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  • Feira de Santana, quarta, 28 de janeiro de 2026

Wellington Freire

Roberval Pereyr, O Vate das Umburanas

28 de Janeiro de 2026 | 14h 52
Roberval Pereyr, O Vate das Umburanas

Em 02 de Setembro de 1812 Napoleão, a frente de suas tropas, penetra nos subúrbios de Moscou e depara com uma cidade quase que inteiramente vazia; a capital do inimigo foi abandonada e o Imperador francês marchou mais de um milhar de quilómetros para um encontro com o vazio; quase tão triste quanto uma batalha perdida, só mesmo uma batalha ganha, como nos ensina o general Arthur Wesley. Setembro de 2025, o inverno recuou, dando espaço ao lento avanço de uma primavera ainda destituída de poder de imposição; um leve vento frio, último resquício de dias de inverno, ainda sopra. Sem olhar para a esquerda ou para a direita, com olhos fixos no chão sujo de uma cidade imunda, você caminha lentamente sabendo que debaixo do sol nada é glorioso. Você já não é mais um jovem, aqueles dias de outrora, quando a juventude queimava nas suas faces, ficaram para trás. Mas você possui energia e ânimo para os incessantes combates, por isso avança cabisbaixo e envolto numa aura de silêncio, como um cavalo gordo trotando nas estradas da Polônia. Você conhece todas essas ruas feias e de nomes sonoros e vazios; saindo da rua Investigador Bandeira você entra na rua Humaitá e, finalmente, como um chanceler de uma paisagem imaginária, você para e se posiciona na entrada da rua Bartolomeu de Gusmão.

Você levanta os olhos e observa: olhos planos e sem emoção, espiando, enxergam uma longa via que segue reta. Há 31 anos você faz esse mesmo percurso indo em direção ao mesmo lugar. Quando tudo começou, em algum momento de 1994, você era jovem e vagava sem rumo dando coices pelas ruas de sua cidade; naqueles dias você desperdiçava tempo e, de forma inconsciente, acreditava na imortalidade. Mas estando ali parado no início da Bartolomeu de Gusmão, você percebe que 31 anos se passaram e você perdeu o tiro de largada da corrida; ninguém lhe disse quando era hora de começar a correr. Você olha ao redor da via pública que você conhece tão bem; tudo por ali parece envolta na mesma feiura quase inconstitucional. Apenas você envelheceu e, sem fôlego, olha para a longa estrada à sua frente. Napoleão viu uma cidade vazia e anteviu a certeza do desastroso fim; mas você vê ali o início de uma longa marcha. A Rua Bartolomeu de Gusmão é longa, deserta, feia e com ares insalubres Ela funciona como um corredor de tráfego a ligar o Sobradinho e o Jardim Cruzeiro ao conjunto Habitacional Morada das árvores e ao Campo Limpo.

Percorrer essa via tão familiar não traz prazer, mas apesar disso você se desloca sem pressa e alcança os limites da área-alvo de sua incursão. Você vira à esquerda e se vê dentro dos limites iniciais de um novo bairro. Você caminha em ziguezague até visualizar uma placa numa esquina: Rua E. Você segue o traçado irregular da via até finalmente se deparar com o objetivo final de seu deslocamento: a casa de número 53. Ela está muito mudada atualmente, sofreu uma reforma que modernizou sua fachada exterior deixando-a com ares de modernidade arquitetônica. Você frequenta esta casa faz 31 anos; talvez seja melhor dito: você frequenta um cômodo desta casa faz 31 anos: a biblioteca do homem que ali vive, o poeta Roberval Pereyr, o Vate das Umburanas. E eis que ele surge, coloca parte de seu tronco para fora da janela da sala e lança sobre você a mesma piada de três décadas atrás. Apesar da piada infame, com passos hesitantes, você adentra o interior da habitação. No hall de entrada dois cachorros de tamanho reduzido produzem intenso ruído; você sente pouca estima por animais domésticos, por isso tenta se desvencilhar dos inoportunos anfitriões enquanto se aproxima da porta de madeira que serve de entrada.

Você entra, atravessa a sala e se senta no chão da biblioteca; você repete o mesmo gesto ao longo de 31 anos: cruza as pernas em posição de lótus, coloca suas mãos sobre as pernas e concentra todo o seu ser na audição dos sons que passam a preencher o ambiente empoeirado. Roberval, sentado sobre uma cadeira que um dia já foi chamada de confortável, inicia uma longa peroração. Desta feita, estamos ali reunidos para darmos início a um projeto editorial. Biografar, neste caso, é um ato de escuta radical: a tentativa de ouvir o silêncio que o poeta soube nomear. Escrever uma biografia foi uma decisão que resultou de uma constatação antiga, a saber: a necessidade de conclusão de um percurso existencial; uma forma de finalizar um ciclo, de devolver, sob forma inteiramente transformada, aquilo que foi absorvido ao longo de décadas de exposição direta à radiação que emana do centro daquela biblioteca. Como um peregrino que esteve ausente, percorrendo uma trilha-caminho na qual obteve a iniciação, você retorna para comunicar à sua comunidade aquilo que viu e vivenciou.

Essa caminhada pelas ruas de Feira é também a travessia interior do biógrafo: cada rua leva à biblioteca do Vate, e cada livro, à escuta de um silêncio que precisa ser interrogado com o mesmo rigor com que o historiador interroga suas fontes. É nesse ponto que o testemunho encontra o método, e a devoção cede lugar à crítica. Caminhei por essas ruas por trinta e um anos. Às vezes penso que o caminho até a biblioteca de Roberval é o percurso da própria biografia: o itinerário da escuta. Cada passo é uma tentativa de ouvir melhor, o outro, o Vate, o silêncio. É sob essa tensão que se ergue a tese que sustenta este livro: Roberval Pereyr é o Vate das Umburanas - aquele que, ao inscrever o verbo no solo do sertão, converte o silêncio em linguagem e o árido em claridade. Biografar um mestre ainda em pleno ofício é arriscar-se a ferir o sagrado.

É falar onde antes se devia apenas ouvir. A proximidade, esse dom e perigo, exige do biógrafo uma ética da distância: amar o biografado, mas não idolatrá-lo; compreender o homem, sem dissolver o mito. O rigor crítico é aqui uma forma de lealdade, não de frieza. Roberval Pereyr é o Vate das Umburanas. Esta não é uma designação meramente geográfica ou folclórica. O termo "vate" aqui recupera seu sentido arcaico e pleno: não um simples poeta, mas um vates, um profeta laico, um visionário cuja linguagem é instrumento de revelação. E "Umburanas" não é um simples endereço biográfico, mas a matriz cosmogônica de seu verbo. Este prólogo é, portanto, a escuta inicial dessa voz telúrica. É o único modo de honrar a complexidade do vate e a integridade de sua obra: examinando a forja da palavra sem extinguir o fogo sagrado que a anima.

É nesta encruzilhada - entre a admiração e o rigor, entre a intimidade e o tribunal da forma - que este texto se ergue, como uma longa marcha em direção ao centro radiante e silencioso de onde emana o verbo do Vate Roberval Pereyr.



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