O tempo não para e nós passamos. Logo, a cada dia, novos fatos, novos eventos; alguns são esquecidos pela falta de importância, ou porque merecem mesmo ser esquecidos. Mas há aqueles que ficam na memória coletiva e são guardados para sempre como um rico troféu que pertence a cada um. Há 63 anos, Feira de Santana viveu uma emoção que continua sendo preservada pela sua real importância, marcada pelo ineditismo e pela superação.
Há fatos que podem marcar para sempre uma pessoa ou uma comunidade, com intensidade proporcional à sua relevância. E isso em qualquer segmento da sociedade. Em Feira de Santana, há exatos 63 anos, um desses episódios ocorria de maneira, pode-se dizer, surpreendente, mas extremamente positiva e gratificante para o interior do estado, pelo seu ineditismo e pelas mudanças provocadas no cenário reinante e aparentemente imutável: o título de Campeão Baiano de Futebol Profissional pelo Fluminense de Feira Futebol Clube (FFFC).
Hoje, depois de meio século, talvez alguém relativize o fato olhando os dias atuais de “correria”, mudanças e desapego às coisas antes profundamente estimadas. Mas, na década de 1960, para um clube do interior, que há nove anos ingressara no futebol profissional sofrendo preconceito da torcida e da imprensa da capital, para a qual o tricolor era “os tabaréus”, “os vaqueiros”, foi extremamente marcante, até porque, para chegar ao inédito título, o representante da Terra de Senhora Santana teve que enfrentar o “imbatível” Esporte Clube Bahia, na Fonte Nova, três vezes consecutivas e colocar a faixa de campeão.
Na época, o certame estadual era disputado em turnos, que podiam ser dois ou três. Em 1963, foram dois turnos, com o tricolor enfrentando: Botafogo, Galícia, Vitória, Ypiranga, Guarany, Leônico, Bahia e São Cristóvão. Invicto no primeiro turno, o Flu só não venceu o Bahia e o São Cristóvão — curiosamente o mais forte e o mais fraco — empatando em 0 x 0 com ambos. No segundo turno, apesar de sofrer duas derrotas, para o Galícia e o Ypiranga, o tricolor chegou em igualdade de condições com o Bahia para decidir o título em dois jogos na Fonte Nova, ou “melhor de três”, se a decisão não acontecesse em dois jogos. A terceira e última partida era chamada de “negra”.
Nos dois primeiros jogos, a torcida do Bahia, podendo-se incluir a maioria dos árbitros e da crônica esportiva da capital, sofreu duramente com os empates: 0 x 0 e 1 x 1. Mas o sofrimento maior e definitivo veio no terceiro e último jogo: Fluminense 2 x 1 Bahia. O maltratado e discriminado Fluminense deixava de ser “o tabaréu” para ser o campeão baiano, tirando, pela primeira vez, o título que até então só ficara com clubes de Salvador. Outro detalhe significativo é que, ao contrário do EC Bahia, que tinha um elenco caro com jogadores famosos, o feirense usou como base o time de aspirantes, bicampeão baiano da categoria, com apenas três reforços: o veterano meia Ary, ex-jogador do Botafogo do Rio e Bahia, e os aspirantes do Botafogo carioca Dagoberto e Iroldo.
O técnico Antônio Conceição, que até então só havia dirigido equipes da capital, como Ypiranga e Botafogo, utilizou no time campeão estadual seis jogadores aspirantes, oriundos de clubes amadores locais — Mundinho (Ypiranga), Chinesinho (Mecânico), Val (Mecânico), Misael (Pé de Serra), Renato (Bahia FS), Carlinhos (FTC futebol de salão) —, três do futebol carioca (Ary, Dagoberto e Iroldo) e Ninoso, cearense que já fazia parte do elenco. No jogo final, na vitória de 2 x 1, Biriba marcou para o Bahia, Iroldo empatou e Renato Azevedo assinalou o gol do título para o Fluminense.
O Fluminense campeão baiano de 1963: Mundinho, Mizael, Chinesinho, Ninoso (capitão do time), Val e Carlinhos Malaquias; Dagoberto, Almeida, Renato Azevedo, Ary e Iroldo. O técnico foi o soteropolitano Antônio Conceição. Na diretoria: Josellito Julião Dias — Juca Dias (presidente); Alberto Oliveira e Enádio Costa Morais (vices); Antônio Santos e Jorge Franqueira (secretários); Osvaldo Franco (diretor social); Romeu Pinto (departamento de amadores); Emilson Falcão e Ederval Falcão (departamento profissional); Rafael Xavier de Jesus (diretor de sede); Augusto Matias, Waldy Pitombo e Jackson do Amaury (departamento médico).
Assim, no dia 8 de março de 1963, o Fluminense de Feira Futebol Clube proporcionava a Feira de Santana, então com 150 mil habitantes, um momento de emoção praticamente indescritível, que deve ficar para sempre como um dos capítulos mais marcantes da sua história.
Por Zadir Marques Porto
Um cidadão tranquilo, respeitoso e trabalhador, durante muito tempo ocupou a vida intensamente, mas sem deixar que isso mudasse o seu comportamento. Foi militar, comerciante, professor, administrador, secretário municipal, radioamador e poeta, sem esquecer o papel de chefe de família.
Cordial, sempre atencioso e voltado para o trabalho, o professor Almiro Vasconcelos (Almiro de Almeida Vasconcelos) foi um feirense que viveu o ritmo de sua terra e deu a sua contribuição para vê-la em desenvolvimento. Passos firmes, sem precipitações, por sabê-las desnecessárias, cumpriu sua jornada de vida iniciada na Rua Direita — atual Rua Conselheiro Franco —, onde nasceu em 22 de abril de 1915. Como outros garotos da sua geração, ia ao cinema e jogava futebol, assim, aos 16 anos, foi um dos fundadores do Bangu F.C., inspirado no clube carioca de grandes cracks, a exemplo de Zizinho, o “mestre Ziza”. Apesar de homônimos, o Bangu feirense era alvinegro e o carioca, vermelho e branco. Na época, era difícil encontrar material esportivo no comércio, e o Bangu feirense tinha as cores do Botafogo do Rio de Janeiro. Nessa época, também ele deu os primeiros passos na literatura, com breves poemas expressando a sua sensibilidade.
Dos pais Aurélio e Martiniana, nascidos na zona rural de Feira de Santana, Fazenda Campos, herdou disposição para o trabalho, seriedade e cidadania, sentimentos que conduziram sua existência. Esteve entre os atiradores do Tiro de Guerra (TG-17), com quartel localizado na Praça Dois de Julho, Rua Desembargador Filinto Bastos, e concluiu seu período militar com a patente de sargento. Estudou na Escola Normal de Feira de Santana, que ostentava um emérito quadro docente e lhe proporcionou uma formação apurada e a extensão da sua vocação poética. Produziu muitos trabalhos, vários deles publicados no jornal semanário Folha do Norte, então grande proporcionador da difusão cultural na Cidade Princesa.
“Clemência” é um dos seus poemas mais expressivos. Trabalhos seus fazem parte da antologia Poetas Feirenses, que foi organizada e publicada pelo poeta Alberto Alves Boaventura, com trabalhos de 32 vates, incluindo “Clemência” e “Martírio”, do professor Almiro. O livro Memorial Poético de Feira de Santana, de autoria da professora Lélia Vitor, também conduz o leitor à sua obra poética. Almiro Vasconcelos foi professor de Inglês do Colégio Santanópolis, onde também atuou como secretário. Foi um dos fundadores da Loja Maçônica Luz, Segredo e Harmonia, da qual, em duas oportunidades, foi o seu venerável.
Por cerca de uma década, exerceu a atividade de comerciante, como representante da Texaco Corporation, importante multinacional de petróleo e derivados. Logo após, tornou-se sócio da Casa das Peças, ao lado do empreendedor Antônio Nepomuceno. No segmento comercial, atuou ainda com prosperidade em uma revendedora de veículos da marca Ford, associado ao cunhado Luiz Azevedo. Posteriormente, com a larga experiência reunida na atividade, ao lado do empresário Adelson Prado, instalou a Reformadora Baiana de Pneus.
Todavia, foi muito mais amplo o trabalho por ele exercido, incluindo-se aí a administração da Casa do Estudante de Feira (ICEFS), estabelecimento localizado em Salvador, destinado a abrigar estudantes de Feira de Santana que, aprovados no vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), não tinham como residir na capital baiana. Na época, não existia a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e o ensino superior só podia ser feito em Salvador. Também coordenou o Cerin, organismo da esfera estadual. O professor Almiro administrou a Fazenda Zabelê, do pecuarista e dirigente bancário Vicente Quezado Leite, e foi secretário do Sindicato Rural de Feira (hoje Sindicato dos Produtores Rurais), que era presidido por Vicente Leite.
Na vida pública, o professor Almiro teve importante participação como secretário de Educação do Município em duas oportunidades, entre 1964/1967, na gestão do prefeito Joselito Falcão de Amorim, e no governo de Newton da Costa Falcão, em 1972/1973. Nessa gestão, foram muitas as realizações na área da educação, como a construção e reconstrução de prédios escolares e a modernização da merenda escolar, dentre outras. Foi atuante radioamador. Casado com a senhora Zilva Castor da Silva, que lhe deu sete filhos, o professor Almiro Vasconcelos faleceu aos 87 anos de idade, no dia 6 de julho de 2002.
Por Zadir Marques Porto
A quantidade de pacientes internados, vitimados por acidentes de trânsito é mais do que o dobro da capacidade máxima dos leitos destinados pelo HGCA (Hospital Geral Clériston Andrade) para o setor de ortopedia. As vítimas de acidentes, em grande número jovens, são maioria entre os internados na instituição, que atende várias dezenas de municípios da macrorregião de Feira de Santana.
São 36 vagas para que os acidentados sejam acomodados. Mais de 40 estão em macas espalhadas pelos corredores, à espera de uma vaga na ortopedia, que não raro demora a aparecer.
Outro ponto não apenas importante, mas extremamente preocupante, é que mais de 70% dos acidentados internados no HGCA são motociclistas. Uma verdadeira epidemia.
Para a diretora do hospital, Cristiana França, além da conscientização sobre pilotagem defensiva, urge a criação e aplicação de leis mais duras para punir os irresponsáveis ao guidom. “Além da recuperação, que é demorada, estas pessoas podem ficar com danos físicos permanentes, como a amputação de parte da perna”, disse a diretora. Os joelhos são as partes mais atingidas nestes choques.
Afirmou que a redução dos casos de acidentes aumenta a capacidade de atendimento do hospital em outras especialidades médicas. Além de longos, os tratamentos ortopédicos são dispendiosos.
Outro ponto afirmado por ela, foi com relação à projeção do aumento de mortes nestes acidentes, por instituições especializadas.
Os levantamentos indicam, segundo ela, que em apenas quatro anos, a quantidade de mortes no mundo por acidentes vaio superar as causas de óbitos mais comum, que são AVC e ataques cardíacos.
Se mostrou preocupada com a chegada de novas montadores de motocicletas no país, que vai resultar na concorrência e a consequente redução nos preços destes veículos.
E, se nada de efetivo for feito, o aumento de motocicletas nas ruas vai refletir diretamente na permanente lotação das áreas de ortopedia dos hospitais.
O problema vai ser sentido no futuro não muito distante, prevê a diretora, porque a maioria dos envolvidos nestes acidentes ainda estão em idade produtiva, que é interrompida temporária ou permanentemente.
Com uma bomba no pé esquerdo, que arrombou a rede na inauguração do estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, e atemorizava os goleiros, Gilson Porto começou nas peladas de rua na Cidade Princesa. Depois, como titular da camisa onze do Corinthians, foi o primeiro feirense a vestir a camisa da seleção brasileira.
O primeiro, de forma classificatória, é o principal, ou o mais importante de uma relação, o iniciador de um processo, o primogênito, e Gilson Porto foi o primeiro jogador nascido em Feira de Santana a vestir a camisa da seleção brasileira como titular, fato que, dentro do esporte, tem importância histórica. Depois dele, outros também foram convocados e até tiveram maior destaque; todavia, as circunstâncias que o levaram ao escrete têm aspectos interessantes. Filho mais velho de Mario Porto (Mario Pereira Porto), considerado o maior artilheiro do futebol feirense de todos os tempos, com passagens pelo Galícia e Bahia no profissionalismo, Gilson começou cedo nas peladas de rua comuns nos anos finais da década de 1950 e década seguinte.
Sem os recursos tecnológicos de hoje – televisão, internet, celular –, os jogos de futebol eram acompanhados através do rádio, jornais e revistas especializadas, como Revista do Esporte, Esporte Ilustrado, Globo Esportivo e outras. Também não havia a formação de atletas como atualmente, com garotos a partir de sete, oito anos em diante. Surgiam times formados pela gurizada de uma rua, escola ou grupos de amigos, que adquiriam camisas simples, geralmente com nomes de times do Rio de Janeiro, que mais chamavam atenção pelas transmissões radiofônicas.
Mas, se era escassa a logística, era farta a participação de talentosos garotos que, sem a presença ditatorial de orientadores que impõem sistemas táticos de forma prematura, podiam mostrar criatividade hoje rareando. No final da década de 1950, a professora Edna Laureana, fundadora da Escola General Osório (no início da Rua Castro Alves), hoje ampla e moderna, mas com outro nome, promoveu o primeiro campeonato de futebol infantojuvenil de que se tem notícia no interior do estado, com perfeita organização e um adendo que partiu dos próprios clubes: o “passe”, que significava a possibilidade de um clube ceder um jogador a outra agremiação por determinado valor, como ocorria no futebol profissional. Vale o registro da “venda” de Gilson Porto pelo time Primavera, de Zé Perneta, ao Guarany por 100 contos!
Foi nesse cenário, com times como Guarany, Coroa Vermelha, Tupinambá, Dois de Julho, Grajaú e Monte Pascoal (havia preferência pela colocação de nomes ligados à história do país), que surgiam valores que depois seguiriam no profissionalismo, e um deles foi Gilson. Fisicamente forte, veloz, destemido, bom drible e uma bomba no pé esquerdo, que atemorizava os goleiros, logo ele estava jogando em times de adultos. Aos 16 anos, houve interesse do Guarany, que disputava o campeonato baiano de profissionais, mas ele ficou no Bahia de Feira — ainda amador —, que tinha na diretoria seu pai, Mario Porto.
Os amistosos eram costumeiros, e o time do Bonsucesso veio a Feira jogar com o Fluminense. O técnico Gradim, do time carioca, ficou impressionado com o futebol do extrema-esquerda do tricolor local, que havia sido emprestado pelo Bahia/FS, e, chegado ao Rio de Janeiro, indicou-o ao Fluminense. Gilson Porto foi para o “pó de arroz”, que, coincidentemente, contava para a posição no time juvenil com três homônimos seus: Gilson Nunes, Gilson Puskas e Gilson. Diante da concorrência, Mario Porto preferiu o retorno do filho. Em 1964, Gilson fez três jogos no time do Santos FC, mas o Bahia/FS pediu muito pelo seu passe. O Botafogo, onde ele chegou a jogar, entrou na concorrência, mas o Corinthians levou a melhor.
Aos 23 anos, titular da camisa 11 do time mosqueteiro a partir de 1967, Gilson viveu grande fase no futebol paulista. O Corinthians representou o Brasil contra a Inglaterra em jogo realizado em Londres. Assim, o veloz ponta-esquerda foi o primeiro feirense na seleção brasileira. Depois, no Internacional de Porto Alegre, na inauguração do estádio Beira-Rio, em jogo contra o Benfica de Portugal, Gilson Porto causou assombro ao arrombar a rede que acabara de ser colocada, cobrando falta da intermediária. O time gaúcho venceu por 2 x 1.
Vale lembrar que, antes disso, em 1957, quatro anos depois de ingressar no profissionalismo, o Fluminense de Feira fez parte da seleção brasileira que disputou a Taça Bernardo O’Higgins com a seleção do Chile, em Santiago. O Brasil foi representado pela seleção baiana, formada com base nos times do Vitória e Fluminense. O Chile ficou com o troféu. O Fluminense cedeu vários atletas, dentre eles: Peri-Peri, Valder, Raimundinho, Elias Oliveira e Valter Vieira, mas nenhum deles era feirense.
“Recordar é viver, eu ontem sonhei com você”. Lembrar esse hit dos antigos carnavais é rememorar a Micareta dos pierrôs, arlequins, colombinas, escolas de samba, confetes, lança-perfume, ruas decoradas e trio elétrico sem cantor. Já beirando os 90 anos, portanto na terceira idade, a festa nascida na Cidade Princesa, agora marcada para o mês de novembro, tem uma história rica, com capítulos aqui levemente lembrados e que, por certo, são guardados com fidelidade por antigos foliões ou pessoas que, embora não brincassem, iam às ruas da Princesa para ver a folia.
A fixação da Micareta de Feira de Santana deste ano (2026) para o mês de novembro, além de se constituir em uma novidade — a festa sempre foi realizada no primeiro semestre do ano, daí o slogan “O Carnaval de Abril que sacode o Brasil” — vai possibilitar, dentre outras coisas, maior espaço de tempo para a organização do evento e para os que gostam de rememorar aspectos do passado que, por força da dinâmica da vida contemporânea citadina, vão se diluindo tão rapidamente que sequer chegam ao alcance das novas gerações. O que não deveria ocorrer, já que a festa de Momo da Cidade Princesa tem peculiaridades, transcendendo a origem europeia do evento, com cores e valores próprios, bem sertanejos. A Micareta pode-se dizer, sem hesitação: é FEIRENSE!
A festa, realizada pela primeira vez em 1937, por conta do insucesso do Carnaval devido às fortes chuvas da época, tem um adendo importante que era citado repetidamente pelo desportista Manuel Fausto dos Santos (Manoel de Emília). “A festa já existia na Rua de Aurora (Rua Desembargador Filinto Bastos). Era realizada pelos rapazes da família Fadigas”. Garantia o presidente do Botafogo FC de Feira de Santana que, na juventude, havia integrado, como afirmava, o Bloco As Melindrosas, do Tanque da Nação e Rua de Aurora, que tinha como concorrente direto na festa o Bloco Filhos do Sol, da Rua do Sol (Rua J.J. Seabra).
Esse é um dos aspectos interessantes da história da Micareta, que teria assim começado na Rua de Aurora e logo expandida para a Rua Direita (Rua Conselheiro Franco), onde viveu uma das suas etapas mais importantes, até ser transferida para a Avenida Getúlio Vargas e, mercê ao espantoso crescimento verificado, desaguar no atual sítio: a Avenida Presidente Dutra. Na Rua Conselheiro Franco, no final da década de 1960 e na década seguinte, já incorporando na folia as praças da Bandeira e Jota Pedreira, a Micareta viveu os disputados concursos entre escolas de samba, blocos e afoxés. Havia ainda os blocos de índios e batucadas, com grande diversidade de opções para os foliões e, mais ainda, para famílias inteiras que se aglomeravam nas calçadas, esperando e torcendo pela Rainha e Princesas da festa, que desfilavam em carros decorados e feericamente iluminados. O risonho e feliz Rei Momo, que ganhava e ostentava a simbólica chave da cidade, também desfilava saudando seus súditos.
A Micareta de rua em Feira de Santana tinha muito de “um reino encantado”, onde todos podiam brincar sem medo, sem preocupação. Ao som do trio elétrico — só instrumentos de corda e marcação, sem cantor — o ambiente era próprio para a festa. Com o ar ligeiramente impregnado pelo lança-perfume e verdadeiros banhos de talco, confetes e serpentinas, a folia tomava conta das ruas. A primeira voz da Micareta em cima de um trio elétrico foi de Jota Morbeck, excelente artista que teve brilhante percurso na música baiana e faleceu, ainda jovem, em um mergulho no mar. O Trio Paturi (patrocinado pela aguardente do mesmo nome) foi pioneiro, ou um dos pioneiros, na cidade.
O sonho propiciado pela Micareta, com muitos criativos mascarados, incluía o desfile do bloco Ali Babá e os 40 Ladrões, que atraía multidões, em especial crianças. Já o concurso de escolas de samba, embora distante qualitativamente do que ocorria no Rio de Janeiro, gerava rivalidade entre os grupos e o público.
Escravos do Oriente, Unidos de Padre Ovídio, Juventude do Samba, Malandros do Morro, Marquês de Sapucaí e Acadêmicos do Samba propiciavam belos desfiles, mesmo com parcas condições financeiras. Inspiradas nas grandes escolas de samba da Cidade Maravilhosa, essas entidades enriqueciam a festa tentando repetir suas congêneres cariocas, com temas diversos, bons sambistas, alas criativas, porta-bandeiras, mestres-salas e ótimas baterias.
Outro ponto marcante da Micareta da Cidade Princesa, mais evidenciado a partir da transferência da festa para a Avenida Getúlio Vargas, era a decoração. Toda a área delineada para a ocorrência do festejo ganhava figuras relacionadas ao evento, principalmente de forma rememorativa. Quem adentrasse no circuito sentia-se folião, mesmo que não o fosse. A iluminação decorativa sustentava o panorama típico da folia. Temas e artistas plásticos diferentes davam, a cada ano, um ambiente próprio ao evento. O artista plástico Zé Maria e a dupla Charles Albert e André foram alguns dos responsáveis pela decoração do sítio da festa.
“Passe na Lapa, chofer, que eu quero ver aquela mulher”, “Mandei fazer pra você, Maria, uma fantasia de papel crepom...”, “Colombina eu te amei, mas você não quis...”, “Tai, eu fiz tudo pra você gostar de mim...”, “Bandeira branca, amor, não posso mais...” eram hinos do Carnaval entoados nas ruas durante os quatro dias de festa, enquanto, no trio elétrico, o imortal frevo pernambucano “Vassourinha”, como algo obrigatório, fazia o povo dançar no impulso dos acordes rápidos e melodiosos.
Vale lembrar que, logo no seu nascedouro, a festa era animada através de marchas e sambas de autores feirenses como Carlos Marques, Aloísio Rezende, Homero Figueiredo, Juca Sampaio, Elisiário Santana, Anacleto Carvalho, Honorato Bonfim e Romário Braga, dentre outros.
Evidente que, nos seus 89 anos de realização e com tantas fases ultrapassadas, a Micareta de Feira de Santana, referindo-se ao festejo de rua, reúne historicamente muitos outros aspectos interessantes que ficaram para trás e, naturalmente, sem perspectiva de volta. Mas esses recortes aqui referidos, de algum modo, amenizam o vazio na memória de muitos, em especial de antigos foliões, produzido pela sucessão dos anos.