O Centro de Abastecimento de Feira de Santana foi concebido, na década de 1970, pelo então prefeito José Falcão da Silva. Denominado “Projeto Cabana”, o entreposto foi criado para confinar a grande feira livre, que se estendia pelas ruas centrais da cidade, de sábado a segunda-feira, e teve sua primeira fase inaugurada no dia 7 de novembro de 1976. Seguindo a onda modernista que dominava o pensamento da época, Zé Falcão decidiu, por decreto, transferir a feira livre para um novo local, onde seria padronizada, mas sob os protestos de muitos intelectuais, para os quais a extinção da famosa feira livre mataria a identidade cultural da cidade.
Mas o fato é que, de lá para cá, o entreposto nunca sofreu uma intervenção mais incisiva. A primeira delas é a construção do Centro Comercial Popular, iniciada na última gestão do ex-prefeito José Ronaldo de Carvalho. O equipamento, comumente chamado de Shopping Popular, deverá ser inaugurado em breve. A Prefeitura Municipal de Feira de Santana (PMFS), agora sob a gestão do prefeito Colbert Martins Filho, anunciou, no entanto, que pretende fazer novas intervenções no local, a fim de revitalizar toda a área do Centro de Abastecimento.
Segundo Carlos Brito, secretário Municipal de Planejamento, o entreposto sofrerá outras modificações, como, por exemplo, a reforma dos galpões já existentes. “O Mercado do Peixe acabou de ser entregue à população. E logo vamos inaugurar o Centro Popular, um equipamento moderno, que será incorporado a uma estrutura de mais de 40 anos. O Governo também pretende viabilizar um novo local para transferir o setor de atacado, porque o atual Centro não comporta mais essa atividade. Estamos buscando alternativas para realizar esses projetos”, afirmou.
Carlos Brito destacou ainda que é necessário realizar uma nova rede de esgoto, no local. “Precisamos buscar ações que objetivem dar uma melhor condição de trabalho às pessoas, a fim de que os consumidores se sintam mais confortáveis na hora de comprar os produtos ali comercializados”, enfatizou.
De acordo com o secretário, o Centro de Abastecimento está passando por um processo de modernização, que será posto em prática gradativamente. Questionado sobre qual seria o custo dessa revitalização, Brito afirmou que, nesse momento, não é possível saber, porque ainda não existe um projeto. “Não há um projeto ainda. Há manifestações de interesse em realizar as obras, que serão avaliadas e implementadas paulatinamente. O que o Governo Municipal tem é a convicção de que o entreposto não pode continuar na condição em que se encontra”, ponderou.
Conforme Carlos Brito, não há prazos para o início nem para a finalização das obras de revitalização. O secretário destacou que os permissionários que trabalham com atacado também têm vontade de sair da região, mas, segundo ele, é preciso criar os mecanismos para executar tanto a transferência deles para um novo entreposto quanto a modernização do atual Centro, onde deverão ficar apenas os varejistas. “Primeiro, estamos trabalhando a modelagem para o setor de atacado. Com atividades econômicas, há que se ter cuidado, dando aos comerciantes a condição de se prepararem para ir para outro local. Precisamos ter muitas conversas, ainda”, alegou.
Questionado sobre o comércio informal que está estabelecido no centro da cidade, Brito informou que os vendedores que têm barracas irão para o Shopping Popular. Disse, entretanto, que ainda é necessário buscar alternativas para os ambulantes. “Vamos requalificar o centro de Feira de Santana. Mas como faremos isso deixando a rua cheia de vendedores de hortifrutigranjeiros? Eles terão que ser realocados para o Centro de Abastecimento ou precisaremos buscar outra solução, como uma feira itinerante. só que organizada. Os estudos é que definirão esses projetos”, enfatizou.
Reginaldo dos Santos, presidente do Sindicato Intermunicipal dos Trabalhadores Autônomos de Feiras Livres, Barracas, Boxes, Artesãos e Movimentação de Mercadorias de Feira de Santana (Sindifeiras), falou que a categoria vem dialogando com o poder público municipal. “O Centro está sendo murado. E comenta-se que haverá novas intervenções, como o remodelamento de vários outros galpões”, observou.
O sindicalista, entretanto, continua reclamando que os comerciantes seguem sem voz. “É uma negociação central. As entidades não participam das decisões”, criticou, salientando ainda que somente se acontecer uma restauração que contemple a todos, dando igualdade, segurança e qualidade de vida a quem trabalha no local, as mudanças serão benéficas. “O que queremos é que todo esse processo seja aberto, compartilhado com todos. Não podemos ficar no escuro. Precisamos opinar sobre o que será bom ou não”, reivindicou.
SHOPPING POPULAR – O novo equipamento erguido nas dependências do Centro de Abastecimento tem por objetivo ordenar o centro da cidade e dar novo fôlego ao entreposto. A Prefeitura Municipal informou que cerca de 1.800 vendedores ambulantes, que trabalham nas ruas Marechal Deodoro, Sales Barbosa, Conselheiro Franco, Visconde do Rio Branco e na Avenida Senhor dos Passos e adjacências, foram cadastrados com biometria. Também tiveram suas barracas fotografadas, com o intuito de dar a eles, no novo empreendimento, espaços adequados às atividades comerciais que exercem.
O secretário Carlos Brito ressaltou que o Shopping Popular está com 80% de sua obra construída. Ele disse que a estimativa é de que esteja pronto até o final do ano. “Quem está cadastrado biometricamente terá a sua vaga garantida. Tudo está sendo feito dentro da mais absoluta regularidade e transparência”, assegurou.
Ligado às causas dos vendedores ambulantes de Feira de Santana, o vereador Luiz da Feira, do Partido Pátria Livre (PPL), lembrou que a Prefeitura Municipal realizou o cadastro dos camelôs e ambulantes há quase dois anos. Em função disso, para ele, esse recenseamento está defasado. “Nesse período, certamente, mais pessoas devem ter ocupado as ruas do centro comercial, em busca de uma alternativa de sobrevivência, principalmente em virtude da grave crise econômica, social e moral que o nosso país atravessa. Hoje, o número de vendedores deve ser bem maior. Tenho sido procurado por vários ambulantes que não passaram pelo cadastro”, advertiu, ressalvando ainda que apenas os camelôs filiados ao sindicato da categoria entraram na contagem.
O edil também frisou que, em junho, durante uma reunião promovida pela Associação Feirense dos Vendedores Ambulantes (Afeva), que contou com a presença do prefeito Colbert Martins, solicitou mais atenção para com os camelôs. Isto porque, segundo ele, o Município não estaria dando informações esclarecedoras sobre o Shopping Popular. “Nesse encontro, pedi informações sobre valores, tempo de carência, lojas âncoras a serem instaladas no futuro empreendimento, além de solicitar o cadastramento por ruas e setores e de buscar saber quem, de fato, terá direito aos boxes”, afirmou.
Luiz da Feira disse que também cobrou a garantia de que os estrangeiros não teriam espaço no Shopping Popular. “Já se passaram quatro meses e nenhum dos questionamentos foi esclarecido. Como representante dos camelôs na Câmara Municipal e ciente da insatisfação de cada um deles, digo que a condução desse projeto deve ser feita com transparência. Também reafirmo que não tenho preconceito em relação às pessoas de outras nacionalidades, mas não vou aceitar que esse equipamento seja explorado por estrangeiros, sejam eles coreanos, chineses, japoneses, americanos. Represento os camelôs feirenses. Estou na Câmara para levantar a bandeira do meu povo”, argumentou.
VALORES REAIS – Reginaldo dos Santos também afirmou que, apesar de o Governo conversar com a categoria, através do secretário de Trabalho, Turismo e Desenvolvimento Econômico, Antônio Carlos Borges Júnior, também acha que não há total clareza. “Em alguns pontos, essa negociação não é transparente. Os comerciantes não aceitam o modelo que está sendo posto, porque não sabem exatamente o que vão pagar. Está documentado que o metro quadrado é R$ 80,00, mas não se sabe, por exemplo, quanto se vai pagar de taxa de condomínio, segurança, limpeza e divulgação. Esse valor poderá ser absurdo e não teremos condições de pagar”, especulou.
Para o sindicalista, as taxas precisam ser revistas. Ele pede que o preço do metro quadrado seja mais baixo e que a Administração Municipal dê uma isenção, de pelo menos dois anos, aos feirantes, a fim de que possam se manter e renegociar as tarifas. “Não se pode manter os valores engessados, como se fôssemos obrigados a aceitar o que está sendo imposto. A Prefeitura não se abre para conversar com os feirantes mais carentes, a fim de saber o valor que eles podem pagar. Tem discussão, mas não tem negociação”, recriminou.
O presidente do Sindifeiras disse ainda que, durante as reuniões, o que se comenta é que se eles não quiserem o espaço, outros, com certeza, assumirão. “Tem gente de olho naquilo que é nosso, mas que podemos perder, por não conseguirmos pagar o valor que estão impondo”, disparou.
Questionado sobre quem seriam essas pessoas, Reginaldo dos Santos falou que seriam estrangeiros. “Comenta-se que há comerciantes de fora da cidade querendo vir para cá, como os coreanos. Vejam o exemplo do Feiraguai, que era nosso e que, hoje, pertence a uma maioria de fora. Como presidente do sindicato da categoria, digo que não permitiremos que aquilo que é nosso seja passado para terceiros. Queremos negociações e queremos participar delas”, reivindicou.
O dirigente da entidade que representa os feirantes também ressaltou que nem todos puderam ser cadastrados. Ele destacou que muitos trabalhadores terão que ir para outras feiras livres, por falta de espaço no novo empreendimento, já que o Shopping Popular, segundo ele, teria apenas 2.110 boxes. “Essa quantidade não contempla a todos. Disseram que vão revitalizar as feiras, para que eles sejam colocados nelas”, arrematou.
MAIS COBRANÇAS DA CÂMARA – Na tribuna da Câmara Municipal de Feira de Santana, muitos vereadores também têm feito diversas cobranças ao Governo Municipal, por meio de seus discursos. Alguns de forma mais incisiva.
O vereador Roberto Tourinho, do Partido Verde (PV), por exemplo, lamentou que nem todos os governantes deram a atenção devida ao entreposto comercial. “Em determinados momentos, ele foi relegado, sendo chamado, inclusive, de ‘Centro de Aborrecimento’. Alguns governantes buscaram melhorar o local, mas, atualmente, ele vem perdendo a sua essência, principalmente por causa dos atacadistas. Lembro que o Centro de Abastecimento é para abrigar os pequenos comerciantes. Mas, sem espaço, por causa da concorrência desigual, eles acabam indo para o meio das ruas, que deve ser dos motoristas, e para as calçadas, que devem ser dos pedestres. Quem conhece a Índia tem a impressão de que está lá, ao passar pelo centro de Feira de Santana”, comparou.
Roberto Tourinho comemorou o anúncio das mudanças. “Estive com o prefeito Colbert Martins, visitando o Centro de Abastecimento, e ele assumiu o compromisso de realizar inúmeras obras, para melhorar a situação do entreposto. De imediato, autorizou cercar o local. Não tinha cabimento aquele equipamento aberto, dando espaço para a entrada de marginais. Só esse ano, ocorreram nove homicídios nas dependências do Centro”, observou, considerando o momento positivo para o desenvolvimento do comércio no local.
O vereador oposicionista José Menezes Santa Rosa, mais conhecido como Zé Filé, do Partido Republicano da Ordem Social (Pros), também discursou sobre o assunto. Ele lamentou a participação de empresários chineses no projeto de construção do Shopping Popular.
O edil ainda criticou o atraso nas obras e afirmou que 300 boxes foram postos à venda, pela Prefeitura. “Feira de Santana é uma terra sem lei; uma mãe para os grandes empresários. Fizeram um empréstimo de R$ 20 milhões para construir o Shopping Popular e nada foi resolvido. Colocaram à venda 300 boxes. Para onde vai esse dinheiro? O shopping vai ser construído com dinheiro público e o dinheiro das vendas dos pontos vai para o bolso de quem? Os vereadores, que deveriam estar vigiando e garantindo o bem-estar do povo, se calaram e estão coniventes com o erro. Nossos bens estão sendo negociados e ninguém se manifesta. Estão comercializando o espaço público. Eu não vou me calar diante de tamanha atrocidade. Devemos ser leais ao povo que nos colocou aqui”, questionou.