O
desastre climático no Rio Grande do Sul colocou a extrema-direita,
momentaneamente, na defensiva. Jair Bolsonaro, o “mito”, por exemplo, lançou
algumas de suas costumeiras atrocidades – nem é preciso dizer que, sequer, se
solidarizou com as vítimas – e, depois, resolveu ficar doentinho, internando-se num dos hospitais preferidos dos ricaços
em São Paulo.
Aqui
ou ali, um negacionista climático lançou um absurdo qualquer, sem muito
sucesso. Por enquanto, pródigo em despejar absurdos, só o governador gaúcho,
Eduardo Leite. Mas é bom não subestimar o “mito”, nem seus acólitos. Logo à
frente inventam uma asneira qualquer para explicar as enchentes e os danos
imensos que vitimaram os gaúchos.
Provavelmente,
alguém inventará uma “cloroquina ambiental” para reposicionar o “mito” e seus
acólitos no cenário político. Dias atrás um vereador lá do Rio Grande do Sul
lançou uma “pérola”: segundo ele, as árvores é que são responsáveis pelas
enchentes. Mas essa aí, por enquanto, não colou. Caso falte algo melhor, é
possível que a resgatem.
Cloroquinas
ambientais à parte, é bom o brasileiro médio começar a se ocupar com as
mudanças climáticas. Reconstruir o Rio Grande do Sul exigirá significativos
aportes de recursos e esforços imensos dos gaúchos e dos brasileiros em geral,
também. Afinal, todos contribuirão, pagando impostos, para o esforço.
Também
é bom lembrar que, mais à frente, novas catástrofes virão, porque parte das
mudanças é irreversível. Isso exigirá, mais uma vez, investimentos em obras de
recuperação. Mas o que se coloca como urgente, no momento, são recursos para
prevenção. É melhor, portanto, frear o avanço dessas mudanças que tentar, mais
à frente, mitigar seus danos.
A
Feira de Santana não chegou a ser atingida por nenhuma catástrofe. Mas o calor
que se estendeu de setembro a fevereiro e as chuvas torrenciais que caíram no
período mostraram que as mudanças climáticas estão aí e só não vê quem não
quer. Ou quem crê em cloroquina ambiental.
O
fato é que, no campo, parte da população foi afetada pela escassez de água para
a produção e até para o consumo humano. Por outro lado, regiões da cidade foram
alagadas pelas fortes chuvas e muita gente padeceu com expressivas perdas
materiais. O tema, portanto, não pode seguir sendo ignorado na Feira de Santana.
O que os candidatos à
prefeitura feirense tem a dizer sobre a questão? Vamos torcer que o tema seja
tratado com a devida seriedade. Sem cloroquinas ambientais.
Foram
divulgados hoje (17) números referentes à taxa de alfabetização dos
brasileiros. Os dados são do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, o IBGE. Segundo o levantamento, a Feira de Santana contava com
exatas 458.736 pessoas com idade superior a 15 anos alfabetizadas. Isso
corresponde a 93,4% da população nessa faixa etária. Há, deduzindo-se, 6,6% de
analfabetos por aqui.
Comparando
com os municípios do entorno, a Feira de Santana vai bem, obrigado: Conceição do
Jacuípe, com 91,09% até fica perto; mas Riachão do Jacuípe (85,1%), Santo
Estêvão (84,87%), Santa Bárbara (81,94%), Santanópolis (81,57%), Serra Preta
(79,78%) e Antônio Cardoso (79,4%) ficam mais distantes.
Note-se
que o problema tende a ser maior em cidades menores, pelo menos nesta amostra superficial
do entorno. É que, nestes lugares, tende a permanecer residindo no município a
população mais velha e que, no passado, não teve acesso à educação. Os mais
jovens se alfabetizam e migram em busca de oportunidades de trabalho.
Só
que a Feira de Santana não ostenta a mesma performance quando comparada a
Salvador, por exemplo. Na capital baiana, o percentual de alfabetizados é
maior: 96,55% da população ou 1,942 milhão de pessoas. São três pontos
percentuais de diferença.
O
desempenho feirense é um pouco melhor que o brasileiro, – no País são 7% de
analfabetos com mais de 15 anos – mas perde feio na comparação com regiões como
o Sul (3,5%) e o Sudeste (3,9%). O número, obviamente, é bem mais favorável na
comparação com o Nordeste (14,2%) e com a própria Bahia (12,6%). A Bahia,
aliás, segue com o maior número absoluto de analfabetos do Brasil: 1,4 milhão.
Imagino que, mais à frente,
profissionais da educação e estudiosos do tema vão se debruçar para entender melhor
essa realidade. Creio que na Feira de Santana vai acontecer o mesmo. A
princípio, aqui a situação calamitosa observada em muitos municípios
brasileiros é realidade distante. Mas, ao mesmo tempo, não estamos próximos de
municípios e regiões mais avançados. O desafio da educação na Princesa do
Sertão permanece colocado e não é pequeno.
No
final da manhã de hoje (16) fui surpreendido pela notícia da morte do cantor
Missinho. Ex-vocalista da banda Chiclete com Banana, o artista – também
instrumentista e compositor – figura na memória musical de quem cresceu na
Bahia ao longo dos anos 1980. Naquela época a banda emplacou sucessivos
sucessos, que, até hoje, sobrevivem no repertório da chamada “axé music”.
Ironicamente,
o início e o fim da trajetória do artista na mais famosa banda da música baiana
aconteceram aqui na Feira de Santana. Pelo que li na imprensa, os irmãos
Marques – proprietários da Chiclete com Banana – viram Missinho tocando guitarra
baiana em um trio, no remoto ano de 1980, aqui na Princesa do Sertão. Convidaram-no
para compor o grupo – que ainda se chamava Scorpions – e começou ali a
relação.
Seis
anos depois – em 1986 – a parceria chegou ao fim. Aqui também, na Feira de
Santana. Um desentendimento, após uma apresentação na Micareta, selou o
rompimento. Naquele momento, Missinho já compusera – e cantara – alguns dos
principais sucessos da banda. A fama se consolidava, mas ele saiu antes do auge.
Nos
anos seguintes ouvi muitas versões sobre o rompimento, de supostas testemunhas
quase oculares. A mais frequente delas dizia que o grupo, após concluir sua
apresentação no circuito da Micareta, recebera a orientação para fazer nova apresentação.
Missinho insurgira-se, abandonando o trio e a banda ali na Getúlio Vargas.
Começaria, na sequência, carreira solo, sem muito sucesso.
-
Vi quando aconteceu. Ele desceu do trio, segurando a mão da namorada. Quase
esbarrou em mim – Foi a versão que ouvi, anos atrás, de um folclórico contador
de causos da Feira de Santana. Ouvi outras versões, sempre relacionadas
ao mesmo episódio. Até hoje não sei até onde vai a verdade.
Não
é exagero apontar que Missinho – junto com Luiz Caldas – foi um dos principais
pioneiros da música baiana, que estertora há tempos. Além de músico talentoso,
Missinho compunha. Suas letras, impregnadas de céus, luas, estrelas, lumes e
favos de mel, reportavam a dimensões que extrapolavam a vida convencional,
limitada, engessada.
Pois
o grande artista baiano faleceu num 16 de maio. Não tive como não recordar de
um trecho de “Táxi Lunar”, de Alceu Valença, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo: “No
dia dezesseis de maio, viajei”. Bem a calhar: viagem, lua e 16 de maio...
Para quem viveu – e curtiu –
o movimento musical que surgiu na Bahia nos anos 1980, a perda de Missinho é
irreparável. Mas ficará, como legado, a sua obra, como ele mesmo previu numa
entrevista...
Confesso
que, sob determinados aspectos, tenho saudades da Era Fernando Henrique Cardoso
(1995-2002). Obviamente, o terrível legado liberal – ou neoliberal – não deixou
saudade nenhuma. Mas, naquele tempo, o brasileiro médio babava de admiração
pelo então presidente, que falava inglês e francês, dera aulas em prestigiosas
universidades da França e dos Estados Unidos e fora professor da Universidade
de São Paulo.
Essa
admiração sinalizava, até então, que o brasileiro nutria certa admiração pelo
saber, pelo conhecimento. Tudo mudou 20 anos depois, – a reeleição de FHC foi
em 1998 – pois o brasileiro médio jactava-se da própria ignorância e anunciava,
com estardalhaço, que ia votar em alguém bem mais ignorante do que ele: Jair
Bolsonaro, aquilo que muitos veneram como “mito”.
Os
quatro anos posteriores ainda estão vivos na memória de quem sobreviveu.
Ignorantes e analfabetos passaram, desde então, a “equiparar” a própria
ignorância ao conhecimento e aos esforços de doutores e pós-doutores, à
sabedoria de renomados cientistas. O delírio só poderia resultar na catástrofe
do negacionismo e nas 700 mil mortes da pandemia de Covid-19, para não esticar a
conversa e mencionar outros episódios.
Mas,
inconformada, a turba decidiu que precisava de mais. Então, teria direito à
própria realidade. E aos próprios fatos, obviamente. Daí começaram os
virulentos ataques à imprensa e aos jornalistas. Hoje, pretendem equiparar sua delirante
versão da realidade – as “fake news” – à própria realidade. Noves fora os
fatos, vêem tudo como um confronto de “narrativas”.
A
usina de “narrativas” – é melhor “fake news” – escolheu, como bola da vez, o
desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul. Estão pouco se lixando para
os gaúchos vítimas das enchentes, assim como não ligaram a mínima para as
vítimas da Covid-19. Ontem inventaram mentiras para manter o lunático que os
guia no poder; agora, recorrem ao mesmo expediente para desgastar o governo
eleito pela maioria dos brasileiros.
Para
quem fez oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso, não deixa de ser
irônico sentir saudades. Afinal, naquela época prevaleciam um projeto de poder
e uma concepção de sociedade dos quais muitos discordavam. Mas havia – é
inegável – um compromisso com a civilização e com a própria democracia.
Quem peleja nos segmentos
fanático e alucinado da oposição, hoje, tem compromisso só com a morte, a
destruição e a barbárie. As delirantes mentiras sobre a tragédia no Rio Grande
do Sul apenas vem – mais uma vez! – reforçar tudo aquilo que já se sabe...
A
imprensa costuma afirmar que os partidos de esquerda no Brasil não têm política
eficiente de segurança pública. É verdade. A extrema-direita, que até outro dia
estava no poder, também não. Ao contrário: o discurso de armar a população para
a autodefesa serviu, no fundo, para equipar o crime organizado. Nunca o
banditismo esteve tão bem armado. As milícias, – a variante do banditismo
entrincheirada no Estado – por sua vez, puderam renovar seus arsenais, ampliar
seu poder.
Vulnerável
pelas ruas, a população enxerga o crime apenas nos ladrões de celular, nos
traficantes miúdos pelas esquinas, nos descuidistas, nos assassinos sempre à
espreita. Daí – em muitos casos – se render ao discurso fácil de mais polícia,
mais viaturas, mais armas, mais munições, mais corpos estendidos no chão. Pouco
informada, ignora que aquela é apenas a face mais visível, menos poderosa,
menos complexa e menos sofisticada do crime.
No
Brasil, hoje, o crime se aprimora e se organiza como nunca. Virou indústria,
negócio altamente rentável. Seus ganhos não se distribuem apenas entre aqueles
que se envolvem diretamente na atividade. Para que estes possam atuar, há uma
vigorosa – e silenciosa – estrutura por trás. Políticos, empresários, policiais,
membros do judiciário, servidores públicos, há muita gente beneficiando-se com
a estrutura corrupta que ampara o crime.
Muitos
que inflam o peito para criticar a descriminalização de drogas, por exemplo,
estão pouco preocupados com saúde ou costumes. Defendem, no fundo, a estrutura
corrupta e criminosa que os beneficia. Como essa gente embolsaria seus milhões
se a produção e a comercialização de drogas fossem legalizadas? Essas questões,
porém, surgem pouco na imprensa. Isso quando surgem.
Protegidos,
os criminosos de colarinho branco ignoram a matança que se vê pelas ruas. Desde
que seus lucros estejam assegurados, está tudo bem. Aliás, a própria expressão
“criminoso de colarinho branco” sumiu da imprensa faz tempo. Hoje, há pouca
gente disposta a importuná-los.
Vê-se pouca disposição na
Bahia e na Feira de Santana para discutir essas questões. Aqui, aliás, a
preocupação deveria ser grande. Afinal, despontamos como campeões nessa matança
que deveria envergonhar o Brasil. Mas imagino que tudo vá seguir na mesma toada,
como sempre seguiu. Não há debate sobre alternativas ao horror, à matança, ao
extermínio. Essa – é necessário reconhecer – a extrema-direita ganhou...