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  • Feira de Santana, ter�a, 23 de junho de 2026

Wellington Freire

O império da presença

23 de Junho de 2026 | 10h 01

Por que os Estados Unidos mantêm navios de guerra mesmo quando a guerra termina?

O império da presença
Créditos: Jornal Opção

Ontem li uma frase aparentemente banal em uma recente reportagem sobre a movimentação da frota norte-americana que mereceu atenção especial. Após o anúncio do fim do bloqueio naval aos portos iranianos, um oficial americano declarou que as forças dos Estados Unidos permaneceriam na região para garantir o cumprimento dos acordos firmados. Em outras palavras: a crise diminuiu, mas os navios continuaram ali.

À primeira vista, isso pode parecer contraditório. Se o bloqueio terminou e as negociações avançaram, por que manter porta-aviões, destróieres e submarinos nas proximidades? Não seria mais lógico regressar às bases e reduzir os custos de uma operação tão dispendiosa?

A pergunta é legítima. A resposta, porém, nos conduz a um dos princípios mais antigos e duradouros da história estratégica: o poder não consiste apenas em vencer guerras; consiste em permanecer presente.

Existe uma tendência recorrente, especialmente entre observadores não especializados, de associar forças militares exclusivamente ao combate. Imagina-se que exércitos, esquadras e aeronaves existem para destruir inimigos. A história, contudo, sugere algo diferente. As maiores potências frequentemente utilizaram suas forças não para lutar, mas para evitar que fosse necessário lutar.

Nesse sentido, a presença militar é uma forma de ação política. Um porta-aviões não é apenas uma plataforma de combate. É também uma mensagem. Sua simples permanência em determinada região comunica intenções, compromissos e capacidades. Para os aliados, representa uma garantia. Para os adversários, um aviso. Para os atores indecisos, uma demonstração de que determinada potência continua interessada nos rumos daquela área estratégica.

Foi isso que compreendeu o almirante norte-americano Alfred Thayer Mahan no final do século XIX. Em sua visão, o poder marítimo não derivava apenas da capacidade de vencer batalhas navais, mas da habilidade de manter presença contínua nas principais rotas e pontos de estrangulamento do comércio mundial. A influência de uma potência dependia menos de sua disposição para guerrear do que de sua capacidade de estar onde os acontecimentos ocorriam.

Décadas depois, o britânico Julian Corbett refinaria essa percepção. Para ele, o objetivo central do poder naval não era destruir frotas inimigas, mas controlar situações políticas por meio do domínio dos espaços marítimos. A guerra era apenas um instrumento eventual. O verdadeiro objetivo era moldar comportamentos.

O que observamos hoje no Golfo Pérsico, no Mar da China Meridional ou no Pacífico Ocidental é, em grande medida, a aplicação contemporânea dessas ideias. Quando um grupo de ataque de porta-aviões permanece em determinada região após uma crise, sua função não é necessariamente combater. Sua função é impedir que a situação retorne ao estágio que tornou necessária sua chegada. Trata-se de uma lógica preventiva. O navio converte-se em uma espécie de garantia material da ordem desejada.

Essa realidade não é exclusiva da era moderna. Os romanos compreenderam isso há dois mil anos. A palavra imperium, frequentemente traduzida como "império", possuía originalmente um significado mais concreto. Designava o poder legítimo de comandar e fazer cumprir decisões. O Império Romano não existia apenas porque possuía legiões vitoriosas. Existia porque essas legiões permaneciam distribuídas pelas fronteiras, estradas, portos e províncias. A autoridade de Roma era inseparável de sua capacidade de estar presente.

O mesmo princípio reaparece em diferentes momentos da história. A Royal Navy britânica não dominou os mares apenas porque venceu a batalha naval de  Trafalgar. Dominou-os porque permaneceu durante décadas nos principais corredores marítimos do planeta. Da mesma forma, a influência global dos Estados Unidos não repousa exclusivamente em seu arsenal, mas em sua capacidade de manter forças avançadas simultaneamente no Atlântico, no Mediterrâneo, no Oriente Médio e no Indo-Pacífico.

Por trás da notícia sobre navios que permanecem em uma região após o encerramento de uma crise encontra-se, portanto, uma verdade estratégica mais profunda. O poder raramente se manifesta apenas no momento da batalha. Muitas vezes ele se expressa na rotina silenciosa da permanência.

A história militar costuma celebrar os grandes confrontos. Salamina, Canas, Trafalgar, Midway. Entretanto, impérios não são sustentados apenas por vitórias. São sustentados pela capacidade de permanecer visíveis, previsíveis e influentes muito depois que os combates terminam.

Os porta-aviões que continuam navegando após o fim de uma crise não representam uma contradição. Representam a própria essência da estratégia. Afinal, para as grandes potências, a guerra pode acabar; a presença, não.

Nota: Ao leitor interessado, remeto ao clássico: PARET, Peter. Construtores da Estratégia Moderna. 2 v. Rio de Janeiro: Bibliex editora, 2000.



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