alimentação através de uma sonda, com leite materno doado pelo banco de leite do hospital.

Hoje ela está com a mãe no projeto "Mãe canguru", no próprio hospital, recebendo o acompanhamento dos pediatras até que alcance peso suficiente para alta, que é de 1,9 quilo. Depois da alta ela vai retornar, para ser acompanhada por estes profissionais até um ano de vida. "Eu agradeço primeiro a Deus por este milagre, mas em segundo lugar ao hospital da mulher, pois não sei o que teria sido sem eles. Aqui tudo foi feito para que minha filha sobrevivesse e hoje eu posso comemorar esta vitória".

A vitória que fez inclusive com que o nome do bebê fosse mudado. A mãe tinha encomendado os bordados da filha, que se chamaria Ana Julia. Mas ao nascer recebeu o nome de Ana Vitória. "Eu liguei correndo para a moça do bordado e perguntei se ainda daria tempo de mudar. Por sorte ela só tinha começado a bordar o Ana, então eu pedi para incluir o Vitória. Ela é uma verdadeira vitória. Foi um susto grande mas todos os dias na UTI eu ficava feliz por vencer cada dia. Eu via a evolução dela. O que superou tudo foi o carinho o amor e a dedicação da equipe", afirma.

SITUAÇÃO FREQUENTE

Casos de super prematuros com êxito tem sido uma constância no hospital e para a presidente da fundação hospitalar que o administra, Gilberte Lucas, é reflexo do investimento em equipamento, estrutura, capacitação e dedicação dos profissionais. "Ainda este ano tivemos outro caso de uma bebê que nasceu com 800 gramas e sobreviveu graças ao esforço da nossa equipe, que é multidisciplinar e atende a todas as necessidades, tanto da criança como da família. São quase 250 profissionais em todo o hospital. A participação da mãe também é relevante, pois o contato delas com os bebês faz muita diferença", afirma.

O hospital dispõe de todo o equipamento necessário para estes casos difíceis. Não faltam medicamentos e a própria estabilidade da equipe colabora para o sucesso. Há 9 anos o grupo é quase o mesmo. "Não há rotatividade, nossa equipe já é consolidada. O hospital faz todos os esforços para não faltar nada”, assegura Gilbert.

O Hospital da Mulher atualmente tem oito leitos de Uti neonatal, sete leitos de berçários de médio risco e atende além de Feira, mais 82 municípios. É mantido com 76% de recursos da prefeitura de Feira de Santana.

 

Até um grito pode matar bebê prematuro demais

Para o médico pediatra e neonatologista do Hospital da Mulher, Marcus Vinicius Pinto da Silva, 38 anos, há 11 atuando na área, este é um caso raro.  A maior possibilidade de sobrevivência está associada a idade gestacional. Para quem nasce cedo demais, as chances são menores, não há maturação pulmonar e renal. Nas primeiras 24 horas de nascido, é possível estabilizar com medicamentos, mas depois há uma demanda para qual o corpo do bebê não está preparado. 

"Há muitas complicações para um prematuro, ainda mais tão pequeno como ela. Quanto menos manipulá-los melhor. São extremamente sensíveis e têm uma série de complicações, tanto pulmonar como renal. Podem também fazer hemorragia intracraniana, com coisas simples. Por exemplo, com um grito eles podem fazer uma hemorragia. Em pacientes de UTI a gente manipula demais, faz exames todos os dias e isso aumenta as chances de acontecer intercorrência. Isso favorece infecções, são pacientes bem delicados e bem complicados", detalha.

Ainda de acordo com o médico, Ana Julia superou algumas infecções, foi entubada e exturbada algumas vezes. "Ela é uma guerreira mesmo, queria estar aqui com a gente e se Deus quiser vai pra casa", comemora.

Para o especialista, a harmonia no grupo contribui para este trabalho ter sucesso. A baixa mortalidade é muito associada também à capacitação desta equipe que há alguns anos se especializa em prematuros, já que o índice de atendimento do hospital para estes casos é alto. São cerca de 45 a 50 prematuros por ano, com apenas 2% de óbito.

"O treinamento de todo o pessoal, a capacitação trouxe uma melhora, pois há uma população recebida pelo hospital que é complicada, pois não faz pré natal. Uma quantidade grande de mães adolescentes e cidades vizinhas que mandam pacientes sem pré natal, o que acaba gerando uma quantidade de partos prematuros grande também", avalia.

O médico acredita que há muitas coisas que precisam ser melhoradas, pois a estrutura necessita ser aumentada para atender uma demanda que é muito alta. "Há muitos problemas ainda. Tem muita coisa que pode melhorar. A gente vive o tempo todo em embates com as estrutura que nos é ofertada já que temos um volume muito grande de pacientes. Muitos bebês chegam a ficar internados nos centros obstétricos, muitas vezes a população não entende quando a gente suspende o atendimento, mas isso é para garantir a qualidade e evitar mortalidade dos bebês. Inegavelmente de um tempo pra cá, nos foi ofertada uma constância maior na estrutura para atender esta demanda, e temos obtido muitos sucessos como este de Ana Vitória", afirma Marcus.

Ele destaca que a dedicação da equipe compensa qualquer dificuldade da estrutura e que é uma grande alegria fazer este trabalho. "Acho que isso é que vale a pena, vale qualquer noite perdida, ver casos bem sucedidos como ela. É uma experiência gratificante".



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