Os números que vi estampados nas páginas dos cadernos internacionais de notícias me deixaram perturbado. A estimativa de mais de dois milhões de soldados mortos ou feridos desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia desafia nossa própria compreensão de história. Depois de quatro anos de combates, o conflito já produziu um saldo humano superior ao de muitas guerras que marcaram o século XX, enquanto as linhas de frente se deslocaram apenas alguns quilômetros em vastos trechos do campo de batalha.
O contraste impressiona. Nunca houve tantos satélites, drones, sistemas de inteligência artificial e armamentos de precisão. Ainda assim, o resultado lembra muito mais as guerras de atrito da Primeira Guerra Mundial do que a imagem de uma guerra tecnológica, rápida e decisiva que predominou no imaginário estratégico das últimas décadas.
A história militar ensina que guerras são travadas para alcançar objetivos políticos. Foi essa a célebre formulação de Clausewitz ao definir a guerra como continuação da política por outros meios. A violência não constituiria um fim em si mesma, mas um instrumento destinado a produzir determinada ordem política. Essa definição, entretanto, suscita uma pergunta inquietante diante do conflito atual: em que momento a guerra deixa de servir à política e passa a servir apenas à própria guerra?
A questão não é retórica. Quando um conflito acumula milhões de baixas, consome recursos econômicos gigantescos, destrói gerações inteiras e produz alterações territoriais limitadas, é legítimo perguntar se ainda existe proporcionalidade entre os meios empregados e os fins perseguidos. A política continua conduzindo a guerra ou passou a ser conduzida por ela?
Os números ajudam a dimensionar esse paradoxo. Segundo o estudo divulgado pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), a Rússia teria perdido cerca de 1,4 milhão de militares entre mortos e feridos. A Ucrânia, entre 525 mil e 625 mil. São perdas humanas que transformam profundamente sociedades inteiras, alteram estruturas demográficas, pressionam economias e deixam marcas que sobreviverão por décadas ao silêncio das armas.
Ao mesmo tempo, observa-se uma estranha coexistência entre estagnação e inovação. Nas trincheiras, soldados continuam enfrentando minas, artilharia e ataques de infantaria, numa paisagem que lembra Verdun ou o Somme. Muito acima deles, porém, drones percorrem milhares de quilômetros para destruir refinarias, depósitos de combustível e centros logísticos. A guerra tornou-se simultaneamente arcaica e futurista. O século XXI combate com tecnologias inéditas, mas continua pagando o preço humano do século XX.
Há outro aspecto menos visível. Em conflitos prolongados, forma-se uma poderosa estrutura econômica, burocrática e política dedicada exclusivamente à continuidade da guerra. Fábricas ampliam a produção de armamentos, governos reorganizam orçamentos, sociedades adaptam sua rotina ao conflito permanente e decisões passam a ser tomadas sob a lógica da mobilização contínua. Nesse estágio, encerrar a guerra deixa de ser apenas uma decisão diplomática; torna-se um desafio político interno para todos os envolvidos.
Talvez seja esse o ensinamento mais sombrio da guerra na Ucrânia. O problema já não consiste apenas em saber quem conquistará mais algumas dezenas de quilômetros de território. A questão central é descobrir se ainda existe um objetivo político capaz de justificar um custo humano que cresce numa velocidade muito superior aos resultados militares obtidos.
Clausewitz advertia que a guerra deveria permanecer subordinada à política. Quando essa relação se inverte, a violência deixa de ser instrumento e passa a constituir um sistema que alimenta a si mesmo. Os dois milhões de mortos e feridos talvez representem mais do que uma estatística devastadora. Podem ser o sinal de que, em certos momentos da história, as guerras deixam de produzir vencedores. Restam apenas sobreviventes.
Nota: Nestes tempos em que vivemos, regidos pelo anti-intelectualismo e pela superficialidade, o rigor faz-se mais do que nunca necessário. Citei números ao longo do breve artigo. Devo citar fontes de onde os extraí. As informações sobre baixas na guerra na Ucrânia foram retiradas do site: Institute for the Study of war (ISW). Disponível em: https://understandingwar.org/