Em 26 de março deste ano, o jornal "O Globo", do
Rio, publicou uma nota informando que o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, e o
senador Jaques Wagner, teriam selado um acordo, em torno do escândalo do Banco
Master, de Daniel Vorcaro. Um não atacaria o outro. O pacto blindaria a ambos,
mais o ex-governador Rui Costa, já que o trio é mencionado no mesmo caso como
suspeito de receber vantagens financeiras.
O tal acordo está sendo lembrado mais uma vez, nos últimos
dias, depois do mandado de busca e apreensão contra Wagner, suspeito de ter
recebido de propina um apartamento de 2,4 milhões para apoiar no Senado ações
que pudessem auxiliar Vorcaro e seus negócios com o banco.
As especulações acontecem diante da parcimônia de ACM, que
normalmente é agressivo em sua reação a notícias de adversários acusados de
corrupção.
Recentemente, por exemplo, questionado em entrevista à Rádio
Andaiá, de Santo Antônio de Jesus, sobre um "desafio" que lhe fora
feito por Rui Costa, para um debate, Neto reagiu como o enfrentamento de
costume:
"Eu já vou aproveitar para começar este debate agora.
Cadê os 50 milhões que o Governo do Estado colocou para compra de respiradores
e nunca recebeu? Na pandemia ele colocou 50 milhões de reais que
desapareceram".
Sobre o caso Wagner-Master, porém, nada disse em suas redes
sociais e apenas se posicionou de forma protocolar, ao ser questionado pela
imprensa: "Essa é uma questão que cabe ao Judiciário. O que nós esperamos
é que a investigação seja completa, isenta, correta e que, ao fim, se há
responsáveis e culpados, que sejam punidos.
É aguardar para ver os desdobramentos que eventualmente isso
pode ter". Resposta pronta, aparentemente ensaiada e mais apropriada para
a defesa de um aliado. É realmente incomum, especialmente para alguém do seu
perfil, desperdiçar oportunidade como essa, de atacar um adversário político
com flancos escancarados.
A declaração, quase manifesto de solidariedade ao drama do
senador, só se justifica sob a hipótese de que houve, realmente, um acerto
entre eles. Afinal, devemos lembrar, o ex-prefeito, embora não tenha sido alvejado
por uma rajada tão violenta quanto a que atingiu Wagner, está também enrolado
com o Master.
A imprensa divulgou amplamente que documentos entregues pelo
banqueiro Vorcaro à Receita Federal apontam o pagamento de R$ 5,4 milhões a
Neto, por meio de sua empresa de consultoria, entre 2023 e 2025.
A empresa existe, é claro. Mas todos somos tomados de
surpresa. Afinal, alguém se recorda de já ter ouvido notícias de ACM Neto
estar envolvido com negócios de consultoria?
Nesse caso, uma consideração relevante parece ser inevitável.
Acordo desse nível, se for verdadeiro o entendimento entre Wagner e Neto, soa
como muito mais como espécie de confissão, de ambas as partes, do que qualquer
outra coisa.
Seria bem melhor se poupar, na busca da redução de danos em suas campanhas, cada um visando objetivo diferente (diga-se) – eles não são, digamos, concorrentes diretos – do que um implodir ao outro.