O
tsunami mercantil chinês acelerou-se na segunda metade da década de 2000. À medida
que os produtos chineses se diversificavam e agregavam qualidade, os mercados
mundo afora foram se abrindo. Note-se, porém, que o avanço se deveu não apenas
à qualidade crescente, mas sobretudo aos preços. O engenhoso “Capitalismo de
Estado” chinês produzia com custos baixos e câmbio subvalorizado, o que tornava
seus produtos atrativos.
No
Brasil havia um ingrediente adicional, já mencionado no texto anterior: o
câmbio permanentemente sobrevalorizado e a extorsiva taxa de juros reais, o que
foi letal para boa parte da indústria brasileira. Some-se a isso a ausência de
um projeto – implementado via políticas públicas – para a indústria nacional.
A
conjuntura favoreceu a entrada abundante de produtos chineses no Brasil. Na
Feira de Santana, a condição de entroncamento rodoviário estratégico e
principal polo comercial do interior da Bahia, obviamente atraiu a atenção dos
empresários chineses. O tsunami mercantil, então, ganhou forma, reconfigurando
o centro da cidade, favorecendo o acesso a bens de consumo pela população mais
pobre e tornando os orientais protagonistas do comércio local.
As
transformações suscitadas pelo processo são evidentes. Quem vai ao Feiraguay
percebe que, para além do entreposto, o comércio se irradiou pelas ruas e praças
próximas, dinamizando toda a região. Note-se que não são apenas os produtos
chineses que estão ali, mas muitos empresários estão presentes com suas lojas e
– até mesmo – trabalhadores chineses e coreanos.
O
tsunami mercantil, porém, não se limitou às cercanias da praça Presidente
Médici. Avançou também em direção à histórica rua Conselheiro Franco,
tornando-a uma espécie de embrião da 25 de Março, a rua de comércio popular no
centro de São Paulo, famosa pela presença de comerciantes chineses. Ou à rua da
Alfândega, no centro do Rio de Janeiro ou, ainda, à avenida Sete de Setembro,
em Salvador.
Talvez
seja precipitado comparar a Conselheiro Franco à 25 de Março, no que se refere
à presença mercantil chinesa, mas a famosa artéria feirense também está se
reconfigurando. As lojas tradicionais saíram de cena, arrebatadas pelo tsunami
mercantil chinês.
Não
falta quem alimente sentimentos xenofóbicos no que se refere à presença chinesa
no Brasil. Na relação entre os dois países, porém, há fatos incontornáveis. Um
deles é a sólida parceria comercial. O outro é que, indiscutivelmente, a
entrada dos produtos chineses baratos favoreceu a entrada de milhões de
brasileiros no circuito do consumo de diversos produtos.
Assim,
é necessário constatar que, no jogo mercantil que se dá em via dupla, o Brasil
também vem ganhando muito.