O Governo Federal anunciou que revogará o DECRETO Nº 12.600, DE 28 DE AGOSTO DE 2025, que previa estudos para a concessão à iniciativa privada da hidrovia do Rio Tapajós, do Rio Madeira e do Rio Tocantins, na região amazônica. O ato normativo foi editado em 2025, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A decisão foi comunicada pelo ministro da Secretaria-Geral da
Presidência, Guilherme Boulos, e pela ministra dos Povos Indígenas, Sônia
Guajajara, no fim da tarde desta segunda-feira
(23), após reunião realizada no Palácio do Planalto, em Brasília.
A revogação da norma era a principal reivindicação de comunidades
indígenas que vivem na região do Baixo Tapajós, próximo à cidade de Santarém,
no Oeste do estado do Pará.
Há mais de um mês, os indígenas vêm organizando protestos
contra o decreto presidencial. Eles chegaram a ocupar o escritório da Cargill, uma
multinacional do agronegócio que está instalada no Porto de Santarém, às
margens do Tapajós.
Representantes dos povos originários também lideraram
protestos em São Paulo e em Brasília. Um grupo de indígenas, inclusive, permaneceu
acampado na capital federal. "Os povos indígenas vêm de uma manifestação
de mais de 30 dias questionando o decreto, apontando os efeitos que poderiam
ter para suas comunidades, também para quilombolas e ribeirinhos”, disse
Boulos.
Frente a isso, enfatizou o ministro, durante todo esse
período, a Secretaria-Geral da Presidência e o Ministério dos Povos Indígenas mantiveram
o diálogo com as lideranças indígenas. E, “após um processo de discussão dentro
do governo, que ouviu várias posições, hoje, se firmou a decisão pela revogação
do Decreto 12.600".
Boulos ressaltou que o Governo Lula tem compromisso com a
escuta do povo, dos trabalhadores e dos povos originários. “Esse é um governo,
inclusive, que leva a escuta ao ponto de recuar de uma decisão própria, por
entender, compreender a posição desses povos. Esse não é o governo que passa a
boiada, esse não é o governo que passa por cima da floresta, que passa por cima
dos povos originários", ressaltou, em entrevista a jornalistas.
Comemoração – Nas redes
sociais, as organizações indígenas que lideravam os protestos comemoraram a
decisão governamental favorável à pauta das comunidades originárias.
Hidrovias – O modal aquaviário é considerado um
importante corredor logístico para escoar produtos do agronegócio, especialmente
oriundos do Mato Grosso e que usam portos do Pará para a exportação. O modelo,
no entanto, enfrenta resistência das comunidades instaladas nas áreas
ribeirinhas.
A estimativa é de que cerca de 7
mil indígenas, de 14 etnias diferentes, vivam no Baixo Tapajós, conforme o
Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (Cita), que representa os povos da região.
Histórico – Em 2025, após o protesto de indígenas Muduruku que interditou a entrada da
Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, o Governo Federal chegou a se comprometer com
a realização da consulta prévia aos povos do Rio Tapajós sobre o projeto de
hidrovia na região, seguindo uma determinação da Convenção nº 169 da
Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A ministra Sônia Guajajara enfatizou que a
decisão foi tomada após muito diálogo, respeitando-se os pactos políticos internacionais,
como é o caso da própria Convenção 169. Adotado em 1989, o tratado versa sobre
os direitos dos povos indígenas e tribais nos Estados-membros em que vivem e
sobre as responsabilidades dos governos, que têm a obrigação de proteger esses
direitos. "Para nós, é considerar o direito à consulta, livre, plena e
informada, o direito de escuta, como foi anunciado em novembro, na COP30, em
diálogo com eles. Então, aqui, hoje, a gente vem reafirmar esse nosso
compromisso com o respeito à Convenção 169 e o direito de escuta dos
povos", destacou a gestora.
No início do mês, o Governo Federal já havia decidido suspender o processo de contratação de
uma empresa para realizar a dragagem do leito do Rio Tapajós, obra que permitiria
a passagem de embarcações mesmo em períodos de maior seca.
As entidades indígenas da região
criticaram a falta de estudos ambientais adequados e apontaram o impacto que concessão
da hidrovia e da dragagem do rio provocaria sobre territórios tradicionais,
modos de vida e espiritualidade dos povos.
As instituições que representam os povos originários também
alertam para riscos ambientais e sociais associados à pesca; erosão das
margens; ressuspensão de substâncias contaminantes depositadas no fundo do rio,
como é o caso do mercúrio utilizado nos garimpos; e danos, que poderiam ser
irreversíveis, em um dos principais corredores ecológicos da Amazônia.
*Com informações da Agência
Brasil.