O vice-prefeito de Feira de Santana, Pablo Roberto, desiste, pela segunda vez, de uma candidatura que ele mesmo anunciou como certa. Assim como ocorreu quando se lançou à Prefeitura, em 2024, não mais vai concorrer a deputado federal, no pleito de outubro. Nada há de errado nisso. O político pode, sim, mudar de planos, antes e depois de eleições, muito embora as pessoas gostem de rotular a quem recua seguidamente de um propósito. Nada que possa representar qualquer prejuízo efetivo ao ex-deputado estadual, que abandonou a Assembleia Legislativa após se eleger vice de Zé Ronaldo em 2024. Até porque a jovem liderança não enganou a quem quer que seja, nem faltou com a palavra a ninguém.
Isto posto, vamos tentar entender o gesto aparentemente nobre de Pablo. O leitor mais atento se recorda, é claro, que nas últimas semanas uma polêmica dominou o noticiário político: a possível dupla candidatura a deputado federal no grupo comandado por Ronaldo. Pablo e Zé Chico estavam determinados a disputar uma vaga no Congresso mas eles mesmos duvidavam que pudessem se eleger juntos. Na verdade, admitiam que poderiam morrer abraçados, caso um não convencesse o outro, ou uma terceira figura não conseguisse o consenso - papel exercido com muita competência pelo prefeito.
Ao comunicar que não vai mais concorrer, nesta quinta-feira, Pablo apresentou uma justificativa até certo ponto lógica, mas não acreditada pelos jornalistas que acompanham o processo: “Eu vou continuar em Feira de Santana, na condição de secretário municipal, ao lado do prefeito, ajudando na gestão e na educação. Espero que essa decisão seja entendida pelo povo. O nosso sentimento, nosso desejo, é que, nesse momento possamos continuar aqui”, reproduz o "Acorda Cidade".
Disse ainda que “muita gente cobrou isso também, da confiança que foi depositada na última eleição, que ainda está muito recente; de ter escolhido o prefeito José Ronaldo para gerenciar a cidade e Pablo Roberto para vice-prefeito". Então, ele assinala, "por respeito à população, a nossa decisão nesse momento é seguir”. É um argumento e tanto, mas não pode não colar. As pessoas devem estar imaginando uma série de motivos para seu afastamento da disputa, não exatamente este. Com muita boa vontade, podem até admitir que esta tenha sido uma das razões, não a única.
Há uma diferença, capital entre a negativa de Ronaldo aos convites para que concorresse a vice-governador e a desistência de Pablo em sua candidatura a deputado federal. O prefeito, assediado por União Brasil e PT (do governador Jerônimo Rodrigues, senador Jaques Wagner e ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa), pôde arguir o que pregou em sua campanha, que não renunciaria ao mandato, se fosse eleito para o Paço Municipal. Pablo não fez este compromisso e, em tese, não precisaria se preocupar com uma reação popular.
Mas, então, o que pode ter sido, de fato, a causa de mais esta desistência do vice-prefeito? É um diagnóstico difícil. Se lá atrás, em 2024, ele pode ter recebido a promessa de contar com o apoio maciço do prefeito para deputado federal este ano, agora é complicado prever o teor de um possível acordo político - essas desistências geralmente são acompanhadas de entendimentos para um futuro próximo. Em política, a compensação é algo que faz parte dos processos, embora nem sempre se alcance o objetivo final.
Depois desta eleição nacional, virão as municipais, em 2028. Parece distante, mas, acredite, leitor, muitos já trabalham pensando neste pleito. Poderia se pensar em algo como Pablo se tornar o candidato do grupo à sucessão de Ronaldo. Mas a tendência é que o atual chefe do Executivo busque a reeleição, alguém vai lembrar, com sensatez. Bem, uma coisa é certa. Zé Chico é quem mais lucra com o vice-prefeito fora do páreo. Sobre quem Pablo deverá apoiar para a Câmara Federal, aliás, ele faz mistério, por enquanto. “As coisas ainda estão se encaixando e no momento oportuno vamos anunciar a decisão com relação à minha participação e à do nosso grupo nas eleições de 2026”, desconversa.
Em conversa com a Tribuna, neste final de tarde, Pablo rechaçou especulações em torno de compensações. "O prefeito Ronaldo tem sido muito leal e correto em seus compromissos. Jamais conversaríamos nestes termos". Segundo ele, o que pesou mesmo foi a sua determinação em continuar "buscando resultados expressivos para a educação do município, maior desafio da minha vida pública".
Ronaldo marca um gol de placa, com esta conciliação. Afinal, evitando dois concorrentes do mesmo grupo, ele reduz significativamente o risco de o seu time mais uma vez não eleger ninguém para deputado federal, como ocorreu nos dois últimos pleitos. Para fechar com chave de ouro, basta conseguir que Pablo se integre à campanha do "candidato único" Zé Chico.