Dificuldades financeiras têm sido uma constante na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). E essa tem sido a maior reclamação da comunidade acadêmica. O contingenciamento imposto pelo Governo do Estado às universidades estaduais vem sendo apontado como responsável pela crise. Setores da instituição reclamam, inclusive, que não há diálogo com o governador Rui Costa.
Rogério Lima, representante discente do Colegiado do Curso de Filosofia, acredita que o principal problema enfrentado pela Uefs, nos últimos anos, é mesmo o arrocho orçamentário imposto pelo Estado, que aderiu a uma política de austeridade, com sucessivos cortes na Educação. “Além do contingenciamento, o Governo vem atacando direitos dos professores, o que reflete na qualidade acadêmica. Recentemente, de forma antidemocrática, o Estado impôs redução de carga horária, impossibilitando que muitos docentes se dediquem à Pesquisa e à Extensão. Isso é uma verdadeira afronta ao tripé em que gira a universidade”, critica.
Outro problema, ainda segundo o estudante, é o risco que corre a autonomia universitária, condição conquistada, duramente, pelas gerações passadas. De acordo com Rogério, perdê-la implica em um grande desgaste democrático interno. “Isso pode levar a um novo período de autoritarismo na Uefs”, alerta.
Para ele, o problema mais urgente a ser resolvido é a garantia das verbas orçamentárias, sem contingenciamentos, e o retorno dos recursos necessários aos investimentos. Além disso, destaca a necessidade de fortalecer a democracia, na universidade, melhorando o diálogo com os estudantes, categoria que tem o maior número de indivíduos, na comunidade acadêmica.
“É urgente que a direção da entidade priorize a defesa da educação superior pública; a garantia da autonomia universitária frente ao Governo e aos interesses privados; o fortalecimento do orçamento participativo; a luta pelo aumento dos recursos, pois é imprescindível que a Uefs volte a crescer sem restrições orçamentárias; e a efetivação da política de inclusão”, ressalta.
Questionado se alguma chapa contempla os seus anseios, Rogério Lima disse que acredita que a Mais Uefs é mais apta a dar seguimento ao processo de fortalecimento da democracia no âmbito universitário. “Ela é a única capaz de continuar o processo iniciado em 2007, que tem como pilares o respeito à democracia interna, a defesa da autonomia, a garantia de uma educação pública de qualidade e socialmente referenciada e a transparência das atividades e das contas”, justifica.
Na opinião dele, a partir do reitorado do professor José Carlos Barreto de Santana, a Uefs deu um importante salto na inclusão das camadas mais pobres. “Isso pode ser observado nos números referentes às matrículas por meio das cotas; nas políticas de permanência estudantil; na qualidade do Ensino, da Pesquisa e da Extensão; na democracia interna; e no aumento de cursos, com uma visão não necessariamente voltada ao mercado, mas tendo como referência um projeto de universidade socialmente referenciada”, observa.
Para o representante discente, quem vive a Uefs diariamente sabe das dificuldades impostadas pelo Governo do Estado. “É por isso que acreditar em propostas simplistas, no período eleitoral, não é um bom caminho. Seria cair num mito. Estive construindo o movimento estudantil, nos últimos anos, e lutamos para que a Uefs recebesse o dinheiro necessário para garantir o mínimo. Agora, esperar que, com a mudança da reitoria, todos os problemas sejam resolvidos é de uma ingenuidade sem tamanho. Rui Costa já mostrou que não gosta muito do diálogo com as universidades, se as reivindicações forem contra o que ele defende como austeridade”, dispara.
Rogério Lima enfatiza que a autonomia universitária também precisa ser defendida frente aos interesses privados. “A Uefs não pode estar a serviço do lucro de alguns em detrimento de sua missão enquanto universidade pública, plural, de qualidade e onde a liberdade de pensamento se faz presente. Somente através de um processo coletivo e democrático é possível garantir que a Uefs cumpra o seu papel em Feira de Santana e região”, pondera.
MUITOS PROBLEMAS – Alessandra de Assis, estudante do curso de Letras Vernáculas, lamenta a quantidade de problemas enfrentados na instituição, cotidianamente. “O que eu posso falar é o que vejo no dia a dia: há problemas nas salas de aula e nos laboratórios; faltam alguns materiais; o campus é inseguro durante a noite; o bandejão não comporta todo mundo; há muitos problemas com as terceirizadas, sobretudo com a empresa que administra o portal Sagres; e deve haver problemas mais profundos, que desconheço”, enumera.
A estudante disse ainda que é urgente que o Restaurante Universitário e a Residência Universitária sejam olhados com mais cuidado. “Mas a prioridade deve ser dada aos cursos que estão sem professores ou suporte, como nas clínicas odontológicas. Sem dúvida, a primazia da universidade deve ser o aluno e o professor. Sem isso, não tem como ser uma boa instituição”, destaca.
Alessandra de Assis acredita que a adesão ao Sisu prejudicou muito os estudantes locais. “Acredito que foi ruim para a cidade e região. Competir com nós mesmos já era difícil, mas competir com todos complica ainda mais as coisas, porque a Uefs é muito concorrida, já que é a melhor opção da região, apesar dos pesares”, explica, ressaltando que ainda não sabe em qual chapa votará. “Estou acompanhando o andamento da corrida eleitoral pelas redes sociais e tenho buscado participar dos debates realizados na entidade”, frisa.
Fred Abreu, estudante de Filosofia, também destaca que os problemas da universidade são inúmeros. Ele diz que a falta de professores, de segurança, de diálogo com a comunidade estudantil e de verbas para projetos e programas ofertados pela a universidade são os principais. De acordo com o estudante, a reitoria precisa priorizar a contratação de professores. “O departamento de Filosofia, por exemplo, fica sem oferecer certas disciplinas, porque não tem docentes para assumir as vagas”, lamenta, salientando ainda que a segurança no campus também deve ser revista. “Temos apenas segurança patrimonial”, lembra.
Fred Abreu acredita que nenhuma está apta a suprir as necessidades da instituição. “Nenhuma contempla. Nessa eleição, precisamos é de uma grande renovação. Acredito que a comunidade estudantil está cansada desses nomes que estão concorrendo”, reprocha.
SINTEST – O Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Terceiro Grau do Estado da Bahia (Sintest) elencou os principais problemas vivenciados internamente, do ponto de vista da categoria. As demandas de infraestrutura, como a construção do novo restaurante, a ampliação do número de profissionais contratados para atender à creche, a construção do espaço do Centro de Educação Básica (CEB) e a implantação de filtros de carvão ativado nos setores são alguns deles.
Outro déficit, segundo o sindicato, é a ausência de uma política de qualificação e valorização dos servidores, através de um plano anual de capacitação que envolva a oferta da especialização em gestão universitária e programas de qualidade de vida e saúde.
Daiana Alcântara, coordenadora geral do Sintest na Uefs, ressalta ainda que essa pauta é de suma importância para os servidores. “Ela já foi apresentada, há quatro anos, e não obtivemos êxito significativo”, lamenta, salientando que, sobre as chapas de concorrem à eleição para a reitoria, não pode se manifestar, já que a entidade precisa manter a neutralidade e a imparcialidade, uma vez que representa toda uma categoria.
Mas o sindicato tem, segundo ela, uma série de reivindicações e críticas. “Do ponto de vista financeiro, são várias: adicional de insalubridade cortado; poucas vagas para promoção e progressão dos Servidores Técnicos (Auxiliares, Técnicos Universitários e Analistas), sendo que, até o momento, não há sinalização de que ocorrerá esse ano; salários congelados há anos e sem perspectiva de aumento; Plano de Carreira, que, em 2019, completa 10 anos, sem nunca ter sido colocado em prática”, enumera.
De acordo com a sindicalista, itens básicos e indispensáveis também têm faltado nos setores. “A falta de água não é algo bom para quem passa todo o dia trabalhando. O não reconhecimento do desempenho profissional, casos de assédio moral e ambientes insalubres também são problemas graves”, completa.
Daiana Alcântara espera que a nova gestão eleita atue de forma mais presente junto à comunidade acadêmica, a fim de conhecer as reais necessidades e anseios das categorias que formam as bases da universidade. “É imprescindível não ser apenas uma gestão de gabinete, de difícil acesso. É preciso estar presente no cotidiano de todos que aqui depositam parte do seu dia, seja com seu trabalho seja em sala de aula”, afirma.
A coordenadora pede ainda que os candidatos deixem claro quais são os seus planos e projetos para a Uefs, a curto, médio e longo prazos. “É importante saber de que forma eles pretendem atender às demandas e pautas da categoria, bem como de que maneira atuarão junto ao Governo do Estado, na defesa da autonomia universitária e para garantir que os recursos cheguem até a universidade”, observa.
ADUFS – A diretoria da Associação dos Docentes da Uefs (Adufs) também ressaltou que a instituição enfrenta sérias dificuldades. “Mas diríamos que o problema principal consiste na intensa redução orçamentária imposta pelo governo do Estado. No nosso caso, temos também intensos ataques à autonomia universitária, como ocorreu recentemente quando o governo alterou, de forma absolutamente unilateral e sorrateira, parte do Estatuto do Magistério Superior”, afirma a entidade sindical.
Outro aspecto que tem trazido sérios problemas, ainda segundo a diretoria da Adufs, é o constante desrespeito aos direitos trabalhistas e às conquistas das categorias de servidores técnicos e professores, a exemplo do corte do adicional de insalubridade, do atraso nas promoções e progressões, da não aceitação das solicitações de mudança de regime de trabalho e da tentativa de corte do serviço de transporte de Feira a Salvador. “O longo período sem reajuste nos salários; o confisco salarial decorrente do aumento da alíquota da Previdência e da redução no aporte, por parte do governo do Estado; e o corte de recursos destinados ao Planserv foram realizados de forma camuflada, por uma intensa propaganda governamental”, completa.
A Adufs reclama ainda que os servidores vêm sendo massacrados pelo Governo e sua máquina publicitária. “A prioridade da entidade é a luta sindical, em todos os sentidos que abrangem a defesa da universidade pública, autônoma, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada. Neste tópico, a Adufs tem uma longa história de luta e independência política de gestão, governos e partidos políticos”, informa.
De modo geral, a Adufs acredita que as chapas apresentam planos que afirmam a defesa da universidade pública, com visões diferentes. Também trazem, em suas composições, docentes com diversos graus de aproximação/distanciamento com o movimento docente e com as lutas populares. “A diretoria manterá sua posição de defesa intransigente do projeto de universidade defendido pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) e não assume a campanha de nenhuma chapa, garantindo a devida autonomia, para que continuemos todas as lutas que marcam nossa trajetória”, explica a diretoria.
Para a Associação dos Docentes da Uefs, independentemente da chapa eleita, a entidade diz que manterá a disposição para a luta e o desejo de fortalecimento da universidade pública. “Luta esta que se reveste de fundamental importância, tendo em vista todos os ataques que as instituições públicas têm sofrido, nas diversas esferas governamentais”, justifica.
A Adufs salienta que também espera a defesa intransigente da Uefs como patrimônio público do povo baiano. “A continuidade da defesa da autonomia e da democracia interna, na instituição, deve ser um ponto central, do qual não abriremos mão, independentemente de qual seja a chapa eleita, pois esses são princípios fundamentais. A defesa dos direitos dos servidores é outro ponto crucial e sempre estaremos alerta e mobilizados para o seu efetivo cumprimento”, frisa.
Segundo a Adufs, o contingenciamento orçamentário interfere nos projetos de Pesquisa e Extensão, além de trazer prejuízos à produção e difusão do conhecimento. “O corte no Planserv é outra coisa que afeta o servidor, na assistência à saúde dele e de sua família. O longo período sem reajuste, acarretando na perda de mais de 25% de nossos salários, traz prejuízos de diversas ordens. O desrespeito aos direitos trabalhistas impacta os docentes no que se refere à carreira”, conclui.