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  • Feira de Santana, quinta, 09 de julho de 2026

Wellington Freire

O poder de impedir vale mais que o poder de ocupar

09 de Julho de 2026 | 08h 48
O poder de impedir vale mais que o poder de ocupar
Créditos: G1

Há uma imagem que costuma dominar o imaginário quando se fala no Estreito de Ormuz: a de uma passagem completamente fechada, navios imobilizados e o comércio mundial subitamente interrompido. Essa imagem, embora dramática, talvez seja também enganosa. Ela nos leva a pensar que controlar um estreito significa necessariamente bloqueá-lo. A estratégia iraniana parece sugerir justamente o contrário.

Talvez não seja preciso fechar Ormuz para dominá-lo. Basta convencer o mundo de que ele pode ser fechado a qualquer momento. Essa distinção é decisiva. Ela marca a passagem de uma lógica territorial para uma lógica psicológica. O objetivo deixa de ser impedir fisicamente a navegação e passa a ser instalar a incerteza como elemento permanente da circulação marítima. O espaço continua aberto; o medo, porém, funciona como uma barreira invisível. Trata-se de uma forma sofisticada de poder.

Na tradição clássica da guerra, o domínio era exercido pela ocupação. Conquistava-se uma fortaleza, um porto, uma cidade ou uma montanha. O controle decorria da presença física. Hoje, em muitos casos, basta produzir risco suficiente para que o próprio adversário altere seu comportamento. A coerção substitui a ocupação.

O Estreito de Ormuz oferece um exemplo quase perfeito dessa transformação. Não é necessário afundar dezenas de petroleiros. Não é preciso interromper totalmente o fluxo de petróleo. Alguns ataques seletivos, algumas embarcações atingidas e uma sucessão de alertas de segurança já bastam para produzir efeitos econômicos de enorme alcance. O prêmio dos seguros marítimos aumenta. Armadores reconsideram rotas. Empresas calculam novos custos. Mercados reagem em questão de minutos. O preço do petróleo incorpora um "prêmio de risco" antes mesmo que ocorra qualquer interrupção efetiva do abastecimento.

A economia contemporânea é extraordinariamente sensível à percepção de insegurança.Nesse sentido, um míssil nem sempre destrói um navio; muitas vezes destrói a confiança. E, em um sistema global baseado na previsibilidade das cadeias logísticas, a confiança tornou-se um ativo tão importante quanto a própria infraestrutura.

Essa talvez seja uma das maiores lições estratégicas do século XXI: impedir pode valer mais do que ocupar. A ideia não é nova. Durante a Guerra Fria, Thomas Schelling mostrou que o poder moderno frequentemente reside menos no uso da força do que na capacidade de influenciar decisões por meio da ameaça de empregá-la. O objetivo não é vencer uma batalha, mas modificar cálculos. Não é destruir o adversário, mas obrigá-lo a agir como se a destruição fosse sempre uma possibilidade concreta.

O Irã parece compreender perfeitamente essa lógica. Ao manter a possibilidade permanente de ataques no estreito, cria uma atmosfera de instabilidade que amplia seu peso político muito além de sua força material. Não controla todas as águas de Ormuz. Tampouco possui uma marinha capaz de enfrentar diretamente as grandes potências navais. Ainda assim, consegue transformar um corredor marítimo internacional em um espaço de permanente tensão estratégica.

Há nisso uma inversão interessante. Durante séculos, o poder marítimo foi medido pelo número de navios capazes de garantir a liberdade de navegação. Hoje, em determinados contextos, ele pode ser medido pela capacidade de tornar essa liberdade permanentemente incerta.

No fundo, o que está em disputa não é apenas um estreito, mas uma ideia de poder. A geopolítica contemporânea demonstra, cada vez mais, que controlar um espaço não significa necessariamente ocupá-lo. Em certos casos, basta convencer todos os demais de que atravessá-lo sempre envolverá um risco intolerável.

O domínio deixa então de repousar sobre a posse do território e passa a repousar sobre o controle das expectativas. A verdadeira fronteira já não é desenhada nos mapas, mas na mente daqueles que precisam decidir se vale a pena seguir adiante. É nesse ponto que a guerra deixa de ser apenas um confronto de forças e se transforma, sobretudo, em uma disputa pela administração do medo.





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