A Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) passa por um novo processo eleitoral para os cargos de reitor e vice-reitor. Essa eleição já é considerada como a mais concorrida dos últimos anos. Setores da imprensa feirense acreditam ainda que há o risco de a esquerda perder o poder na instituição.
Três chapas foram homologadas para disputar o pleito. Uma delas, a Mais Uefs, é encabeçada pelo o atual reitor, professor Evandro do Nascimento Silva. Como vice, está à professora Amali de Angelis Mussi, atual pró-reitora de Graduação. Também disputam as eleições os professores Dagoberto Freitas (reitor) e Lílian Carla Wanderley (vice), pela chapa Uefs de Todos, e Koji Nagahama (reitor) e Telma Cristina Teixeira (vice), pela chapa Nova Uefs. A votação será realizada entre os dias 1º e 3 de abril.
Evandro do Nascimento e Amali Mussi afirmam que o objetivo é “continuar a gerir a universidade de forma democrática, transparente, ética e sempre em defesa dos interesses da instituição”. Eles pretendem, ainda, no ensino de graduação, “qualificar os processos de ensino-aprendizagem, melhorar a infraestrutura de espaços de aprendizagem, como salas e laboratórios, e contextualizar o conteúdo curricular à realidade social”.
Na Pesquisa e pós-graduação, a pretensão é “retomar investimentos para apoiar os grupos de pesquisa, laboratórios e programas de pós-graduação, tendo em vista a escassez de recursos imposta pelos cortes de verbas federais e estaduais para essa área”.
Na Extensão, os candidatos querem ampliar, cada vez mais, as relações dos conhecimentos produzidos na universidade com os problemas concretos da sociedade, a fim de fazer desse importante pilar institucional um instrumento de transformação da realidade.
Os candidatos também têm propostas para os servidores da universidade. “Queremos apoiar a melhoria das condições de trabalho e da carreira dos servidores técnico-administrativos. Fomentar a internacionalização do Ensino, da Pesquisa e da Extensão. Readequar as rotinas de processos administrativos, para conferir mais celeridade e eficiência aos mesmos. Queremos, também, fortalecer as políticas afirmativas para acesso à universidade e propiciar as condições de permanência dos estudantes”, afirma Evandro.
TEMPOS DE CRISE – Mas a Uefs passa por uma crise orçamentária, há alguns anos. E essa situação tem causado paralisações constantes, em diversos setores da instituição, tanto estudantis quanto de servidores, docentes e terceirizados. Na quinta-feira, 14 de março, mais uma paralisação foi realizada, dessa vez por parte dos vigilantes, que pertencem ao quadro de terceirizados.
Evandro do Nascimento diz que é necessário articular uma ação conjunta das quatro universidades estaduais baianas (Uefs, Uneb, Uesc e Uesb), a fim de mostrar ao Governo do Estado a importância dessas instituições (da Uefs, em particular) para as próprias políticas públicas do Estado. “São as universidades estaduais que formam a maioria dos professores do Ensino Básico na Bahia. Da mesma forma, atuam na rede de saúde pública, com os cursos de saúde. E são responsáveis por trazer para o Ensino Superior um grande número de estudantes do próprio Ensino Médio, que é responsabilidade do Estado”, destaca.
Para tanto, o candidato afirma que “só com financiamento satisfatório do Estado o caráter público da universidade será plenamente desempenhado, trazendo benefícios para a sociedade”. Ainda segundo Evandro, “outras formas de financiamento, seja do setor privado, do terceiro setor ou por meio de prestação de serviços, têm sido apontadas como um caminho alternativo à crise orçamentária”. No entanto, ele alerta que “isso pode ocorrer, mas sem comprometer a autonomia da universidade”.
À frente da Uefs desde 2015, Evandro do Nascimento enfatiza que, desses anos de dificuldade orçamentária, traz a experiência e o conhecimento das relações institucionais, no âmbito do Governo do Estado. “Isso facilita a interlocução das pautas da universidade, a capacidade de superação de problemas e, ainda, a compreensão de que é possível superar o momento difícil que a entidade vive, trabalhando junto à comunidade acadêmica e convocando-a a exercer o seu protagonismo, em defesa da Uefs”, pondera, ressaltando ainda que “nenhum reitor, sozinho, conseguirá reverter o quadro de dificuldades vivido atualmente”.
Muitos problemas, no entanto, tendem a persistir. Evandro acredita que a negação da autonomia universitária, sobretudo na esfera burocrática do próprio Estado, limita muito a governabilidade interna da universidade, inclusive. “Muitos mecanismos de controle de processos e despesas foram implantados nos anos recentes, deixando a reitoria na dependência da arbitragem de aquisições de bens, serviços e materiais, bem como gestão de pessoal, a partir do crivo de algumas Secretarias de Estado. Somando-se o corte de verbas no repasse do orçamento, a reitoria não consegue fazer a universidade ter todos os resultados desejáveis”, observa, ressalvando que, por isso, mais autonomia e financiamento adequado estão entre as primeiras prioridades.
Se eleito novamente, o docente diz que sua gestão também lutará pela reposição do quadro de pessoal, tanto docente quanto técnico-administrativo e buscará implantar formas de valorização dos servidores. Além disso, ele ressalta que a recuperar a infraestrutura física, reequipar os laboratórios e qualificar ainda mais o Ensino, a Pesquisa, a Extensão e a Internacionalização estão entre os principais objetivos de seu programa de gestão.
Outras necessidades também são urgentes, segundo Evandro: melhoria dos processos e rotinas administrativas; busca de fontes alternativas de financiamento, que não comprometam a autonomia da universidade; estreitamento da relação da universidade com a sociedade e também com o próprio Governo do Estado, através da construção de parcerias, na Pesquisa e na Extensão, em torno de políticas públicas.
Para driblar o estrangulamento orçamentário, que, segundo a administração central da Uefs, vem sendo imposto pelo Governo do Estado, Evandro do Nascimento diz que pretende manter os esforços de articulação das quatro universidades estaduais da Bahia. “Os problemas são exatamente os mesmos para as quatro reitorias”, lembra.
AÇÕES COMO REITOR – À frente da Uefs, Evandro diz ter atuado na criação da Uefs Editora e do Portal de Periódicos Eletrônicos, dinamizando a divulgação da produção científica da instituição. “Trabalhei para a implantação do Sistema de Gestão Sitiens; criação da Ouvidoria da Uefs; da Pró-reitoria de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas; implantação de iluminação em LED, que traz economia de recursos; e instalação da rede de internet Wi-fi no Campus. Meu papel foi liderar o processo e deixo, aqui, o reconhecimento a docentes e servidores técnico-administrativos, que foram, certamente, a parte mais importante dessas e de tantas outras conquistas, ao assumirem, de forma comprometida e coletiva, a construção da Uefs”, frisa.
O candidato à reeleição diz ainda que, durante a gestão, nutriu muitos desejos e sonhos planejados para a instituição, mas que os últimos quatro anos foram muito difíceis para a Uefs. “Vivemos um cenário político nacional com redução de verbas de agências de fomento federais (CAPES, CNPq, FINEP), o que afetou, drasticamente, a Pesquisa e a Pós-graduação. No âmbito estadual, a FAPESB também está sem recursos para a Pesquisa. Está em vigor uma política de austeridade fiscal, que também afeta a Uefs. O que fizemos, no atual mandato, foi conduzir os destinos da universidade, para garantir resistência e resiliência diante desse quadro”, explica Evandro do Nascimento, que comanda a instituição juntamente com a vice-reitora Norma Lúcia Fernandes de Almeida.
NOVA VICE – Na Uefs desde 2010, quando entrou como professora adjunta, Amali Mussi, que, atualmente, é Pró-Reitora de Ensino de Graduação, cargo que está à frente desde 2015, é a nova candidata à vice-reitoria da chapa Mais Uefs. “Corro o risco de não elencar todas as pesquisas das quais já participei, mas vou destacar algumas já realizadas e que, em grande parte, têm a Uefs como protagonista: Pedagogia no ensino superior: trajetória histórica de práticas inovadoras; Expansão do Ensino Superior e Desenvolvimento Profissional Docente; Qualidade do ensino: representações de estudantes sobre a relação entre ensino, pesquisa e desenvolvimento profissional docente”, enumera.
Atualmente, Amali Mussi participa de três projetos de pesquisa, todos com foco no Ensino Superior, especialmente da Uefs: Inovação da Prática Pedagógica de Professores do Ensino Universitário (em finalização); Processos de Ingresso no Ensino Superior: transições, suportes e arranjos entre jovens universitários (em desenvolvimento); e Relação Professor e Estudante na Universidade.
Desde seu ingresso na instituição, Amali tem participado de processos de gestão acadêmica, como a coordenação do Colegiado de Pedagogia – Séries Iniciais; Vice-coordenação do Colegiado de Pedagogia; Coordenação do Colegiado de Pedagogia; Coordenação do projeto Piloto do Curso de Pedagogia – EAD; Assessoria na Pró-Reitoria de Graduação. A docente também contribui em diferentes Fóruns de inserção pedagógica e política no Estado da Bahia, a exemplo do Fórum Estadual de Educação do Estado da Bahia (FEE - BA); do Fórum Estadual Permanente de Apoio à Formação Docente do Estado da Bahia (Forprof - BA).
Durante a carreira acadêmica, ela destaca suas ações de maior destaque: a coordenação da implantação do Fórum das Licenciaturas e do Programa de Formação Acadêmica e Contextualização de Experiências Educacionais (Proface); a instalação do Programa Institucional de Formação de Professores (Proinfor); a implantação do Núcleo de Acessibilidade (NAU); a gestão de ações e normatizações para diminuição da evasão e reprovação; a organização dos cursos em turno; e o fortalecimento das relações com a comunidade, a exemplo da Feira de Graduação.
Amali Mussi também foi responsável pela continuidade do processo de transição do Processo Seletivo (Prosel) para o Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Para tanto, ela diz que realizou vários eventos com as comunidades interna e externa, dando seguimento aos debates e estudos sobre o tema. “Trouxemos professores, pesquisadores e técnicos de outras universidades, para a discussão sobre a temática. Dialogamos com professores do Ensino Médio e estudantes, de modo que toda a comunidade foi acolhida e valorizada, no processo. Não foi uma decisão tomada por alguns, e sim que refletiu a acolhida das expectativas e necessidades institucionais, visando a totalidade de nossa ocupação de vagas”, ressalva.
Segundo a docente, foi o trabalho coletivo que permitiu a criação da Feira de Graduação, a adesão ao Sisu e a aprovação de normas e resoluções, com vistas a dar apoio ao processo de ensino e aprendizagem, garantindo o desenvolvimento de propostas pedagógicas, com aderência ao Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI). “Meu interesse em participar do processo eleitoral que escolherá a nova reitoria está direcionado à valorização do trabalho docente; ao investimento nos processos de aprendizagem dos estudantes; ao desenvolvimento de políticas efetivas que beneficiem os servidores; à criação de condições adequadas para o Ensino, a Pesquisa e a Extensão; ao investimento na excelência acadêmica, na produção e na difusão do conhecimento e ampliação responsável da oferta de cursos de graduação e de pós-graduação”, explana.
EX-REITORES – A professora Anaci Paim, ex-reitora da Uefs, afirma que, atualmente, a maior dificuldade enfrentada pela instituição é a perda da autonomia. “O reitor tem dificuldades na liberação das aposentadorias de professores e funcionários, diferente do período em que fui reitora, quando o ato aposentador era assinado pelo próprio gestor. Outra dificuldade é para contratação temporária de docentes substitutos e visitantes, assim como a alteração do regime de trabalho para tempo integral e de dedicação exclusiva, para docente”, afirma.
Ainda segundo Anaci Paim, a escassez de recursos que a Uefs enfrenta está comprometendo a manutenção dos projetos acadêmicos e, até mesmo, o custeio das ações da universidade, trazendo uma série de problemas. “São muitas as dificuldades: manutenção das instalações físicas; sustentação dos serviços de segurança, limpeza e, até mesmo, do fornecimento de materiais de suporte prático destinados às atividades de apoio experimental aos cursos de Graduação”, lamenta.
A ex-reitora atentou para o fato de que a defesa dos interesses institucionais é de fundamental importância para o desenvolvimento da universidade. “Destaco aspectos importantes da Pesquisa Científica, que tem o suporte dos projetos dos pesquisadores, pelo mérito dos projetos desenvolvidos. A riqueza da produção científica é fundamental para a consolidação da produção intelectualizada, como condição indispensável à manutenção da pós-graduação stricto sensu”, ressalta.
José Carlos Barreto de Santana, também ex-reitor da instituição, é quem está coordenando a campanha da chapa Mais Uefs. Em sua opinião, a universidade atingiu um patamar de qualidade que a coloca como destaque no cenário universitário nacional. Ele ressaltou ainda que todas as universidades públicas brasileiras estão sob ameaça, em todas as suas esferas. “No cenário nacional, os sinais da crise que já vêm de anos e atingem tanto as Universidades Federais quanto as Estaduais. Acentuaram-se, enormemente, no presente momento, inegáveis ameaças à Democracia e à Autonomia e sustentabilidade dessas instituições”, afirma.
Desse cenário de crise, ainda de acordo com José Carlos Barreto, não escapam as Universidades Estaduais da Bahia, que, segundo ele, sofrem, igualmente, todas as consequências de restrições orçamentárias severas, além de ataques diretos às suas autonomias, além de alterações arbitrárias nas suas respectivas legislações, como é o caso, ressalta ele, da recente da alteração das condições de trabalho dos professores em Dedicação Exclusiva, feitas “sem um mínimo de discussão com as instituições ou com as representações da categoria”.
O ex-reitor enfatiza que, ainda que se limite a discutir os problemas da Uefs, a solução dos mesmos não será obtida apenas pela disposição ou desejo da sua comunidade. “Penso que, na medida em que se identificam quais são os principais elementos geradores dos problemas vividos, torna-se relevante ressaltar que o seu enfrentamento consequente não será feito apenas localmente. O entrelaçamento das questões envolve, necessariamente, a Uefs, Uneb, Uesb e Uesc e a perspectiva de mudança, no cenário atual, exige um fortalecimento da luta conjunta”, conclama.